jul 16

Diário de bordo de um pirata

 

                                                              Esse é de fato meu diário de bordo. Sinto-me navegando, continuamente navegando com a peça CARTA DE UM PIRATA. Sempre que acaba uma apresentação, eu escrevo um diário. Mas nesse caso não escrevo após uma apresentação específica, escrevo refletindo um pouco sobre todas que já se passaram (mais de duzentas) e sobre todas que virão (mais de…).

     A peça CARTA DE UM PIRATA está permanentemente em cartaz em todo Brasil, nos lugares mais diversos possíveis.

     Sempre quis ter uma peça que pudesse fazer acontecer onde quisesse. Sempre acreditei em um teatro baseado no ator e em suas expressividades.

     Quando em meados de 2001 pensei em teatralizar a carta que um pirata escreveu pra sua mãe, concluí que seria honesto da minha parte (em relação ao tal do pirata), fazer essa peça acontecer para os públicos mais diversos e não apenas para uma minoria que tem o bom hábito de ver teatro ou para a classe artística que acaba sendo a maior consumidora de teatro. Não queria isso.

     Fazer teatro só pra artista de teatro é redundante. É talvez como se os médicos só operassem as enfermeiras ou como se os psicólogos só atendessem as psiquiatras ou como se os engenheiros só projetassem prédios para as arquitetas ou como se as prostitutas só dessem para os garotos de programa ou como se os taxistas só levassem os motoboys ou como se os cozinheiros só cozinhassem para as garçonetes ou como se o escritor só escrevesse para a editora ou como se o porteiro só abrisse a porta para o garagista ou como se a apresentadora de TV só fizesse o programa para os câmeras ou como se motorista do ônibus só conduzisse o cobrador, oh my good, o ônibus precisa de passageiro, é patético um ônibus rodando a cidade só com o cobrador olhando de saco cheio a janelinha, enfim, sempre fui péssimo em exemplos e como fica ruim no começo, tento corrigir na frase seguinte piorando ainda mais como acabo de fazer. Esqueçam meus exemplos acima.

     Claro que no momento do teatro todos são iguais, independente da profissão, teatro é o que há de mais democrático, porém, eu queria me esforçar pra chegar com essa peça nos públicos mais variados. A primeira apresentação, por exemplo, foi em uma escola estadual de ensino supletivo para adultos do período noturno, na periferia de São Paulo.

     Tantos mares navegados por esse barco pirata. A peça já aconteceu em grandes teatros municipais e em pequenas salas de aula. Público sentado em poltronas estofadíssimas (puro luxo) ou em cadeiras semidestruídas (capaz de pegar tétano de tão enferrujada). Meu camarim repleto de queijos finos ou meu camarim sendo um canto escuro (e o banheiro um copo de plástico). Já fui de avião primeira classe e já fui de trem lotado. Já tive público de palitó e público com roupa de torcida organizada de futebol. Calça social e bermudão. Sapato engraxado e chinelo verde. Saia curta jeans e vestido longo preto. Gosto disso. Públicos de todos os tipos e níveis culturais e sociais. Teatro é pra todos. Era assim na Grécia antiga. Era assim na época dos elisabetanos. E é assim hoje em dia (pelo menos nas minhas apresentações).

     Carta de Um Pirata é a prática das minhas teorias. Pensei na peça em 2001, mas só comecei a cria-la mesmo em 2002, depois de ter trabalhado as técnicas do TEATRO ESSENCIAL com a grande Denise Stoklos, dentro do projeto Solos do Brasil. Fiz uma curtíssima temporada da peça no Centro Cultural São Paulo, ainda sobre as bases do projeto, mas a peça estava sendo concebida. Coitado do público. Teve que participar do meu processo.

     Eu só fui realmente absorver o TEATRO ESSENCIAL (com suas tantas quebras de tempo e ritmo), depois que o projeto já tinha acabado. Meses solitários, dias vivos, dias de anestesia. Mas eu insistia. Sabia que aquilo que eu tinha em mãos era NECESSÁRIO. As coisas têm o valor que damos a elas. Nada em si é importante. Nada. Naquele momento, com toda precariedade e obstáculos, o que era importante pra mim (ou o que optei como importante pra mim) era fazer da carta que o pirata escreveu pra mãe algo vivo, tornar o grito do pirata do ontem, canto do ator de hoje.

     Então, é com muito amor e fúria, que dou continuidade a essa peça que é pra mim como viver tempestade no mar ou brindar rum com meus companheiros de barco (vocês, todo público).  Então, por favor, ergam as taças!!!

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