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         Quando moleque eu era office-boy. Os “trampo” que mais gostava de fazer eram no centro de sampa. Adorava quando diziam que eu tinha que fazer alguma entrega no centro ou ir a um banco ou cartório na região central. Era meu passeio. Aquele lugar de passagem, decadente, sujo, descuidado, fedido, ferrado, falido, fracassado, fodido era motivo de eu demorar muito pra voltar ao escritório. Enquanto os outros office-boys faziam hora no fliperama, eu fazia hora andando pra lá e pra cá pelas ruas do centro. Descia na Praça Ramos, rodava pelo Teatro Municipal, passava pela 24 de maio, voltava pela Barão de Itapetininga, atravessava o Viaduto do Chá parando pra olhar o Vale do Anhangabaú, assistia ao show de um morador de rua que tocava triângulo todos os dias na Praça do Patriarca, entrava no ritmo apressado dos que escoavam pela Rua Direita e entrava em tudo quanto é rua naquela região onde não entram carros. Buscava me perder. Mas sempre me achava. Olhava as casas antigas deterioradas pelo tempo, pelas pichações e sobretudo pelas placas das lojas. Sempre acabava saindo na Rua São Bento e quando chegava no horário, mesmo sem ser religioso, assistia aos cantos gregorianos na igreja São Bento. Tudo isso era meu fliperama.

         Me interessava tanto pelo centro que acabei lendo livros sobre sua história. E suas histórias.

 

            Quando me vi artista, decidi fazer um documentário misturando mitos, fatos, lendas, histórias. Sei histórias fictícias e reais sobre a Praça da Sé, Largo de São Francisco, Rua Líbero Badaró. Sobre prédios, casas, mansões, igrejas. Acontecimentos trágicos, incêndios, assassinatos, celebrações, símbolos. Mentiras deslavadas, histórias escabrosas, verdades confirmadas e acontecimentos revolucionários. O curta ia ficar muito bom. Ia mesmo. Garanto. Juro. Mas não o fiz. Outros projetos se tornaram prioridades. Assim que é. Temos que escolher nossos focos. E apesar de não ter feito o filme, virei uma espécie de guia turístico do centro de sampa para os amigos de outros estados e ou países. Faço questão de passear pelo centro como um chato guia turístico. O mais chato possível. Levo do minhocão à Praça João Mendes. Da Praça Roosevelt à Estação da Luz. Do Anhangabaú ao Bexiga. E quando não tem história real nem mitológica, eu as invento. E digo que são reais. Ou mitológicas. Tão reais quanto as reais ou tão ficcionais quanto as mais ficcionais. Me sinto um chato. Fico rouco. Enjoativo. Não escondo minha empolgação. Mesmo não vendo tanta empolgação dos receptores.

 

            Mais do que enfatizar a beleza que era no passado, tento expressar a mistura de beleza com feiúra, progresso com decadência, riqueza com mendingância, tão característico de um país com desiguldades sociais. Símbolo de sampa.

 

            Por isso me emocionei tanto na Virada Cultural. Que foi inspirado na Virada Cultural francesa chamada Nuits Blanches. Quanta coisa inútil imitamos dos franceses, italianos, americanos. Algumas tem que valer a pena! Viva Nuits Blanches. Viva a Virada.

 

         Havia vivido isso também no ano passado. Ano retrasado não pude ir porque estava em turnê e por sorte nesses dois últimos anos estava em sampa durante o evento. Lembro que a caminho da Virada ano passado, falei pra um amigo que talvez fosse mais interessante distribuir essas tantas atividades culturais pelo ano todo ao invés de concentrá-la em 24 horas. Mas disse isso antes de viver aquela experiência. Horas depois já havia mudado de idéia feliz da vida com o modo como aquele espaço era utilizado. Transgredido. Transformado. Aquele lugar de passagem virou o lugar de se estar. O Teatro Municipal sempre tão elitizado era de todo mundo e de qualquer um. As ruas que eram sempre tristes viraram outra coisa. Lugar de um certo tipo de felicidade. Lugar de frieza virou lugar de riso. De passeio. Os corpos em velocidade deram lugar a corpos relaxados. O medo deu lugar ao interesse. O nojo a curiosidade. Nos gramados nunca utilizados tinham casais se beijando. E os sons mais diversos ecoavam pelo centro da cidade.

        

         O dinheiro público voltando para o público. A cultura acontecendo, existindo, ecoando. Multidões satisfeitas, satisfazendo-se, cantado, dançando, olhando…

         A bailarina, a cantora, a palhaça, a estátua. O guitarrista, o equilibrista, o prédio. A rua e a lua. O beco e a luz. O rock e a dança. O pop e a harpa. O piano e a salsa.

 

         O projeto que começou com o governo de outro partido, perpetuado por um novo governo de outro partido. Sem imbecis cancelamentos imbecis em função de interesses políticos sempre imbecis. Como todos os políticos. Imbecis.

 

            Um acontecimento. Pra mãe com o filho de colo. Pro moleque olhar a moça de calça jeans e olhos brilhantes. Pro que não tem nem chinelo. Pra perua mostrar seus perfumes. Pro compositor mostrar suas canções. Pro equilibrista mostrar sua coragem. Pra cantora reverberar sua voz. Pra dançar. Pra andar sem pressa. Pra correr daqui pra lá e de lá pra cá em meio a multidão… Antes que comece o show ansiado. Antes que acabe as 24 horas. Antes que me perca… Antes que seja tarde.

 

         Um encontro das pessoas da cidade com a cidade. Uma revalorização do espaço público. Sem aquele medo tão característico de um país de desigualdade social. Só por hoje? Por 24 horas? Ao menos.

        

            Olhar para aquele lugar e ver um novo lugar. Valorizado. Amado. Devorado. Pernas que doem. Dor na lombar de tanto ficar em pé. No pescoço de tanto olhar as coisas acontecendo em cima em baixo pra lá e pra cá. Voz rouca de tanto cantar os hits. No pé de tanto equilibrar. O corpo querendo sentar. Sentemos nas sarjeta dessas ruas precárias. Antes que comece o outro show, dança, palhaçada. Antes que o sol apareça.

 

         A arte e suas funções tão amplas. A arte nos fazendo humanos. Dignamente humanos.  

 

6 Responses

  1. gabi Diz:

    acho o centro de sampa tão lindo, pena que minha guia turistica nunca me leva lá … ai a virada queria tanto ter ido, quem sabe ano que vem … texto lindo moço, bjooo

  2. Mari Oliveira Diz:

    Belíssimo o que foi descrito…tanto que o desejo de estar lá por um momento despertou uma sinestesia. *_*
    Ainda irei e presenciarei tudo isso que me fez imaginar daqui de longe.

    beijos, Vini.

    PS: Ainda estou na torcida para que a turnê da peça aporte por aqui no centro do país…aqui em Goiânia, ou pelo menos Brasília. rs

  3. Jacque Diz:

    Adorei o texto.
    Adorei a virada.
    Adoro Sampa.
    Adoro seus textos.
    Adoro você.

    Simples assim.

    Beijao.

  4. Nana Diz:

    Me reconheci!
    Tão lindo que arrepia até a alma.

  5. Marlon Diz:

    O melhor texto que já li seu.
    Abraços!

  6. Ellen Diz:

    Lindo texto, de arrepiar a alma!
    Moro em SP, amo o centro embora não o conheça muitoo.
    Preciso de um guia turistico…hehe

    Bjo

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