jul 18

 

 

 

INDIZÍVEL

 

         UM SOLO DE VINÍCIUS PIEDADE

                     

 

 

 

               

 

                                     TRILHA SONORA: MANUEL PESSÔA

       TEXTO: ALINE YASMIN E VINÍCIUS PIEDADE                  

 

 

 

 

Apresentação

 

          INDIZÍVEL apresenta a história de um pintor, um escritor e um ator que, cada um a seu modo, contam a história de um cego a espera de um amor, uma mulher chamada Sarah.

O momento de espera é a noite de um reveillon e todos buscam a sua Sarah, que em alguns momentos foi a causa dessa “paralisia” e em outros aparece como aquela que os “curaria”, devolveria a eles, sua paixão criadora, uma vez que essas mulheres – distintas entre si – tinham além do nome, a mesma condição: os abandonaram com uma promessa de retorno.

Um mergulho nas histórias desses personagens que se metamorfoseiam no próprio cego. Ou do cego que se metamorfoseia nesses personagens.

E pra um artista passar tempos sem criar é torturante. Como dizem os personagens da peça, passar dois anos sem criar “é como se você fosse um centro-avante dois anos sem gol, ou um surfista dois anos sem onda, ou um pára-quedista dois anos sem queda. Mais algum exemplo?”. Não seríamos incompletos sem a possibilidade de manifestarmos o que nos é mais próprio? Quem somos afinal, senão o que manifestamos como nosso próprio fazer?

A noite de reveillon, tal com o momento sugere: um renascer. A lucidez dessa espera, dessa ausência, dessa cegueira fez com que eles voltassem a criar. Com ou sem Sarah.

As palavras se entrelaçam nas pinceladas do escritor e na performance do ator. Todos falam sobre o cego, que conheceu sua Sarah numa noite de reveillon com a promessa de voltar a se encontrar no mesmo local – seu apartamento e como todos esperavam por dois anos.

A peça é um jogo, uma metalinguagem e se passa nesse vácuo de espera do cego, nessa reflexão desses artistas sobre a espera do cego, espelho deles mesmos. Ou seriam os artistas espelho do cego (espelho paradoxal para um cego), a que cegueira estariam presos, a espera de quem estariam?

 

 

 

Concepção

 

A trilha sonora de Manuel Pessôa tem presença fundamental na peça. O som contínuo do piano, com algumas melodias que sempre se repetem, trabalha sensações fundamentais na expressão da dramaturgia, que acontece em espiral. Por isso, a música traz uma referência sonora única. Em outros momentos, o som vem como imagem: chuva, multidão que grita, passos no assoalho, fogos de artifício. A trilha sonora assume assim um papel essencial na concepção do espetáculo, pois estabelece um contato, tendo a audição como o sentido principal e o sons, pano de fundo mais estreito para nortear sua realidade.

            A história do cego foi escrita pela capixaba Aline Yasmin, poeta, pensadora e articuladora cultural  a convite de Vinícius Piedade. A partir daí, Vinícius dialogou com outros personagens, um escritor, um pintor e um ator que estavam há dois anos sem criar, numa narrativa metalingüística, para entrar no universo do cego.

            No texto de Yasmin, um cego é posto frente a lembranças de acontecimentos passados que o prenderam, ou antes que o envolveram dos quais não pretende se libertar. A liberdade, aqui, assume um papel complexo e fundamental para seu futuro, mas toda esta agonia, esta indefinição, a sua vida, depende de um momento, uma aparição, uma presença, e esta presença acontecerá nos próximos momentos… ou não. Como passar os últimos instantes de espera e expectativa para enfrentar a liberdade ou a continuidade deste pacto desesperador? Como sentir, exprimir, contar e expor esse dilema sem se utilizar de imagens, sem saber o que há exatamente ao lado e ao mesmo tempo, transformar memória nessas imagens – ainda que não visuais. Essa história se passa de maneira fragmentada, já que as lembranças desse encontro com Sarah são o foco e a partir daí, um estreito contato com si mesmo.

      Essas sensações são investigados pelos artistas em suas obras: o pintor expressa isso em seu quadro, o escritor em seu livro e o ator nessa peça. Peça de um ator com cenário mínimo, usando o máximo do seu material humano e o mínimo de recurso externo. Uma relação intensa e direta com o público, que é convidado a montar o quebra cabeças das histórias. Público que é convidado a refletir sobre a acomodação e sobre a força que o amor exerce sobre nós. A busca de usá-lo para fortalecer ao invés de enfraquecer é uma questão levantada com muita veemência pelos artistas que retratam o cego ou pelo cego a refletir sobre os artistas. 

 

 

 

PESQUISA

 

         Depois de cinco anos em viagens por todo país com o solo CARTA DE UM PIRATA, Vinícius Piedade volta ao palco com essa dramaturgia inédita visando aprofundar sua pesquisa da questão do ator sozinho no palco usando o mínimo de recurso mas visando o máximo de efeito. Sua pesquisa iniciada com a turnê de CARTA DE UM PIRATA chama-se O ATOR INCONFORMADO. CÁRCERE é a continuidade dessa pesquisa juntamente com o solo INDIZÍVEL. As três peças estão em repertório de Vinícius Piedade.

 

 

 

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