jul 16

                                               Eu já olhei a cara do meu inimigo. Estou tranqüilo. Estava nervoso, até com um pouco de receio (receio é diferente de medo!), sempre é assim, antes de fitar a cara do inimigo. Depois que olho a largura da cara do cara, tranqüilizo.

Tô feliz por estar aqui, nessa sauna, nesse vestiário imenso, só meu, pelo menos por hoje.

O que me incomoda é saber que minha família inteira tá aqui hoje. Eles que adoram passar o domingo na casa do meu avô (que está pra morrer), quando luto, quebram essa tradição. O pior é que minha mãe passa sempre mal, minha irmã sempre chora e meu irmão sempre briga com meu pai (ele diz que também quer ser lutador e meu pai grita com ele “não e ponto”. Já falei pro moleque calar a boca, falar menos e treinar mais, treinando muito, se tiver que ser, será!, mas o moleque parece que adora uma confusão).

Hoje parece que vieram meus tios também. E como esses sempre arrastam meu avô (que está pra morrer) pra onde vão, por ele não ter com quem ficar, ele também deve estar aí.

Isso me motiva mais ainda á vencer, mas ao mesmo tempo, me deixa com um certo receio (receio é receio!). Com a família toda me olhando lutar sem piscar, a responsabilidade de vencer é muito maior. E outra, cada soco ou chute ou cabeçada ou joelhada ou cotovelada ou qualquer golpe que eu levar, vai doer em todos, em alguns, mais até do que em mim. É muita responsabilidade. 

O cara de hoje é o atual campeão nacional. Eu ganhei o penúltimo e o antepenúltimo campeonatos nacionais. Por causa de um torneio internacional, não participei do desse ano. Ganhei o torneio internacional, mas mesmo assim, alguns dizem que ele é o melhor do Brasil hoje. Claro que outros – e os que mais entendem de Vale Tudo – dizem que sou eu o melhor, mas a prova final, pra calar os que dizem que sou o segundo, vou dar hoje.

Quero arrancar os dentes do cara. Quebrar o nariz dele. Deixá-lo com os olhos inchados. Com a coluna destroncada. Quero fazer sua família gemer de dor. Quero vê-los chorar. Quero ficar um tempo sem desafios, então pretendo quebrar esse para que os próximos pensem duas, três vezes, antes de me desafiar.

Quero ir á praia. Malhar no mar, nadar muito, nunca acomodando o corpo, sempre desenvolvendo a musculatura. Meu corpo é meu material de trabalho,e de prazer também. É ele que me proporciona tudo o que tenho. Se sou rico é por treinar e respeitar meu corpo.

Quero fazer sexo depois da luta de hoje.

Não pretendia, mas acho que me deu vontade de dar prazer a esse corpo que tanta coisa boa me proporciona. Acho melhor eu me levantar e me alongar. O tempo passa rápido antes das lutas, depois não, só antes.

Não sei o que faria se me machucasse ao ponto de não poder malhar e lutar.

Não sei o que vai ser quando envelhecer.

Não quero morrer velho, com o corpo molengão.

Queria ser assim pra sempre.

 

 

 

 

 

 

One Response

  1. Alyne Diz:

    Belo texto…

    Lutas da Vida, e muitas vezes estas lutas acontecem com as pessoas que mais amamos…uma pena

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