nov 25
29

 

         Desde os 18 tenho escrito textos no dia do meu aniversário. Reflexões, sensações, comentários, poéticas, palavrões. Desvarios, desatinos, descrenças, desovas, descaminhos. Necessidades. Sonhos. Desejos. Crenças. Coisas ambicionadas. Coisas cantadas. Coisas esquecidas. Desde os 18. Fiz 29 há pouco mais de duas semanas. E não escrevi o texto. Traí uma meta. Pensava até lançar aos 50 todos os textos. Ou aos 60. Ou lança-los ao mar aos 90. Ou parar com essa idiotice aos 100. Mas antes do que esperava quebrei o compromisso. Esse aqui, por mais que se chame 29, não vale. O trato era escrever no dia 21 de outubro. Todo dia 21 de outubro. Até a idade possível. Dos 18 até quando? Só o tempo diria. Força maior. Morte. Sacou? Mas quebrei isso. Vivo. Vivo até demais. Que bom. Mas que pena que quebrei o trato feito comigo mesmo. Cheguei mesmo a imaginar-me aos 92 ditando o texto para uma enfermeira loira de olhos brilhantes. Meus olhos ofuscados enchergando apenas o contorno do seu manto branco. E eu diria coisas sobre os 91. Coisas sobre a dificuldade de mastigar mesmo com novas dentaduras modernas. Coisas sobre dores no fígado e problemas com netos drogados. Diria lembranças dos tempos em que tinha 28. Em que a calvície apenas se anunciava. E ditaria muito sobre o hoje e o ontem, mas o faria mais para divertir a enfermeira de belos contornos, do que por me interessar de fato em deixar um relato desses para posteridade. Aos 97 ditaria o texto para nova enfermeira já que a loira já não estaria na minha vida há uns 3 anos. E ditaria sem saber bem pra quem. Mas ditaria mais para sentir-me ainda ativo do que por necessitar me comunicar com os outros bichos da minha espécie. Aos 75, gostando de nadar no mar em todas as manhã de sol, falaria exibicionista justamente sobre meu prazer em nadar em todas as manhãs de sol. Morando numa cidade praiana qualquer, revitalizaria minha existência a cada contato com a flutuância do meu corpo num mar verde e gelado. No texto que escrevi aos 23, imaginei-me aos 40 fazendo aquela reflexão tão óbvia que todo mundo faz aos 40. Aquela mistura de melancolia e esperança. Aquela tentativa de acreditar que a vida de fato apenas estaria começando. E hoje, frustrado por ter me frustrado, imagino que aos 50, dedicaria o texto para lembrança dos últimos 10 anos. Afinal, tanta coisa vivida nesses 10 anos intensos. Chegaria a dizer até que foram os 10 anos mais importantes da minha vida. Mais intensos ainda que dos 30 aos 40. Cada idade tem uma vida e uma história, e a história desse meu último ano é terrível, eu começaria dizendo no texto dos 34. Diria coisas poéticas e profundas sobre tudo. Aos 38, lendo o texto de 4 anos antes, me acharia piegas e diria no texto que aquela foi a pior fase da minha vida. Sentindo-me no auge da criatividade, escreveria aos 38 um texto-manifesto. Aos 53 um texto triste. Aos 62 falaria sobre o tesão de continuar com tesão. Aos 30 falaria sobre a ansiedade de estrear meu Iago da peça Otelo. E aos 48 falaria que aquele seria meu último texto. Aos 72 falaria sobre a alegria de não ter que fazer a cirurgia. Aos 73 falaria sobre o renascimento e aos 83 contaria piadas dos tempos de moleque. Cada idade tem seu significado, diria isso ao final do texto dos 39. Que venham mais 100, diria na única frase do texto dos 100. Não houve interesse de nenhuma editora na publicação desses textos, diria ressentido e magoado no texto dos 51 e no texto dos 79 diria que só agora me considerava pronto pra fazer Rei Lear. Aos 33 diria que a falta de tempo quase me impediu de escrever o texto 32, e aos 63 diria que meu avô morreu aos 63. Diria que os troféus que não ganhei de natação na infância não me frustraram justamente por eu nunca ter competido nessa época. Diria isso aos 84. E aos 88 diria que a vida era agora e que não queria ficar lembrando de um passado. Aos 66 falaria sobre a moça que no elevador me chamou de senhor fazendo sentir-me um velho e aos 36 falaria sobre o que deveria ter feito aos 35 e que gostaria de realizar no máximo até os 38. Aos 102 eu diria que não imaginava ir tão longe e aos 105 diria que todo mundo que eu havia conhecido até os 30 já havia batido as botas. Tanta coisa poderia ter sido expressada. Gritada. Babada. Mas não o farei. Quebrei o trato e não vejo mais sentido em continuar com essa palhaçada. A única e última coisa que desejo, é que os 29 sejam únicos. E inesquecíveis. Amém. Fim.  

 

5 Responses

  1. Amanda Paiva Diz:

    Serei eu então a primeira pessoa a comentar esse desabafo?Por que é muito mais que um simples texto escrito por um cara que acaba de completar 29 e que diz ter quebrado uma promessa feita a si mesmo…É profundamente desabafador,é intenso,e perturbador…Pois quem não sentir isso ao ler é pq não viveu nada da vida…Mas que bom que tens histórias de vida a contar…Cada ano é único…E o ser humano vive em eterna metamorfose,e vc passou,passa e passará…Mas sem perder nunca a essencia real do teu ser, que assim como a idade, é único…

  2. Priscila eveline Diz:

    Adoreiiiiiii, acabar com essa palhaçada é ótimo, bem vindo as mudanças.KKKKK
    Existe um fluxo invisível que não nos permite seguir sempre o mesmo caminho.

  3. Meninona. Diz:

    Trés bien, trés bien, trés bien!
    Eita queridão que tua velhice vai ser boa demais, vista que se tiver alzheimer invertido (?) não causará tanto caos, terá tudo registrado!
    O tua forma de escrita nesse texto, foi muito interessante. Altamente psicológico, tu me coloca flashs e faz retrospectivas que não me causam confusão, eu viajo no texto na mesma linealidade que você escreve. Você me fez de joão bobo, eu fui, voltei, fui, voltei e me divertir com cada linha! Não é puxasaquismo, sabe bem que não tenho essa prece, mas foi um texto muito gostoso.
    Ah uma coisa, quanto ao que disse dos que conheceu antes dos 30, que morrerão antes de você… Pode tirar o cavalinho da chuva, no mínimo estaremos lá firmes e fortes vc nos 100 e eu no auge da minha primavera aos 90! hahahhaha
    Et la vie!

    Beijão queridão,

  4. Natalia Jung Diz:

    Eita pau, então foi por isso que esqueci seu aniversário este ano!! Vc não publicou seu texto de aniversário, simples assim. Pronto, agora vou ter que decorar a data e me lembrar anualmente até os 105…virge!
    Feliz aniversário atrasado…

  5. Priscila Mialanez Diz:

    Viver é só o que nos cabe.

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