É madrugada e faz calor. Choveu quase o dia inteiro mas agora o céu exibe estrelas.
Péssimo começo de texto. É difícil começar quando se tem muito a dizer. Comecei sete vezes. Sete opções de começo. A primeira não mantive por achá-la demasiadamente poética pra um começo de texto. A segunda achei muito fria. A terceira deslumbrada. A quarta sem nexo. A quinta sem ritmo. A sexta sem sal. E a sétima é justamente essa do tempo. Do calor que faz, da madrugada que é, da chuva que foi e da autocrítica que será.
Inicio aqui meus fragmentos pseudo-poéticos. Inicio com Milan Kundera. Entrei num sebo e comprei cinco livros dele ontem. Não adianta me pedir que não vou emprestar. Decidi parar de emprestar livros quando constatei há alguns dias que a minha biblioteca está bemmm menor do que no início do ano. Adoro emprestar livros. Adorava. “Existem dois idiotas: o que empresta livros e o que os devolve”. O problema é que sou os dois. Chega. Quero deixar livros para os netos. Terei netos? Mas voltando a Milan Kundera, estou novamente encantado com a intensidade da literatura do Theco. Há anos atrás babei ao ler “a insustentável leveza do ser”. Agora, no início do mês, encontrei um livro dele sendo vendido na rua em Paris, que ao ser comprado, tornou-se o rit da viagem, como se fosse música escutada repetidas vezes. Decidi montar um dos contos do livro no teatro. Vou dirigir.
Paris me encantou torrencialmente. A viagem que a princípio era a trabalho, justamente na busca de abrir portas para minhas peças no exterior, tornou-se puro lazer, já que eu em Paris era tal como criança na Disney. Impressionado com tudo e com todos. De fato um outro mundo, que não dá pra ter referência por fotos ou filmes. É preciso vivenciar a coisa pra entender. Sentir a intensidade do vento na sua cara na beira do rio Sena. Cansar as pernas de tanto andar em Pigalle finalizando a caminhada em qualquer ponto de Montmartre. Olhar a cidade com olhos arregalados nas escadarias da Sacré-Coeur ou mesmo religiosamente no alto da torre da Catedral de Notre-Dame. Novamente cansar de andar do Louvre a beira do Sena até o Arc De Triomphe na Avenue Champs-Élysées. Perder-se em qualquer ponto de Montparnasse pode ser uma ótima idéia, tal como fazer um cooper no Jardin Du Luxembourg. Consultar os guias que tanta gente consulta o tempo todos pelas ruas com o nome bem legível em qualquer língua na capa PARIS, ou mesmo sair da rota e jogar-se nas ruas de qualquer bairro sem vista para Tour Eiffel. Andei tanto que se tu me jogar em qualquer ponto da cidade vou saber andar. O metrô também é tão fácil que fica fácil se perder pra se achar (e se achar pra se perder).
Porém, a linearidade do povo francês me fez sentir saudade do povo brasileiro. Mas a qualidade de vida do povo de lá, me acrescentou pena ao sentimento de saudade dos brasileiros. Estamos aquém do que podemos em todos os níveis de desenvolvimento humano. Nosso transporte é uma piada perto do deles, por exemplo. Claro que qualquer comparação parece imbecilidade, já que estamos falando do velho mundo. É claro que tudo isso tem que ser visto a partir de uma perspectiva histórica. Mesmo que aqui perto fiquem os Estados Unidos, que tem quase a nossa idade e o mesmo tipo de desenvolvimento do velho mundo. Mas dizer que o tipo de colonização que SOFREMOS é responsável por isso, não me parece mera desculpa esfarrapada. É a partir do agora que temos que refletir. É a partir do fato, por exemplo, de que o Brasil se coloca entre as quatro futuras potencias mundias (junto com China, Rússia e Índia), é que temos que refletir. E o que poderemos fazer a partir de agora. Dá-se a impressão de que colecionamos equívocos e isso entristece qualquer um. O que anima é pensar a partir de agora. O que cada um em sua área pode fazer a partir de agora. Aí eu me questiono, na tal da minha área: o que meu teatro propõe, critica, questiona, afirma? Rir do quê? Chorar do quê? Silenciar o quê? É a partir daí que a coisa começa. Ou recomeça.
Vi um francês cair de bicicleta na rua sem mudar a expressão facial. Ele caiu e se levantou com a mesma cara de merda. E isso é só um exemplo de muitos. É de fato algo cultural difícil de se decifrar. E qualquer generalização é pura burrice. Mas é inegável que eles tem um pseudo-equilíbrio irritante. Cheguei a pensar que tanta beleza a sua volta e pouco sofrimento na vida, os fizeram seres blasés. Mas aí lembrei que eles passaram por guerras terríveis durante toda a história e de sofrimento imagino que eles entendam. Mesmo que seja um sofrimento diferente do nosso. Esse povo sofrido que somos, mas que temos sempre alegria, dizem. Essa mesma alegria não seria responsável pela nossa passividade política, por exemplo? Essa alegria é simbolizada pelo gol do Flamengo? Aí que sorrimos? Sorriso que mostra gengivas amareladas por doenças não definidas? Não sei dizer. Aliás, não sei dizer nada. Não me vieram respostas, apenas perguntas. Chegando em sampa, a primeira coisa que fiz foi recomeçar a ler O Povo Brasileiro do Darcy Ribeiro. Ir pra fora do Brasil, me fez ver o Brasil de outra forma. Abriu um novo mundo.
