jul 15

 

 

Cada dia que passa mais gente ocupa esse farol. Se eu disser que não fico brava, estarei mentindo. Quando comecei nesse farol, só tinha uma garota aqui, e essa garota era muito legal. Não sei por que sumiu. Um dia ela me disse “até amanhã, querida” e o amanhã chegou e ela não. Nunca chegou esse “até amanhã” dela. Não tenho idéia do que possa ter acontecido com ela, foi uma pena ela ter sumido, ela era legal, muito legal. De lá pra cá, a cada semana há mais e mais e mais e mais e mais meninas entregando papéis de apartamentos de todos os tipos e tamanhos e distâncias, um mais diferente que outro, alguns longe que só indo pra ver. Elas vestem cada roupa engraçada, ridículas, é pra chamar atenção!

Eu e outra garota entregamos panfletos do mesmo prédio. Nossa roupa é igual, simples, azul escura, com o símbolo da corretora, e larga. A outra garota parece ser nova no ramo, parece estar confusa, não parece estar gostando. Me aproximo dela e digo que é melhor ela sorrir, senão a supervisora vem dizer bobagens. Ela sorri, um sorriso tão feio que eu fico com vontade de lhe dar um tapa na cara. Digo a ela, no sinal verde, que eu também não gosto de ficar sorrindo à toa, mas é necessário. As modelos que saem nas capas das revistas também não gostam de ficar sorrindo,

mas é necessário: as pessoas gostam de ver sorrisos, dá uma sensação de que está tudo bem. O farol fecha e eu sorrio para um japonês que não me olha, para uma loira que sorri e diz não, para um velho que arranca o panfleto da minha mão, para um motorista de lotação que fica olhando meus peitos e, certamente, pelo retrovisor, olhou minha bunda, e para um motoqueiro que jogou o panfleto pelos ares assim que o farol abriu. Digo à garota nova que não é necessário sorrir sempre, só quando a supervisora está na área. Hoje ela está na área, então sorria.

A supervisora deve saber que quando ela não está quase nenhuma menina sorri, por isso lançou um boato para assustar as meninas: disse que manda alguns funcionários passarem pelo farol, só pra ver se sorrimos. Eu não acho que seja verdade, mas tem umas meninas que não tiram o sorriso da cara. Olha aquelas duas ali. Elas sorriem porque precisam do emprego e têm medo de… fechou o farol. Como essa menina é quieta! Gostei muito dela. Gosto de pessoas quietas, normalmente elas gostam de ouvir o que tenho pra falar. Eu tenho muita coisa pra falar, eu gosto de falar. Tem gente que prefere ouvir do que falar. Tem gente que prefere falar do que ouvir. Eu prefiro falar do que ouvir e ela ouvir do que falar. Isso é bom: nós duas combinamos. Ela é super legal. O farol abriu e eu disse à ela sorrindo que a vi sorrindo e que, provavelmente, a supervisora também, e isso é bom.

Perguntei se ela já trabalhou antes e ela disse que sim. Contei meus últimos três empregos em cinco intervalos de farol. Depois falei mal das meninas bonitinhas e com roupa justa que entregam panfletos daqueles prédios chiques. “São putas”, falei, e ela concordou com a cabeça. Na verdade, não acho que elas sejam putas, acho que elas são como nós duas: meninas que precisam ganhar dinheiro. A diferença é que usamos roupas simples e largas e elas, coloridas e apertadas. Os homens dos carros dão mais atenção pra elas do que pra mim, mas eu não tô nem aí, o meu namorado, certamente, dá mais atenção pra mim do que pra qualquer uma delas e eu tô aqui pra trabalhar e não pra ficar com conversa mole com esses idiotas-escrotos-nojentos-sebosos-porcalhões e filhos da puta. Muitas delas param pra conversar. Ainda bem que eles não puxam assunto comigo, se puxarem vão levar um fora, digo isso pra minha nova amiga e ela concorda com a cabeça.

Quantas vezes esse sinal abre e fecha por dia! Abrir é verde, fechar é vermelho, no meio desses dois o ATENÇÃO amarelo. Um dia vou ter um carro, pode ter certeza. Ela diz também, meio sem certeza.

