Na saída do cinema, Jaqueline me disse: Legal! Eu respondi: Boomm! Ela sorriu, eu andei, ela me seguiu, eu sorri. Joguei os copos de coca no lixo, ela jogou os dois grandes potes de pipoca (minha barriga pesava). Assim que os vi entrando no lixo, lembrei que Cléber, meu irmãozinho, pediu para que eu guardasse os potes com fotos de filmes pra ele. Ele adora colecionar bobagens. Quando olhei o lixo cheio de lixo resolvi que viria ao cinema na terça e que comeria mais pipocas (pensar em comer pipocas naquela altura me deu um pouco de náusea).
Jaque me disse no carro que estava cansada. Perguntei se estava com fome, se queria uma pizza ou um hambúrguer, ela disse não, acrescentando que estava com a barriga cheia de pipoca. Eu também, eu disse, se você aceitasse pizza, iria até a pizza hut, você escolheria uma mini-pizza e eu ficaria na pepsi. Se você aceitasse o hambúrguer, iria ao drive-thru do Mc Donald’s, e escolheria pra mim um sundae de chocolate. Ela perguntou se a pizza hut vendia coca-cola. Respondi que a que eu costumava ir, não, mas nos shoppings, sim. Perguntei se queria parar em algum lugar pra tomar um suco, uma cerveja, não, me interrompeu, acrescentando que amanhã acordaria cedo, então toquei pra casa dela.
Liguei o rádio e um som do Oasis estava no final. Ela aumentou. Que bom, não sabia mais o que falar e quando estou com alguém (seja minha namorada ou um desconhecido na fila do banco), não sei por que, sinto que tenho que falar alguma coisa, não importa o que, sinto necessidade de não deixar o silêncio dominar o ambiente e mesmo estando sem vontade de falar, falo algo, nem que seja pra induzir a outra pessoa a falar. Só não sou assim com meu pai, com a minha avó e também não era assim com a minha mãe, antes do acidente. Quando o som do Oasis acabou eu disse: Bom som, né? Ao que ela respondeu: É! O locutor então falou o nome da rádio (um daqueles ridículos slogans), o horário, 23h15min, e anunciou os Stones. Sorrimos sorriso de criança que ganha um saco de pipoca.
Quando nos beijamos pela primeira vez, numa festa, num apê, quinto andar, janela direta pra avenida, falando sobre a natureza que não víamos, tocava Stones. Mais ainda: tocava essa música. Depois disso, começou o namoro e sempre que ouvíamos Stones ela dizia, nossa banda, e sempre que tocava essa música, dizia, nossa música. Dessa vez não disse nada, apenas sorriu e sorriu mais ainda quando a olhei. Olhei pra frente sorrindo e quando o rabo do meu olho direito captou seu olhar, exagerei o sorriso.
Na porta da casa dela, já não tocava mais músicas, um cara com voz chata anunciava uma escola de inglês dizendo que quem fizesse aula na tal escola, falaria inglês tão bem como um inglês e por isso seria bem sucedido na vida, no trabalho, com os amigos e com as garotas. Estranho esse comercial. Meio doentio. Desliguei o som e a beijei. Ela pegou no meu pau, depois de trinta e cinco segundos de beijo, se decepcionou quando o sentiu mole, soltou meus lábios e olhou pra frente, sem nada ver, mergulhada apenas na sua decepção. Passou-se um minuto (a eternidade em um dia), quando voltou a me olhar e sorriu aquele sorriso que só os médicos sorriem. Beijou minha orelha, meu pescoço, meu queixo, minha nuca, minha orelha, boca, pescoço, nuca, queixo, orelha, boca e sentiu novamente meu pau mole. Tirei sua mão direita do meu pau com força. Esse é meu ponto fraco, quando uma mulher encosta ou vê meu pau mole, me sinto frágil, desprotegido. Acho que é por isso que só transo no escuro, pra que elas não vejam meu pau amolecendo depois da ereção. Disse a Jaque que também estava cansado e que ela teria que me entender. Disse ainda, em êxtase por ter lembrado disso, que no cinema ele havia ficado duro e que ela não quis pegar. Ela disse que ficou duro não por ela, mas pela nudez da atriz principal, e que não gostava do medinho que lhe dava de ser descoberta com a mão no meu pau no cinema, ao que respondi que não estava escrito que não podia e ela disse como que pra si mesma mas falando de mim “idiota”.
Disse que tinha que dormir e ela me deu um beijo carinhoso de quinze segundos e quando tirou a boca da minha, olhou com decepção para minha mão protegendo meu pênis. Disse-lhe que amanhã conversávamos. Ela disse até amanhã, sorriu (não sorriso de médico, dessa vez um sorriso de atendente de sorveteria) e saiu. Esperei-a entrar e pisei fundo. Liguei o rádio, mas ao ouvir um cara anunciando o show de uma banda de rock que nunca veio ao Brasil, desliguei. A música dos Stones que ouvira há pouco veio na minha boca. Cantei tão mal que resolvi que na quarta-feira veria preço das escolas de inglês. Parei no farol vermelho, mesmo estando só no cruzamento. Já tomei três multas por avançar o farol vermelho. Odeio, mais do que tudo, essas câmeras espalhadas pela cidade. Sinto-me vigiado como na época de escola, onde qualquer coisinha de errado tinha bronca; como tomei bronca! Quanta bronca! Só tomei bronca na época de escola. Lembrar de escola, pra mim, é lembrar de bronca.
