ago 12

 

Quinto dia útil do mês: Dia do assaltante de banco

 

 

                                                         O meu oitão está completo de balas. Coloco ele entre a pele e a calça na parte de trás. Me arrepio, tá gelado, merda! Olho a minha escopeta que está na cadeira e o sorriso floresce naturalmente. Ela está municiada até não poder mais. Procuro qualquer coisa pra limpá-la e não encontro nada, merda! Penso em limpá-la com a minha touca, mas vejo o Ratazana jogando uma flanela no chão. Ele acaba de limpar seu fuzil.

       Só paro de limpar a escopeta quando vejo a hora. Tá na hora. Quase na hora. Merda! É daqui a pouco que o bicho vai pegar.

      Com ternura coloco a escopeta no chão e olho em volta pra saber se alguém quer flanela. Todos estão concentrados. Todos se preparando. O Orelha, que vai ser o líder dessa operação, está conversando com sua metralhadora. Ele fala algo e dá risadas baixinho. Faz carinho na arma. Sabe que seu sucesso na operação e sua vida dependem muito dela. Pra não ficar pra trás, pego minha escopeta como quem pega o filho neném. “A nossa felicidade está próxima. Vamos lutar juntos”, digo. Dou risadas baixinho. 

     O motorista entra bruscamente e assusta a todos. O Catarro e o Ratazana apontam suas armas pra ele. Todos ficam irados. O Orelha o xinga  de filho da puta, cuzão, imbecíl, vai praputaqueopariu, manda ele ficar esperto e todos se acalmam. Quase o cara vira presunto. Ele veio avisar que o carro está pronto, abastecido e na posição. Filho da puta. Ele podia ter dito isso e caído fora. Mas não, ele quis falar mais. Cuzão. Disse que a polícia está fazendo a segurança dos bancos de helicóptero nesse quinto dia útil. Imbecíl. O meu corpo começa a tremer sem parar.

     Vou até a janela pegar um ar. Pra relaxar. Penso em fumar um baseado. Péssima idéia. Fico relaxadão demais. Fico quase bobo. Dou risadas de tudo. Até das piadas do Ary Toledo. Hoje se for pra rir tem que ser de ódio. Risada de ódio assusta até ladrão. Sangue nos olhos. Ouço risadas. Será que a galera tá rindo de mim? Será que estão tirando uma onda da minha cara? Porra eu tô nervoso e os caras tirando onda da minha cara? Que merda é essa? Eu não agüento ver alguém tirando onda quando estou puto. Ninguém, nem meu pai, nem minha mãe, nem ninguém. Minha arma está a um movimento da minha mão, se estiverem rindo de mim, sei lá o que vai ser…  Não… Não é de mim. Eles riem de algo que o Orelha mostra. Que alívio. Já estava babando de ódio de pensar que estavam tirando um barato da minha cara, merda! Eu gosto da galera, mas odeio quando tiram onda da minha cara. O Orelha mostra uma arma do exército que a função é derrubar helicóptero. Dou risadas também. Estamos feitos. O Orelha é um ótimo organizador. Sempre que o cara lidera, a organização fica ótima. Esse vai ser o maior assalto a bancos da semana. Fiquei orgulhoso quando me chamaram pra essa operação. Vai passar no jornal da noite certamente. O telefone do Sujera toca e ele diz “é agora”. Tá na hora de ir. Merda! Meu coração está acelerado demais. Chego a pensar que dá pra ver minha camisa se movimentar com os batimentos. Olho pro meu colar da Nossa Senhora pra vê-lo tremer e está estático. Todos parecem estar tranquìlos. Será que só eu estou cagando, merda?!…

     Todos pegam suas coisas. Hora de ir. Chegou a hora. Fazemos uma oração rápida. Um Pai Nosso. Todos de olhos fechados. Ratazana franze a testa num fervor religioso. O Sapo abre os olhos em espasmos inconscientes que exibem o branco dos seus olhos. Eu não consigo me concentrar na oração e me enrolo  na letra. Troca “e seja feita a vossa vontade” por “e seja feita a nossa vontade”.

