esse é um dos textos que vai entrar no meu novo livro DIÁRIO DE BORDO DE UM PIRATA, sobre a turnê do solo CARTA DE UM PIRATA por todo país…
72- Mairiporã. Teatro Obras Sociais, aos fundos da igreja local= teatro da igreja. Bela montanha ao meu lado esquerda. Para alunos de uma escola noturna= 100 pessoas (cabiam 100), dia 06.10.2004.
Depois de uma pequena viajem em ônibus comum, aportamos em Mairiporã.
Mairiporã é uma pequena cidade moradia a quarenta minutos de sampa. A grande maioria da população local trabalha em São Paulo.
A apresentação foi no único teatro da cidade que fica aos fundos da igreja católica, lugar conhecido como Teatro das Obras Sociais – já que tudo que acontece lá tem sua renda revertida para as obras sociais da igreja. O público foi o de uma escola estadual do período noturno onde encontrei uma grande adesão. Ao passar nas salas fazendo aquela performance meio trailler da peça já tinha sacado que tudo iria dar certo. Pra eles, aquele cara (eu) entrando bruscamente em suas salas era algo esquisito e engraçado ao mesmo tempo, o que gerava uma curiosidade importante. Lutei contra todo o desinteresse iminente ao fato de ninguém me conhecer nem nunca ter ouvido falar de mim e derrubei o adversário.
Taí uma boa razão pra fazer televisão. Ficar conhecido para o grande público se interessar em ver sua peça (sem estranhar suas motivações para, por exemplo, fazer teatro).
Considero absolutamente natural o desinteresse que ronda, por exemplo, os novos artistas. Vivemos um dia a dia muito tulmutuado, corrido, etc e tal, então, é natural os interesses se voltarem pelo que está mais acessível. Não faço parte dos imbecis que ficam xingando metafisicamente o povo que não vai ao teatro ou só vai a peças de artistas de TV, enfim, repito, isso é natural e repito são imbecis os que batem nessa tecla. Pura redundância. A questão sempre é O QUE VOCÊ VAI FAZER COM ISSO?
Como é mais fácil ficar falando mal do Statuos Cuo, milhares de babões frustrados e vez em quando invejosos, ficam falando mal do povo. É tudo culpa da burrice do povo. Todos os seus fracassos artísticos são culpa da burrice do povo. Ou são esses artistas-babões que são espertos demais? Fodam-se. Para os artistas que só reclamam, mostro meus teatros lotados pelo Brasil em apresentações como essa em Mairiporã, por exemplo. Fui lá, ralei, paguei mico, passei em 30 salas de aula. Riram pra mim e de mim. Olharam-me nos olhos. Me levaram a sério. Me tiraram de prego, otário, filho da puta. Me cantaram. Chamaram-me de lindo, bom, case comigo. Mil coisas aconteceram. Coisas que fortalecem o ego. Coisas que destroem qualquer ego. Não importa. Tô com Milton Nascimento. Todo artista têm que ir onde o povo está. Foda-se o ego. Nada que um beijo na boca da sua menina bonita não cure. Expus-me. Isso é que é tirar a roupa. Mostrar o cú em pecinhas de teatro mais ou menos pra mim não significa nada. Vá lá encarar 1000 que nunca viram teatro. Isso que é nudez. Olhe esses olhos sem virar a cara. Sinta todos os cheiros e se precisar saia correndo, mas sem desviar os olhos, mil olhos. Fiquei nu com muito prazer, muito prazer em te conhecer. Tu não é melhor que ninguém. Nem eu. Veste essa roupa e vamos trocar umas idéias. Pare de falar mal do povo e tente olhar seu público nos olhos com seus olhos de cima. Põe essa calça. É fácil falar mal de 170 milhões se tu não tem coragem pra olhar nos olhos nem de 1. OK. Vai aí minha vivência: No tal teatro obras sociais cabiam 100. Sabe quantos tinham na platéia? Cem. 100. E agora, meu irmão, vou fazer o quê? Chamar o povo de burro? Xingar a TV? Foda-se a TV. A questão agora é muito simples: o que é que vou fazer com essa adesão 100 por cento desse público? Juro uma só coisa pra você: esses 100 representavam 100 milhões!
E se eles não gostarem da minha peça? E se gostarem? Se gostarem grito um auto-elogio e fica por isso mesmo. Se for mal grito que eles não entenderam. São burros. Culpa da TV. É sua saída? Pois não é a minha! Pra mim, o artista tem que comunicar (pelo menos o eu-artista quer se comunicar – pelas mais variadas possibilidades possíveis e inimagináveis). Se conseguiram na TV, eu aqui sozinho nesse palco, expondo minhas vísceras através da carta de um pirata vou conseguir e…
Beleza. Deu tudo certo. Batalha vencida, com suor-sangue-gozo.
Martelo batido, missão cumprida, carta encenada em Mairiporã, joguei meu futebol, tal como se tivesse no maracanã.
