fev 27

Por quê?

 

Inquirido será este o resumo de minha defesa: “A culpa é do Vinícius”. Sempre preferi a solidão do conto, mesmo que esta solidão seja ilusória ela me dá o conforto de que escrevo apenas para mim. Não queria escrever dramaturgia. Namorei o teatro um tempo, um relacionamento conturbado, onde sofri e fiz sofrer. Da experiência com o teatro ficou a certeza de que dizer, ou melhor, sentir que digo para mais de um, me causa calafrios e dá vontade de me estender à beira-mar, a paz da areia e guarda-sol. Enfrentei os calafrios e abri mão da paz, culpa do Vini.

 

Quanto ao tema… Foi buscando subsistência e a compreensão das extravagâncias da alma que passei por uma série de profissões, de engraxate a vendedor de antenas parabólicas, numa destas fui parar na cadeia. Não, não fui preso. Fui trabalhar lá como professor de escola prisional, durante mais de um ano passei meu dia no presídio e noites em minha casa, uma espécie de regime semi-aberto às avessas. Acompanhei as agruras, esperanças e desesperanças de encarcerados, dei ombro, lamentei, sorrimos e vivemos. Foram tantas histórias que não caberiam num livro, menos ainda em uma peça. Pouca grana e muita realização pessoal, para resumir. Foi ali que achei uma vocação na vida: o direito penal e a criminologia, áreas a que dedico atualmente. Nunca pensei em utilizar essas histórias de cadeia como base para criação literária. Mas veio o Vinícius ancorando com o Pirata em nosso porto, numa ofensiva rápida o cara dominou a terra que derrotou Cavendish. Discutimos a rendição num papo de boteco, o Vini deu uma golada forte no refrigerante, bateu na mesa e exigiu conhecer o sistema prisional capixaba. Dois telefonemas depois e uma reunião burocrática,  “Carta de um Pirata” era apresentada com sucesso em quatro presídios. Desde então o cara não parou de me cobrar um texto, e, como se pode ver, ele venceu. A culpa, repito, é dele, me eximo de qualquer responsabilidade, muito embora reconheça que o trabalho artístico do Piedade é capaz de salvar qualquer escrito destinado a naufragar.

 

Sobre a peça, poucas palavras. Devo apenas dizer que Ovo é uma espécie de alter ego. Não procurei retratar um presidiário padrão, primeiro porque não acredito em estereótipos, segundo porque se acreditasse não conseguiria representar um. Fugi sempre que possível da linguagem de cadeia, uma forma de deixar o texto mais compreensível. Ovo representa um herói, pois, no meu entendimento, ser heróico é persistir na vida, mesmo quando tudo leva à morte. No sistema e fora dele, acreditem, eles são muitos… Resistentes, inconformados, anônimos, estão em toda parte e carregam dentro de si, oculto,  o sentido das coisas, da própria vida.

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