TEXTO DE ROSELY ZENKER, EDUCADORA, ESCRITORA, ATRIZ E PRODUTORA CULTURAL SOBRE O ESPETÁCULO CARTA DE UM PIRATA
Uma estória pode ser contada de inúmeras maneiras.
O modo mais recorrente e tradicional é relatar os acontecimentos na ordem de tempo em que acontecem, ou seja, na ordem cronológica. Neste caso, os eventos são narrados um após o outro de acordo com a sequência em que ocorrem: primeiro, segundo, terceiro, quarto fato.
As ações se passam em um determinado espaço, aberto ou fechado, e se os personagens mudam de lugar, isso fica esclarecido na narrativa. Por exemplo: primeiro, o personagem pega um copo de água na cozinha, dirige-se ao quarto para atender o telefone, em seguida chama uma outra pessoa que está na sala.
Por fim, é também o mais usual não haver mudança de foco narrativo, ou seja, se o texto está sendo contado em primeira pessoa, em que o narrador é o personagem da estória e a conta em sua perspectiva (utilizando a primeira pessoa – eu), isso costuma se manter até o final da redação.
Mas é possível romper todas as ordens, sem comprometer a compreensão do texto.
A peça Carta de um pirata é um exemplo de como uma mesma narrativa pode se estruturar de maneira a interromper a ordem cronológica, criando dinamismo e mantendo a lógica e entendimento do que está sendo contado.
1. Fragmentação do tempo
Carta de um pirata é uma estória constituída de inúmeras partes distintas. Há por exemplo uma cena em que o personagem “pirata” está narrando suas dificuldades em meio a uma grande tempestade no mar. Ele tanto descreve o poder das ondas, o balanço do navio e a reação dos ocupantes do barco, quanto se declina a percorrer o espaço psicológico de seu medo e sensação de aproximação da morte, depois voltando a se ater aos acontecimentos do navio. Este é um exemplo claro em que a sequência cronológica do tempo é interrompida para se explorar a noção psicológica de um instante de reflexão, sendo que o pirata tem a sensação de estar vivendo um momento interminável. A narrativa continua fragmentada no sentido de misturar lembranças e questionamentos às ações da realidade em que vive o personagem.
2. Fragmentação de espaço
Carta de um pirata apresenta vários espaços de narrativa. E como esta peça de teatro não utiliza cenários ou outros artifícios concretos, o ator convida os espectadores a imaginar e vivenciar o abstrato, através da mímica, da expressão corporal e até mesmo indicando ao público a posição de suas referências (por exemplo: “ali há uma bandeira que se move ao vento”). Através de sua intenção, o ator constrói espaços variados que se modificam o tempo todo. Seguindo o exemplo acima, ao narrar uma tempestade em meio ao mar, ele se posiciona no interior do navio, onde interage com outros ocupantes, no próximo momento redefinindo o espaço de acordo com sua lembrança ou pensamento, voltando ao ambiente do barco nos instantes seguintes. O espaço ora é o barco, ora é uma rua movimentada dos dias de hoje, ora é um espaço neutro em que o ator pensa sobre um determinado assunto. Tudo é possível e permitido.
3. Fragmentação de foco narrativo





junho 26th, 2009 at 17:49
Quero assistir Carta de um pirata de novo.
Falando em assistir, queria assistir Dias de anestesia de novo, mas nem tenho o DVD. Você ainda tem?
julho 28th, 2009 at 12:34
Interessante como a Rosely tem uma cadência de redação.
Objetiva, clara, pontuada.
Não assistir a peça, mas já tenho uma autocrítica com o texto de Rosely.
O que falta agora é um texto do Vinícius, para eu entrar de cabeça na imaginação sensível da peça.
Até,