Retrospectiva 2009. Talvez escreva isso pra mim mesmo. Uma reflexão sobre os rumos que as coisas estão tomando. Por onde estamos indo. Por onde vamos.
Hoje estou fechado pra balanço. E divido o balanço com quem quiser. Como cada passo artístico que dou. E caminho. Não sei se pra frente. Não sei se acredito na perspectiva evolutiva. Não faço teatro por esporte. Não quero quebrar meus recordes nem o de ninguém. Mesmo que busque fazer meu teatro pra todos e qualquer um. Quem é esse todos e qualquer um? Só eu e minha equipe de produção sabemos da dificuldade que tenho de levar público nas minhas peças pelo Brasil. Um parto. Em cada apresentação. Em cada cidade. Mas luto. Juro que busco formas alternativas de chegar ao público. Busco novas propostas de divulgação. Saio do teatro. Volto pro teatro. Respiro fundo. Os aplausos não me interessam. Me interesso pela força do acontecimento e ponto. É por aí. Faço agora um pequeno comentário sobre cada uma das apresentações feitas em 2009, seja de CARTA DE UM PIRATA, CÁRCERE ou INDIZÍVEL. Foram 51 apresentações em várias cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Amazonas. Isso sem ter feito nenhuma temporada!
Janeiro e fevereiro costumam ser fracos para o teatro. São meses de se fazer dívidas ou de se gastar as economias economizadas justamente pensando nesses dois meses. É desemprego garantido! Mas para esse ano de 2010 pretendo quebrar essa lógica. Pretendo não tirar férias coletivas forçadas. A idéia é justamente colocar a peça nos palcos nesses meses. Depois de um ano de 2008 repleto de apresentações especialmente no fim do ano onde as peças aconteceram seguidamente em Campo Mourão- PR, Santos- SP, Juiz de Fora- MG, Três Rios- RJ, Teresina- PI e Araçuaí- MG, o ano começou desesperadamente lento. Esse papo de dizer que no Brasil o ano só começa depois do carnaval é deprimente. Não quero admitir isso. Ano que vem vou burramente encarar isso. Mas esse ano só fui fazer a primeira apresentação em março em Cubatão. Quase todo ano aporto em Santos ou Cubatão. Minha relação com essas cidades iniciou-se em 2006 e desde então sempre volto. Ano que vem aporto por lá com o repertório todo. Nesse ano rolou CÁRCERE por lá. Aí invadi Taubaté também com CÁRCERE. SESC. Aquela estrutura maravilhosa do SESC. Há uns cinco anos fiz uma apresentação frustrada no Teatro Municipal de Taubaté. Meu produtor da época não conseguiu levar muita gente no teatro. Porém, o povo do SESC foi e se amarrou. A partir daí sempre se interessam pelos trabalhos que proponho. Realizei a oficina O ATOR INCONFORMADO por lá também e foi aí que vi que o ano tinha tudo pra ser um grande ano. Aí veio abril e resolvi fazer minhas primeiras apresentações em Osasco. Frustrante. Por que pela parceria que eu tive com o Teatro Mágico, imaginei que o público da trupe que é grande por lá compareceria em peso. Sempre recebi emails e recados no site perguntando quando a peça iria para Osasco. Pois quando ela foi, pouca gente navegou. Frustrante. Mas aí posso dizer que a minha produção não fez uma divulgação suficientemente boa. Essa é a real. Não acho que a divulgação tenha sido efetiva. Por lá rolou CARTA DE UM PIRATA e CÁRCERE no Espaço Cultural Grande Otelo e no meio do mês CÁRCERE no Teatro Municipal de Osasco. Essa foi a pior apresentação do ano. Atuei mal. Joguei mal meu futebol. Chutei bola pra fora. Mas bola pra frente. Sempre transforma acontecimentos terríveis em coisas boas. Parece piegas mas é concreto e real. Citei o exemplo de Taubaté acima, de uma apresentação terrível, fiz surgir uma parceria incrível com o SESC de lá. Pois bem, no caso de Osasco, acabei fazendo um excelente contato com uma universidade da cidade de Osasco em função das terríveis apresentações de lá e isso foi combustível. Fiz a peça acontecer quatro vezes durante o ano por lá. Universidade Anhanguera. Rolou PIRATA e CÁRCERE. As apresentações