nov 5

Abaixo, conto INTEGRAL do livro ESSAS MOÇAS QUE ME CAUSAM VERTIGENS…                                                  

  

                                                Dia de show

                                                                               

 

                                                              Ela olhou o telefone sem fio no chão da sala, ao lado do controle remoto do DVD e da TV, com olhos de ansiedade. Estirada no macio tapete persa, herança de sua avó, sentia angústia e alegria ao mesmo tempo.

     Tinha acabado de assistir a um show emocionante em DVD e agora gostaria de tecer comentários sobre isso com alguém. Esse alguém era um homem: o namorado, na verdade recente ex-namorado, cara legal que gostava de ouvir suas opiniões, suas aspirações, suas impressões e suas sensações. O cara era um bom ouvido (além de bons olhos). Mas era um ex, pensou ela, não tinha que ligar para um ex, o cara ainda estava apaixonado, o melhor era deixá-lo desapaixonar, aí sim tentar, quem sabe, uma reaproximação para uma amizade. Ele seria um puta amigo. Ela terminara com ele pelo ciúme doentio do cara. Puta cara ciumento, coisa chata! Claro, não foi só o ciúme dele que a fizera romper os laços (pra ele correntes!), a verdade é que o amor dela por ele não era grande o bastante pra segurar a onda de suas inseguranças afetivas, então adeus, a gente se vê por aí, quem sabe?!…

     O cara não confiava nela e ela confiava nele demais, esse era o problema e desde o começo foi assim, sempre esse desequilíbrio, sempre esse excesso de amor dele e esse quase amor dela. Essas coisas as palavras não explicam: ela simplesmente não o amava. Tinha vontade dele, sentia desejo por ele, sentia fome dele, sentia calor por ele, mas não passava disso. Toda noite, depois dos berros, beijinhos, arranhões, tapinhas e ah! e oh! e uh!, ela tinha vontade de substitui-lo por um lanche do Bob’s.

     O cara, careta, dizia que todo artista era promíscuo e ela, cantora, entrava nisso, não tinha jeito. E o filho da puta dizia que o modo dela transar com ele provava: como ela gostava, ah, oh, uh…

     Virou a cara, disse não, disse se manda, disse cai fora, me larga, não enche, vai caçar sapo, vai procurar sua turma, vai procurar pulga em macaco, vai ver se estou na esquina, vai pra putaqueopariu, disse ainda, some do mapa do meu mundo, umas dez vezes depois de ouvi-lo dizer coisas do tipo, mas acabou voltando para seus abraços em todas elas, ele achando que era por amor e ela sabendo que voltava pelos mesmos motivos que a fizeram cair fora: sua vontade insaciável dele nu.

     O cara foi a alguns shows dela e em todos ficava olhando pra onde ela olhava. Se via homens olhando-a avidamente (e sempre que procurava, achava), não tinha como não se corroer e cantava junto com ela as músicas cantadas, um cantar histérico, berrando, arranhando a voz, coisa de louco, diziam alguns vendo-o cantar “Passarim” como quem canta “O tempo não pára”.

     Ela, com seu modo de cantar, entre técnico e sensual, certamente cativava muitos homens a desejá-la ardentemente e isso a deixava ardente. Não que ela fosse consumar essa chama, não, não ia. Gostava era desse jogo, por mais que cantar a emocionasse, esse fascínio sensual também a fazia se soltar bem no palco, sentia-se em casa ou novamente menina na fazenda do seu tio correndo com os cachorros.

     Seu corpo com sutis rebolados, seus olhos que mais pareciam em transe, suas mãos acompanhando as notas mais agudas a faziam ser bem diferente do que era no dia-a-dia e isso irritava seu ex. Ele dizia, você se transforma, você não é aquela, você… você… você!..