Vou falar pra supervisora me trocar de farol. Isso é uma decisão. Não é por causa de você- gostei de você- nem por causa das outras meninas, não gosto muito delas, mas não tô nem aí pra elas, quero que elas explodam. É por ter cansado desse farol . Te falei que tenho uma boa memória? Ela diz que sim. Não me lembro de ter te falado isso. Te falei mesmo? Ela diz que não. Pois é, tenho uma boa memória, se você me falar algo hoje que eu não goste, daqui a cinqüenta anos eu vou lembrar. Se você me humilha hoje, daqui a cinqüenta anos eu vou lembrar e vou fazer tudo pra te humilhar. Eu sou assim. Penso assim: fez aqui, paga aqui, e acho quem não pensa assim otário (ou otária se for mulher), ingênuo (ou ingênua se for mulher), idiota (ou… idiota é unissex!). Você pensa assim? Ela diz que sim. Pergunto: Assim como? E ela responde assim como eu. Que bom que você não é ingênua, você é inteligente, tem futuro. Na certa, daqui a cinqüenta anos, como eu, vai passar num carrão aqui e essas mesmas meninas vão continuar entregando panfletos! Essa é a diferença entre nós e essas meninas, principalmente essas exibidas de roupa apertada. No futuro, eu e você vamos ser felizes, vamos evoluir, e elas vão continuar assim, mas vão estar todas caídas e nojentas com essas roupas. Não que eu pense que esteja mal, não, não penso assim, eu tô bem, feliz… Eu só quero dizer que vamos ser muito mais felizes, não é verdade? Ela responde “verdade” com o mesmo sorriso do início da conversa, só que dessa vez não tive vontade de bater nela. Ela terá futuro como eu, então não merece apanhar, quem merece tomar tapas são essas invasoras que invadiram o meu farol. O farol não é meu, mas eu fui a segunda a panfletar aqui. Mas vou embora, menina. Qual seu nome menina?, estamos conversando há um tempão e nem sei seu nome, menina. Ela diz que é Jurema e eu digo o meu: Sou a Lúcia. Então Jurema, vou pedir pra mudar de farol por que estou enjoada desse, eu sou uma pessoa que não gosta de rotina, cansei da rotina desse farol. E outra, Jurema, eu já conheço muitas das pessoas que passam aqui, é verdade, elas normalmente passam todos os dias no mesmo horário, a não ser no sábado e no domingo, que mudam de roupa, de cara e são até simpáticas. Não, não entregue nada agora, fique aqui só esse farol fechado, você não vai perder nada, a supervisora foi até um outro farol. Olhe aquele cara. Ele trabalha pra lá e mora pra lá. Ele, hoje, está quinze minutos atrasado, sei disso, olhe a cara dele, não estou falando isso pela cara dele, é que tenho uma boa memória, já te falei isso, né?

Eu vou sair desse farol, se a supervisora permitir, principalmente por isso: não agüento mais essas pessoas que me vêem todos os dias e fingem que nem me conhecem, fingem que nunca me viram, nem mesmo sorriem pra mim, a não ser num domingo idiota de sol. Não quero saber mais deles, eu digo bom dia, boa tarde e boa noite e eles são frios. Então, que vão pra puta que os pariu, não tô nem aí pra eles, que se fodam, que todos se fodam. Não você, Jurema, TODOS são esses filhos da puta que passam aqui todos os dias e fingem que nunca me viram e essas putas de roupas apertadas, metidas, tenho vontade de meter a mão na cara de cada uma delas, tenho vontade de pegar uma chave, essa aqui da minha casa, e riscar o carro de todos esses desgraçados que passam aqui diariamente com essas caras de sonsos e piranhas.

Pra não fazer uma coisa nem outra, Jurema, vou pedir pra minha supervisora, ou melhor, pra nossa supervisora, me mudar de farol. Vou ver se ela muda também você para o farol pra onde eu for. Jurema diz que não precisa, que está bem nesse farol, é perto da sua casa e pra ela não é ruim, não.

Chego perto dela, cuspo na sua cara e digo baixinho pra só ela ouvir: você é igual a todos, sua putinha, piranha, você é igual a esses sonsos desses motoristas, você é igual a essas vacas barbeiras, você é uma desgraçada como todos, daqui a cinqüenta anos vou passar aqui de carro e vou fazer em você e nessas piranhas coloridas o que vou fazer agora! Dou-lhe um tapa na cara, cuspo na marca da minha mão que ficou na cara branca de Jurema e viro as costas, deixando-a parada sem reação. Traidora filha da puta, vou falar mal dela pra supervisora.

 

 

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