ocorreram no auditório da faculdade. Público vibrante e participativo. LOTADO O AUDITÓRIO. FALTOU AR! Construindo comigo o acontecimento pirático encarcerado. E de lá fui fazer a peça na UNI FMU para todos os cursos. Essa coisa de fazer as peças acontecerem nas universidades e escolas é o que há. Meu teatro como não usa cenário tem essa facilidade. E a peça chega diretamente na galera pra quem faço teatro: qualquer um e todo mundo. Tanto que fiz no fim do ano seis apresentações na UNICSUL. Pra uma muldião! Aí veio o mês de maio e… Peraí. Não tá rolando! Tô achando muito chato escrever essa retrospectiva. Muito chato. Deve estar chato de ler. Quando se está chato de escrever, imagino que fique chato de ler. Eu mesmo nem sei se vou reler. Não sei pra quem estou escrevendo isso. Não sei se continuo. Vou pra varanda olhar a cidade piscando para o natal. Está uma brisa boa lá fora. Mesmo com o mar distante. Estou em sampa. Depois de tanta estrada é bom o lar. Chez Moi. Talvez seja melhor ligar pra alguma amiga pra falar sobre qualquer coisa de profunda. Ou talvez seja melhor assistir um filme do Al Pacino que baixei na net. Nos últimos meses vi todos os filmes de Al Pacino. Me inspira. Ou talvez ligue a TV e fique procurando o que há de pior pra ver. Ou talvez durma. Ou vá pra festa dos amigos atores que querem comemorar Dionísio, tudo e nada. Ou talvez leia a bíblia amarela escrita por Glauber Rocha. Juro que queria escrever mais sobre cada uma das apresentações… Mas não tá fluindo… Queria falar sobre minha primeira invasão de Guarulhos de muitas e das amizades invencíveis feitas por lá. Queria falar da minha empolgação e agonia na minha apresentação no grande Teatro Amazonas em Manaus onde a peça PIRATA aconteceu pra mais de 700 pessoas. Ou falar sobre a turnê da peça CÁRCERE por várias cidades do Espírito Santo. Lá me sinto em casa. Volto sempre com as peças mas isso é desculpa pra rever amigos e amigas, tantos. E tão valiosos. Só sentindo. Amigos novos feitos nessa nova turnê. Nessa ida, Saulo Ribeiro me apresentou meu novo editor. Rodrigo Caldeira. Que faz livro como quem faz bolo de chocolate bom. Ou como quem faz gol bonito. Ou como quem faz bom teatro. É um artista. Editora Cousa. Lançamos lá o livro CÁRCERE com o texto da peça. Na volta pra sampa invasões em faculdades, escolas públicas e particulares. Muita coisa. Queria falar detalhes, nuances. Alegrias por encontrar novas pessoas e a tristeza por ter cancelado apresentações por falta de público. Vivi esses paradoxos esse ano. Uma semana depois de lotar um teatro, levei ninguém. Estranho. Bizarro. Vitória e derrota. Campeonato de pontos corridos é melhor por isso. Se eu não estivesse achando um saco escrever esse balanço precário mensal, eu falaria detalhadamente sobre o êxtase que foi apresentar pela primeira vez meu repertório no projeto Constante Perfeito do SESC São José dos Campos. Um mês foi Denise Stoklos com três dos seus solos, outro mês foi Celso Frateschi e no outro CARTA DE UM PIRATA, CÁRCERE e INDIZÍVEL. Ainda realizei por lá a oficina O ATOR INCONFORMADO. Sem palavras como diria o rapper depois de falar mais que a boca. A reestréia de INDIZÍVEL foi quente. E será meta em 2010 colocar INDIZÍVEL na estrada junto com as outras peças. A coisa de um repertório mesmo. Fazer o repertório rodar todo Brasil. Cidades ainda não invadidas. E re-invadir com mais amor fúria do que nunca as cidades já pilhadas. Fortalecer as bases no Brasil e invadir o mundo. Nesse ano de 2009 fiz contatos importantes na minha viagem a Paris e Londres. As perspectivas são incríveis. Suíça e Alemanha já é certeza. E a tendência da minha vida artística nos próximos anos é justamente ficar lá e cá. E cá e lá. Em movimento. Não quero mais mudar o mundo. Quero apenas dar um grito verdadeiro (o mais verdadeiro e vísceral que eu puder) e quero que esse grito suado, babado e mal cantado ecoe.