Aproveitei a breve parada pra desligar o celular. Jaque poderia ligar e não queria mais ouvir sua voz por hoje.
Passei na frente do bar que freqüento, ponto de encontro de alguns amigos de tempos e do peito, e lá de dentro o único que me viu foi o Rato que fez um gesto ofensivo mas carinhoso, como só os amigos fazem. Parei o carro torto e um cara novo e forte disse que não tinha erro, iria vigiar o carro e ninguém nem chegaria perto, “nem as autoridade”, balancei a cabeça pra ser simpático e toquei para o bar.
Fiquei contente ao ver ao lado do Rato o Marcão. Dei um abraço nele e disse, você não morreu, cara?, quantos anos!, e ele com seu jeito sempre debochado disse trinta e dois e me apresentou sua amiga Márcia, uma morena baixinha (tipo mignon, que adoro), seios grandes (afirmados pelo decote) e olhar brilhante (pelo menos quando me olhou). Fiz um comentário desses que sempre faço pra quebrar o gelo e fui cumprimentar o resto do pessoal. Mais ou menos duas e meia da madruga, Márcia sentou-se ao meu lado e disse sei lá o quê. Não que eu estivesse bêbado, não, não estava nem alegre (ou a alegria que o álcool em grande quantidade proporciona), tinha bebido pouco, mas não sou um cara de boa memória. Eis outra coisa que me prejudicou na escola. Nunca lembrava nada, como fazer lição ou recitar a tal tabuada. Isso era mais um motivo pra bronca.
Acho que só lembro de coisas que inconscientemente considero importantes. Dessa conversa que tive com Márcia só lembro dos seios dela: naquela altura era a coisa mais importante da minha vida. Conversamos durante uns trinta minutos, o suficiente pra ela poder se dizer que já me conhecia o suficiente pra trepar comigo (as mulheres são umas moralistas!). Disse-me que estava cansada e queria ir pra casa (quando a moral delas se dissolve, dão show!). Disse que talvez quisesse dar uma volta antes, o problema é que não tinha carona. Fiquei quieto. Meu coração batia muito e estava me segurando para não agarrá-la ali na mesa, como ela tanto queria. Lutei pra não falar nada durante um tempinho. Tinha que pensar o que iria fazer. Não queria agir por impulso: o cheiro de Jaque ainda estava em mim.
Que crueldade: Márcia colocou sua mão direita na minha coxa (meu ponto fraco, ah, eu fico louco, eu fico fora de mim!) e perguntou se eu poderia lhe dar uma carona. O brilho dos seus olhos doía em minha carne e lhe respondi gaguejando, com muito tesão, sim, que só iria ao banheiro e a levaria pra onde quisesse. Ela fez um biquinho e disse para eu ir logo. Esse biquinho me deixou com as pernas bambas, pensei que não conseguiria caminhar até o banheiro, mas fui com o coração balançando meu colar. Olhei-me no espelho. Lavei as mãos. Abri a tampa e abri o zíper do meu jeans. Não conseguiria acertar a privada nunca. Talvez se forçasse um pouco, acertasse o teto. Lavei minha mão de novo e, me olhando, concluí que precisaria fazer isso pra saber se realmente queria continuar o namoro. Depois de dois anos e meio com Jaqueline, não havia fugido nenhuma vez. Meu recorde. Vários quase, muitos quase, meu Deus, quantos quase! Mas quase não passa de… quase!
No carro, perguntei pra onde ela queria ir. Ela lambeu minha orelha, meu pescoço, minha língua. Peguei nos seus seios. Ela pegou no meu pau, sorriu contente e não quis mais largar. Mesmo quando disse pra ela que iria tocar para um drive-in.
O tempo do lugar onde estávamos até o drive-in se dissolveu da minha história e quando nos beijávamos no nosso box, ela sem tirar a boca da minha ligou o som. O Pearl Jam mandava “Even Flow”. Beijei-lhe os seios e ela gemeu. Mordi e ela urrou. Beijou-me inteiro fazendo contorcionismo.
Mais um tempo infindável dissolvido na minha existência se passou até que ela sacou uma camisinha da bolsa e colocou em mim. Subiu em mim e quando fechamos os olhos, começou o som dos Stones. A-QUE-LE som dos Stones. Um mal estar imenso me invadiu e esse tempo não conseguiu se dissolver da minha vida, carrego-o como quem carrega um botijão de gás cheinho. Minha mão esticada não alcançava o som. Prazer e dor. Angústia e ardor. Confusão e descontrole. Tremor e gritos. No refrão da música, fiquei na dúvida se iria gozar ou ter um ataque do coração.
Meus olhos, desde então, brilham brilho único, o mesmo brilho que naquela noite expressava desespero e êxtase.
Êxtase e desespero. Desespero e êxtase, eis o que me causou, causa e vai causar Stones nos meus caminhos que percorro trôpego como pedra rolando em tempestade.





julho 25th, 2008 at 22:24
Musica é algo incrivel né?
Nos transporta novamente pra situação,pro sentimento,pro momento.
A vida tem trilha sonora Vini…
Algumas trilhas sao perfeitas..outras nem tanto. rs
Texto otimo.
março 17th, 2011 at 8:58
Muito bom… Emoções a flor da pele.
Na poesia dos momentos!!!