Na teoria e na prática, abriu-se um novo mundo: agosto de 2010 é a data do início da turnê internacional dos meus solos. Apresentações confirmadas na Suíça nas cidades de em Berna, Zurique e Genebra e na Alemanha nas cidades de Berlim, Munique e Stutgartt. Agora estou agitando com muita veemência Paris, Lisboa, Porto, Madrid e Barcelona. Um mundo novo se abriu para mim: O VELHO MUNDO.
Londres me fascinou de maneira arrebatadora. Amo São Paulo e a vida cultural da nossa principal metrópole. Mas conhecendo Londres, vi que o que sampa tem de melhor, Londres tem a cada esquina. Isso me fez constatar a importância que a cultura e o valor que se dá a ela tem para um país, um estado, uma cidade. Um país que não valoriza sua cultura, é um país sem cara. E quando digo “sua cultura”, digo tudo que gira em torno disso.
Mas tô de volta e com tudo. Buscando alegria no âmago (e encontrando- no âmago).
Dia 3 de outubro realizo um sonho: vou me apresentar no grande Teatro Amazonas em Manaus. Uma honra. Farei a abertura do Festival de Teatro da Amazônia! Também vai rolar por lá a oficina O ATOR INCONFORMADO. Eu que adoro afirmar que o teatro pode se adaptar a qualquer espaço, chego num espaço desejado. Aquele teatro onde acontece o Festival de Ópera. Essa é a prática das minhas teorias. No mesmo ano em que apresento a peça em auditórios de universidades sem nenhuma estrutura, apresento nesse belo teatro. Essa é a busca e graças aos Deuses a coisa está rolando. Mês de outubro também inicia-se a turnê por várias cidades do Espírito Santo com a peça CÁRCERE texto do capixaba Saulo Ribeiro. Não vejo a hora de ir pra estrada com essa galera! Novembro aporto no SESC Campinas com todo amor e fúria que existe em mim e encerro o mês e talvez o ano em Friburgo, fazendo uma série de apresentações em contextos bem variados, desde o Teatro Municipal a escolas de periferia. Um brinde aos produtores parceiros. As parcerias são fantásticas e me movem.
No ítem VÍDEOS desse site, tem o novo vídeo que gravei em Paris em frente ao Teatro Bouffes du Nort que é o teatro do mestre Peter Brook. Vai lá se puder! Vou gravar o novo diário em breve no Teatro Amazonas. Bacana demais poder gravar esses vídeos e olhar nos olhos dessa galera tão fundamental que está sempre por dentro das trilhas do barco pirata. Tipo tu! Fundamental.
Acho que por hoje é só.
Um abraçãoaoaoabeijãaoaoaoa
vini





setembro 25th, 2009 at 23:03
UAU! Vejo que a inspiração de Paris .. de Londres … do velho mundo foi forte… Ótimas críticas ao Brasil. Me deixa um pouco triste, é verdade. Mas é bom enxergarmos nossa realidade para analisarmos e quem sabe descobrir o que é que deve ser mudado… começando por nós! Criticas que vi também em sua peça “Carta de um Pirata”. Imagino o que saíra agora…rs
Fico muito feliz por sua turnê internacional! O que é bom tem que ser valorizado mesmo! E como você mesmo disse: Muito vivo! É exatamente a tradução do que o teatro desperta em nós: A VIDA!
PARABÉNS!
Bjoooooos e Muita sorte!!
setembro 25th, 2009 at 23:44
Legal, vivíssimo viníssimo!
Só não valeu falar da Disney e dos EUA como se nada houvesse…mas é outra história,
salve!
setembro 26th, 2009 at 9:57
Vini! Quanto tempo!!! Mas agora estou muuuito feliz por saber por onde andava este pirata.Parabéns!!!!!!!
Que você navegue por muitos mares, e construa/desconstrua muitas coisas…afinal, não é isto que é viver?
Só não se esqueça dos amigos virtuais de SP (tipo eu! rsrsrs)
Grande beijo, e tô megaaa feliz por você.
Na torcida, sempre
Thati
setembro 29th, 2009 at 19:03
A que belo texto moço!!! Como sempre né, a Paris deve ser maravilhoso estar lá. Mas muitos que vão dizem que voltar para a casa é maravilhoso, ainda não testei, fiquei feliz de saber que anoque vem estará na Alemanha, meus atuais planos me levam para lá ano que vem…
Bom de qualquer forma bem vindo de volta, Beijo e saudade de ver peça sua =/
outubro 11th, 2009 at 13:24
Como Anitelli declama, “Não acomodar com o que incomoda…”
É essa sua busca incessante de levar a todos os olhos tua arte, tua alma.
E vai aportando, viajando, encenando… ando… ando.
Beijão caxeiro.