O público esteve sempre ativo, tal jogo de futebol, foi vivo como jogo importante, tipo semi-final de campeonato brasileiro. Sempre comparo o teatro com o futebol então, aí vai mais uma: no futebol a torcida exerce forte influência. A presença ou não de torcedores, o modo como esses torcedores se portam, enfim, tudo isso, exerce grande influencia sobre os atletas, conseqüentemente influenciando no resultado do jogo. Mesmo os jogadores tendo treinado muito determinadas jogadas, na hora, no calor da hora, na gritaria ou silêncio da torcida a coisa é outra. O mesmo acontece com o teatro. Por mais ensaiada que a peça esteja, naquele momento vivo em que o público esta lá, respirando, pulsando, arfando, tossindo, pescando, enfim naquele instante tão vivo de encontro é que a coisa acontece. Treino coletivo não é considerado jogo oficial tal como ensaio geral não é teatro. Mas aí vai uma diferença entre teatro e futebol: mesmo se a torcida não for, por mais terrível que o jogo seja, ele vai acontecer. Claro que se não existir torcedor pra nenhum dos times, tal partida não terá o mínimo nexo. Mas ela pode acontecer, com ou sem nexo. Mas o teatro sem a torcida, sem a platéia, sem espectador, não acontece: o teatro é o que acontece no vácuo de ar entre o ator e o público. Então temos que dar um jeito de levar público aos nossos teatros. Aí sim eu digo: bola pro mato por que é jogo de campeonato.
Cada um usa as armas que tem. Ter um rosto conhecido facilita muito isso. Numa cidade como Mairiporã, por exemplo, seria muito fácil: algumas pessoas sabendo que tal ator vai fazer peça lá é o suficiente: corre um bom boca a boca que abraça a cidade em pouco tempo. Não que isso garanta público, mas é um baita começo.
Sempre que um ator chamado “global”- e prefiro não usar em definitivo esse termo, já que é um rótulo limitante (mesmo que muitos adorem essa limitação)- faz uma peça de teatro fora dos grandes eixos culturais (as principais capitais), vejo uma acolhida calorosa do público. Gosto disso. Gosto de teatro. Acho uma arte viva e potencializadora. Digo “uma arte viva”, por que nunca sinto o público passivo. Pelo menos nas minhas peças. Normalmente, o público do teatro é mais vivo do que o público do cinema. O cinema não pede a participação do público, como exige um jogão de bola ou uma boa peça de teatro.
Pois acho uma pena quando vejo tantos desses atores que tem uma grande acolhida de público fazendo pecinhas evidentemente de merda que só servem pra exibir seus corpinhos que logo logo vão mixar (já que é natural, oras bolas) ou pra faturar uma graninha que nem se compara a grana que a TV proporciona. Se for pra se exibir, continue na TV, porra! Se quiser grana, seus trabalhinhos na TV vão te suprir até o talo, merda!
Mas tudo bem, há espaço pra tudo e todos no teatro, graças a Deus o teatro é a arte mais democrática que existe. Todos podem fazer teatro e fazer o que bem entenderem. De longe o teatro é a arte mais democrática, por isso deveria ser também a arte mais popular. Vamos nessa, o teatro não para, o teatro está chegando cada vez mais em mais pessoas. Vivo isso na carne.
Vejo algumas atrizes que sempre fazem nas novelas a tia da protagonista ou a prima da irmã do namorado da protagonista, vez em quando fazendo teatro e sempre fico muito feliz. Essas mulheres normalmente fazem muito bem teatro. Quando cansam de ser escada pra atores “da nova geração” (e que no ciclo natural das coisas, vão envelhecer, enfeiar e virar tias de protagonistas de novelas futuristas), quando cansam daquela dramaturgia fulera das novelas (dramaturgia que normalmente não dizem nada versos nada) voltam para o teatro e levam para o grande público, belas obras, cheias de vida. Gosto disso. Gosto de teatro. Todo esforço no sentido de aproximar o público do teatro me atrai.
Gosto dos artistas que sempre fazem sucesso no teatro. Alguns só fazem teatro e sempre conseguem belas obras com grande reverberação de público. Denise Stoklos é o grande exemplo disso. Ela é um caso aparte em tudo. Posso citar aqui também o grupo Sutil Companhia de teatro. Belo grupo. Gosto também de atores ultra-conhecidos que sempre fazem sucessos no teatro. Gosto do Antonio Fagundes que é um fenômeno de público sempre com boas peças. Ou o Marco Nanine e suas peças sempre corajosas que sempre viram sucesso (e se fracassar, não importa, ele tentou). Meus aplausos ao Walmor Chagas. Fernanda Torres. Giulia Gam. E sei que esses representam muitos outros e de gerações diferentes.
Enfim, aos que não se curvam ao próprio umbigo. Que usam suas caras conhecidas para o bem, e o bem pra mim é ir pra galera, tal Robinho ou Ronaldinho Gaúcho após o gol. Os artistas que ficam exibindo suas roupas novas em programas de auditório e não usam essa cara conhecida pra nada, a não ser pra vender produtos, não merecem ser citados por nenhum de nós. Aprendi que não é interessante citar o que é ruim. Citar exalta, grifa, destaca. O melhor é ignorar e deixar tanta “beleza” se dissolver no ar.
Bora pra frente que a ventania recomeçou. Abram as velas, o mar é todo nosso.