     Meus tremores não passam depois do Amém como eu esperava. O Barata e o Fedorento me animam ao dizerem que daqui a poucas horas estaremos longe. Longe e ricos. O barata sorri e eu me distraio olhando seus dentes podres. Ele repara na minha indiscrição e fecha a boca. Olho para o Fedorento e ele tem os olhos brilhantes. Os olhos de quem tem esperanças. 

     Será que os outros percebem meu nervosismo? Eu nunca tremi tanto na minha vida. Não sei o que está acontecendo comigo. Merda! Pelo visto não vou conseguir nem atirar dessa forma. Penso que seria bom se o carro capotasse e nem chegassemos ao banco. Repudio meu pensamento. Respiro fundo. Solto o ar. Respiro fundo. Solto o ar. Respiro fundo. Solta o ar. Não adianta nada. Continuo trêmulo. Me disseram que respirando fundo e soltando o ar a pessoa fica calma. Não deu certo.  

     O motorista cuzão pisa fundo e eu faço como o Ratazana, dou thauzinho para  a casa que ficamos nos últimos três dias de preparação. Lar doce lar.

     Na primeira curva o sol ofusca minha visão. Coloco meus óculos escuros com uma certa dificuldade. Estou tremendo mais do que porco no matadouro, merda! Pelo menos os óculos disfarçam meus olhos de desespero. Será que dá pra perceber meu medo? Agarro-me a escopeta e me sinto protegido. Nunca tremi tanto. Nem mesmo no mês passado quando fui sozinho pegar a grana do resgate do velho empresário. Tenho medo de gaguejar se alguém quiser trocar idéias. Estou segurando os peidos. O motorista imbecíl acelera e o Ratazana conta uma piada. De português.  Três bandidos portugueses entram num banco e rendem todo mundo. Mãos para cima, gritam violentamente. O Joaquim é quem dá as ordens. Manoel, tranque todos no banheiro. Antonio, traz o gerente aqui. Os assaltantes demonstram a maior segurança e um planejamento perfeito. O gerente, tremendo e suando frio, é levado a presença de Joaquim. Dá cá a chave do cofre, ó gajo!O gerente, aos prantos se ajoelha. Pelo amor de Deus não me mate, eu esqueci a chave em minha casa. Joaquim sorri. Não te preocupes, ó gajo, hoje é só o ensaio, o assalto mesmo vai ser amanhã. Todos riem da piada. Eu tento rir forçado mas a risada sai tão forçada que eu imendo numa tosse que parece ser tosse mesmo.

     O carro pára e olho para o banco do outro lado da rua. Todos saímos com rapidez, menos o filho da puta do motorista. Quando começo a andar percebo que não tremo mais. Repentinamente como sempre. Na hora da ação o tremor me deixa em paz, como um ator que deixa o pavor no camarim. Como um jogador de futebol que deixa a ansiedade no vestiário. Dou uma risada alta e todos me olham curiosos. Nada falo, apenas observo uma latinha de Fanta  em cima de um capo de um Corsa cinza. Se quiser derrubo aquela latinha com um tiro certeiro.  Que alívio. Mas é sempre assim na hora H meu corpo sempre me obedece. Como foi mês passado com o dinheiro do resgate. Meu medo se dissolveu na hora que pus meus pés no asfalto. Não paro de sorrir e vejo que todos se contagiaram. Até o Barata sorri sem medo de mostrar os dentes. Essa vai ser a tônica do assalto. Como ladrões sádicos de filmes americanos. 

     Andamos todos com sangue nos olhos e dentes à mostra, como naquela propaganda da Colgate. 

 

3 Responses

  1. Dani Costa Diz:

    fiquei sem fôlego… seu doido… amei!!!

  2. Douglas Diz:

    Rá!!
    Muito doido!!
    Adorei!!
    Só vc mesmo!!!hahaha

  3. Mari Diz:

    ótimo texto
    gostei bastante

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