vini





dezembro 23rd, 2009 at 1:34
Mudar o mundo…
Se você conseguir transformar uma pessoa que seja através do seu teatro já é uma grande coisa. Tudo o que você faz e tranforma em termos individuais tem impacto no mundo.
Que 2010 seja um ano maravilhoso!
dezembro 23rd, 2009 at 12:12
“Minha vida é uma enciclopédia, cada ano um volume, cada dia uma página, cada hora novo texto, cada minuto uma palavra, e a cada segundo entre um sim e um não, muda-se a história.” Elanklever
dezembro 23rd, 2009 at 20:29
Bela retrospectiva, me sinto até um pedacinho dela rs… bjão
dezembro 23rd, 2009 at 21:43
saravá!!!
desejo muitas retrospectivas como esta.
quanta troca, irmão.
dezembro 25th, 2009 at 12:36
Isso,nada de conformismo,lutar pelo que acreditamos vale sempre a pena,posso fazedr parte desse coro de gritos junto com vc?2010,Maio,a Amazonia vai ouvir esse grito sim…Um Beijaoaoaoaoa
dezembro 25th, 2009 at 23:11
…e foi na Unicsul que eu pude te dá uma abraço apertado
dezembro 29th, 2009 at 1:25
Perco as palavras sempre que falo do significado que tens na minha vida e da propulsão que causou no que eu chamava de fazer teatro e agora levo mais fé… pode ser que pra ti tudo não tenha tomado tal proporção mas pra mim foi alem e por menor que seja o impacto que chegou até vc eu sei que o sente com tamanha alegria agora resta saber do futuro o que se tem de reserva e as pessoas o quanto se permitem arriscar o novo…
bjãoãoão
janeiro 7th, 2010 at 7:51
Como sempre vc surpreende com seu modo de escrever, parece que estou vendo tudo que escreve é mágico. Esperendo loucamente pelo INDIZÍVEL. Ter presença nas suas apresentações tem um significado de liberdade na minha vida é a hora que paro penso, tento ser uma pessoa melhor.
BJÃOÃOÃOÃO
janeiro 7th, 2010 at 13:48
Ecoe coe coe….
janeiro 13th, 2010 at 11:40
Vinícius,
Vi sua peça em Taubaté, no Sesc, e participei da oficina em 2009. Sou caipira, amo o Vale do Paraíba, e fico inconformada de meus colegas, escritores, atores e dramaturgos, precisarem sair daqui pra tentar a sorte em São Paulo. Nada contra a cidade, mas eu acredito que existe tanta cultura e criatividade aqui, que é um desperdício “imitar” ou reverenciar uma capital que, perdão, não é nossa. E sabe do pior? Esses artistas vão embora e não voltam mais. Não dão a região aquilo que temos sede.
Eu sei que essa força tem que partir de nós, mas como fazemos parte de um contexto chamado Brasil e outro chamado Humanidade, peço que olhe com atenção, comente com seus colegas que essa região quer muito saciar a sede com o que vocês têm de melhor: arte. Queremos mais peças aqui, pois se elas passarem a vir pra cá sempre, é certo de que consequentemente se criará um polo cultural que dê também oportunidade aos ótimos artistas da região, e tenha público para lotar sempre as suas peças e de outros artistas que levam o teatro país afora. Somos plateia sem espetáculo.
Obrigada pela atenção, boa sorte neste ano de 2010.