BLANCHE
Piazzola, a embriaguez de destilados e um tango desperdiçado… “música contemporânea de Buenos Aires”, me dizia Blanche. Referia-se às esquivas que Astor Piazzola realizava para calar os puristas de San Telmo. Eu não estava interessado em ritmos latinos, mesmo que com colorido europeu e jazz, mas era tudo recalque de uma alminha brasileira inquieta… Tudo que eu queria era “discutir a relação”, deu na cabeça de repente, foi, é remotamente possível, inveja… inveja de casais que percorrem juntos corredores de supermercado e andam de mãos dadas em volta do laguinho no parque… “olha a tartaruguinha, amor”… Inveja pressupõe ódio, e como me falta interesse e sobra preguiça para tanto (ódio exige dedicação), não, acho que não foi inveja… mas queria discutir a relação, não importava que pouco nos víamos e que ela praticamente debutava em minha cama, e naquele dia trouxe a porra do CD do Piazzola.
Blanche é atriz, diretora de teatro, dramaturga e resolveu dar pra mim… e eu querendo discutir a relação… sempre a falta de prática, de tato… “Eu tenho saído com outras mulheres, você se importa?”, provoquei. Ela tragou o cigarro mentolado, uma febre entre as mulheres perigosas, perigo potencializado se elas estão só de calcinha deitadas na cama e o cinzeiro ao lado do encarte da porra do CD do Piazzola. Lançou a fumaça ao som de “la muerte del angel”, me olhou, riu cínica e respondeu que não tinha problema, que “tá tudo bem”, afinal de contas, “eu também tenho saído com outras mulheres”… rolou na cama e ficou de bruços olhando o teto. Eu tenho trinta anos e sou um carinha que disfarça bem os preconceitos, mas vi que qualquer possibilidade de discutir a relação tinha sido frustrada por caso fortuito…
Eu deitei de bruços ao lado dela e apreciava o Quinteto Biyuya em “la ressurreicion del angel”… “minha namorada”, ela disse depois de um longo silêncio, “chega na quarta. Fica uma semana. Nesse tempo sou só dela. Mas depois a gente se vê de novo, te acho um moço muito bonzinho”. Eu mudei de assunto, dizia que era bacana quando o Astor tocava sanfona, ela riu de mim e disse que aquilo era um bandoneón, me explicou as diferenças enquanto eu fingia prestar atenção, por isso não entendi nada, é uma estratégia que uso desde a escola primária, sou um moço muito bonzinho… eu falei que me amarrava na voz de Carlos Gardel e nas letras dos tangos, ela me respondeu que não gostava de tango, só de música contemporânea. Pensei na namorada de Blanche, como ela devia ser, o que fazia da vida, mas não falei nada… Blanche brincava com os calos do dorso de minha mão, herança do boxe.
Perguntei se ela concordava que a traição era um traço genético que algumas pessoas herdam de sociedades antepassadas, os homens infiéis possuem ancestrais poligâmicos, já as mulheres infiéis ancestrais poliândricos… falei tudo com ar professoral para afastar a possibilidade dela achar que era deboche, queria dar um ar científico à coisa… existiam alguns antropólogos do meu lado, não sabia o nome deles, muito menos lido, mas eles certamente não negligenciariam um tema central por excelência. Blanche fez uma pausa, parecia que nem tinha escutado a pergunta, depois confessou nunca ter pensado no assunto, que era um ponto de vista interessante, e que ela certamente vinha de descendências misturadas, mescla dos dois sistemas…
Eu já perdia por dois a zero, pensei noutra estratégia, podia buscar na prosa a solução surrealista da escrita automática, eu ia falar o que desse na cabeça sem me preocupar com quem ouvia, mas tava de saco cheio de André Breton e sua quadrilha (de novo os recalques de uma alminha brasileira inquieta).
Blanche me olhou, deu um sorriso lindo. Perguntou por que eu estava tão calado. Eu continuei calado, retribui o sorriso, dei um beijo suave em sua boca e fui na cozinha beber água. No caminho pensei em Bandoneóns, em milongas, tragédias e Jorge Luís Borges… depois decidi banir da minha vida todas as mulheres que lidam com teatro e curtem “música contemporânea”.





julho 22nd, 2009 at 0:00
Ótima trama. Ótimo saber que é o meu conterrâneo. Isso me dá ânimo para intensificar as minhas produções.
Um abraço, Vinícius Piedade.´
Tenha uma ótima noite.
julho 31st, 2009 at 10:06
cigarros mentolados, relacionamentos poliândricos…….
só me faltou a formação teatral(KKKKKKKKKKKKKKKKKKK)
setembro 17th, 2009 at 23:51
Adorei a peça que assisti hoje na Faculdade Anhanguera vc eh ótimo e espero que volte com outra peça.
Abraços