     Se transformar, mutar, sair de si era o que mais ela gostava, segundo ele, ressentido, doído, sentindo-se traído, gritava, vá!, quando ela dizia que ia pro show. E ela ia, ora sorrindo, ora gargalhando, pensava, quanta ingenuidade a dele, não, mentira, bobo engano, tola certeza, eu não viro outra, em verdade lá, no palco, em estado de entrega, estou como que num ringue, com ginga e suingue, com ritmo e comoção, sou eu em ação, sou eu ao cubo, sou eu com tudo, sou eu em mim, sou eu assim, sou eu dançando, sou eu falando, sou eu inteira, sou eu na beira, sou eu ouvindo, sou eu saindo, sou eu não sua, sou eu tão nua, sou eu serena, sou eu na cena, sou eu sou eu, sou eu sou eu.

     Sua solidão refletida no fundo da televisão doía. Solidão = estar só sem aquele belo interlocutor. Como era bom o silêncio do ex. Como era bom vê-lo sereno, olhos brilhantes apaixonados e, sobretudo, bico calado. Agora, depois de tanto tempo, era ela e só ela no mapa do mundo dela. Um namoro longo acostuma mal a gente, pronunciou ela baixinho, quase num fio de ar, olhando sua silhueta na tela.

     Chegou talvez um novo tempo. Um tempo de estar só, de conviver consigo, sair do show sozinha (claro que quando quisesse acompanhada de quem quisesse), buscar em si, buscar de si, buscar-se, só, mais do que nunca, buscar no eu um excesso de si, e transmitir esse todo pra esse público todo que sai de casa e vai ouvi-la cantar, buscando o que, meu Deus? O que buscam tantos ao sair de casa pra me ver cantar? Buscam meu cantar técnico? Minha sensualidade? Minha emoção? Ou a própria vida contextualizada, retratada e expressada nessas tantas melodias? Talvez busquem tudo isso e muito mais… Tenho que estar pronta pra esse muito mais, pensou já se levantando do persa, insegura, solitária e dona do seu caminhar mais que nunca, colocando o sem fio no gancho, apertando os dois  POWER e com leve e delicioso rebolado indo para o quarto juntar os trapos, pois hoje era sábado, ou seja, dia de show.    

 

4 Responses

  1. Camila K. Diz:

    Hum!…Conheço uma história parecida com esta,exceto a parte em que a moça é cantora.Na verdade tenho uma amiga que vive isso,ciúme,falta de confiança,o namorado dela é assim e ainda diz que confia nela e não nos outros.Coisa mais contraditória!E o que mais me chama atenção é que ele chateia-se pelo fato dela não demonstrar ciúmes.Ah!Sobre a moça do texto,acredito que talvez ela ame o tal rapaz,mas acontece que o ciúme desenfreado sufoca o Amor,o fato dela ter terminado com ele,não quer dizer que ela não o ame,pode ser que ela apenas não queira mais sofrer e nem fazê-lo sofrer,afinal ela é artista e de certa forma é assediada pelo público- homens,assim o ciúmes dele permaneceria,junto a ele,o sentimento de duvida e o sofrimento também.Também,hoje em dia,não sabemos se valerá a pena deixar uma carreira por alguém que diz nos amar,ainda mais que é ciumento.Afinal,não sabemos até quando esse amor, que dizem ter por nós, vai durar ou se ao menos é verdadeiro.Considerando-se que na minha opinião, o ciúme não indica que seja amor em excesso,mas sim, que seja um caso de obsessão/possessividade .Desculpe o comentário grande,mas é que dentro de teu texto há muitas coisas que podemos argumentar… Gostei!Bjooo…=)

  2. Meninona Diz:

    Só pra dizer que…
    Estou esperando inéditas verbalizações aqui!

  3. Amanda Paiva Diz:

    Li o livro inteiro mais de uma vez,aliás já até perdi a conta de qtas vezes li desde o dia que vc foi de Manaus,adoro os contos,e esse é um dos meus preferidos,quero ler os outros livros…Bjs

  4. carina assencio Diz:

    Lindo. Tive que copiar pra mim…
    abç.

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