jul 15

 

 

Eu preferia ir com a cabeça do Piu-Piu ou do Frajola ou do Pernalonga ou do Power Ranger ou da Minie ou da Margarida ou do Pluto ou dos Teletubies ou do Pokémon ou qualquer cabeça que escondesse a minha. Mas nessa festa, eles queriam uma Branca de neve e me dizem, desde criancinha, que sou a cara da Branca de Neve.

Sempre que me perguntam o que sou ou o que faço, digo com uma dor no coração que sou atriz. A dor no coração é pelo fato de não conseguir viver da minha profissão. Faço animação de festa de criança, ganho muito pouco em cada festa, mas como faço muita festa, consigo me manter. Mas sou uma atriz. Meu coração está doendo e eu me sinto como uma puta contrariada. Me sinto infeliz. Estudei teatro quatro anos, fiz artes cênicas, estudei a história do teatro, estudei as potencialidades da minha voz, do meu corpo, enfim, estudei, estudei e estudei pra poder dizer hoje que sou atriz. Hoje faço animação de festa de criança. Amo interpretar personagens. Não personagens como a Branca de Neve em uma pecinha idiota e sem graça com atores medíocres para crianças tolas. Muito menos Piu-Piu, Frajola, Pluto, Power Rangers, não, isso pra mim é bobagem, é só pra não passar fome. Amo fazer teatro, interpretar personagens, enfim, essa é minha vida, mas as pessoas não gostam de teatro, não vão ao teatro, principalmente em peças de artistas iniciantes como é o meu caso, então fica difícil me manter só com teatro.

Estou num ônibus em pé, e quem me olha pensa que estou mal humorada. Acerta. Estou puta. Puta como uma puta puta. Na sacola leve da Levi’s que trago no ombro esquerdo está a roupa colorida da branca de neve. Quem me olha não pensa apenas que eu estou puta. Pensa que a Branca de Neve está puta. Estou com a maquiagem já na cara, com a tiara da Branca de Neve e tudo. Estou a cara da Branca de Neve. Tem uns dois paspalhos feiosos que não param de me olhar. Fodam-se. Não gosto quando ficam me secando dessa forma como me secam, eles me olham com uma cara de necessitados que me dá nojo. As mulheres não gostam de homens assim, necessitados, a não ser as que não se dão valor, as que se dão valor, como eu, gostamos de homens que estão bem, equilibrados.

Estou a caminho da festinha em um bufet de classe média média. Na porta só vai ter Corsa, Uno, Gol, Palio, Fiesta, não vai passar disso. O povo da classe média adora imitar o povo da classe alta. É patético. Por pensar em patético, eu bem que preferia estar com a cabeça do pateta na cabeça, mesmo não podendo respirar direito, prefiro que as pessoas não vejam minha cara, com as máscaras pelo menos, eu não preciso fingir uma expressão feliz, eu posso até chorar enquanto danço com as crianças contentes. Mas não, sou muito requisitada para interpretar a Branca de Neve. Às vezes tenho vontade de fazer sei lá o quê, talvez sumir, sei lá pra onde, talvez, sei lá, não sei, sei que as vezes fico confusa, muito confusa, tenho vontade de não ter nascido, mas nasci e estou aqui, quase chegando no bufet, com a certeza de que na quarta-feira terá uma graninha na minha conta. Graninha graninha mesmo. Não dá pra quase nada. Mas pelo menos é alguma coisa.

Desci do ônibus e ouvi um paspalho gritar lá de dentro “pega no meu anãozinho, Branca de Neve”. Não liguei. É só um infeliz que me desejou a viajem toda com uma ponta de esperança de me comer. Nunca isso iria acontecer com um paspalho desse, nunca! Quando me viu descer, o sonho acabou e ele externou o que pensava. Acho que foi isso que acabou de acontecer, acho mesmo.

Caminho lentamente olhando pras bexigas coloridas em volta de uma casa grande que é a casa onde funciona o bufet. Vejo uma grande poça de água, filha da chuva recente. Paro e vejo o céu cinza no chão. Vejo também, minha cara de desânimo. O que eu faço com essa cara desanimada? Tenho que mudar a expressão, essa tristeza tem que sair da minha cara. Mesmo sendo atriz, não consigo mudar a expressão. Melhor ir caminhando, está chegando minha hora, vou direto para o banheiro e enquanto estiver me trocando, choro, solto todas as lágrimas necessárias para mudar a expressão, se alguém perguntar o motivo, digo que minha tia morreu, ela morreu mesmo, mas como não tinha contato com ela, nada sofri. Vou fazer isso.

Entrando no bufet, vejo a Márcia Souza, boa atriz, ela está com uma cara de mágoa,

de raiva, de choro, de tudo de ruim, ela está mal, mas não tem problema, ela nem vai precisar chorar pra mudar de expressão: ela vai fazer a bruxa má. Não consegui segurar, desabei a chorar, mesmo antes de entrar no banheiro.

 

 

 

 

 

 

 

One Response

  1. Jeane Hanauer Diz:

    Absolutamente genial!

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