Quando estou no Brasil percebo o orgulho de ser brasileiro representado ridiculamente pela voz do Galvão Bueno nas suas transmissões esportivas, seja corrida de Fórmula 1 com um pseudo-herói que era alegria de “todos” nos domingos de manhã, seja na alegria dos gols feitos por centro-avantes com R no nome potencializado por outros mil “érres” no exagero ufanista do porta voz da nossa alegria Brasil il il.
Sempre vi e vejo os brasileiros não como “um povo alegre apesar das tantas dificuldades”, mas como um povo acomodado na precariedade.
Na verdade, essa consciência da precariedade real da nossa vida no Brasil, começou em mim quando fui fazer uma visitação na favela Vila Brasilândia com um grupo de um Centro Espírita que eu frequentava na adolescência. Antes e depois. Aquela coisa. Minha vida pode sim ser dividida em antes e depois daquele dia. Lá eu vi a miséria. Senti o cheiro. Até o gosto. Nao vivenciei o dia a dia , mas saquei que os problemas que eu julgava sérios, eram infinitamente mais sérios do que eu pensava. Nascia pra mim naquele dia uma nova consciência de país, de mundo e de ser humano. Naquele dia eu abandonaria algumas crenças, inclusive religiosas. Naquele dia eu brindei a morte de Deus. Mas por outro lado, passei a viver intensamente o hoje. Sem querer saber do que viria no pós-vida. Tinha muita coisa pra ser feita em vida pra que eu pensasse no pós. Meus olhos passaram a brilhar mais.
Em meio a toda essa precariedade de condições, mesmo nesse momento de euforia de quase todo país (incluindo ricos e pobres; milionários e miseráveis) com o governo Lula, ainda vejo no nosso povo um desânimo com nosso país. O que é natural diante de todas as nuances dessa nossa história sofrida. Nesse ano esse desânimo invadiu até o futebol que era a ilha do nosso orgulho nacionalista. Se é para o bem geral da nação, que nosso futebol afunde. E que tenhamos orgulho de outras coisas além de gols bonitos dos caras que “como nós”, comeram o pão que o diabo amassou. Aqueles que se transformam em heróis por terem saído da sargeta e hoje andam em carros a prova de balas de canhão.
Por que tô falando tudo isso? Pra dizer que vejo nos brasileiros morando no exterior “um orgulho de ser brasileiro” que não só não entendo como desconheço. E que não sei se gosto e brindo com eles o orgulho de ser brasileiro (que confesso, tenho- sem medo de paradoxos ou contradições) ou se simplesmente me calo com medo desse orgulho ser confundido com aquele orgulho passivo descrito e comemorado por apresentadores de tele-jornais ou narradores tolos. O que faço?





agosto 29th, 2010 at 10:10
Vini, maravilhoso texto. Nos leva a refletir tanto… Realmente há muita passividade, mas tb a luta de cada um (talvez individualismo abundante). Sobre o orgulho de ser brasileiro, talvez ele exista mais pelas nossas belezas naturais, pela mistura de raças, não preconceito racial ou religioso (exceto os velados), não guerras políticas. Já o meu contato com a miséria, essa realidade dura da qual vc fala, veio por conta da profissão de jornalista. Vi cenas que trago comigo até hoje e quero mesmo não esquecê-las, pois elas não me deixam “desumanizar”. Sucesso pra vc, querido! Bjs.
agosto 29th, 2010 at 20:45
Ah seus textos! (olhos brilhantes)
Viver o hoje, fazer o melhor sem pensar no pós, sou espírita e minha opinião é exatamente essa, o que me importa o pós? De que adianta se eu não vivenciar o hoje, as possibilidades, e eu não me jogar de cabeça naquilo que acredito?
Não vivencie a miséria, mas ela esta ai em toda a parte (infelizmente) é só não fechar os olhos e o coração que lá estará ela suplicante pelo pão, pela água, pelo emprego digno, pelo afeto.
Tenho uma professora de direito tributário que se diz inconformada com o regime tributário brasileiro, ela é considerada uma das melhores, sim o inconformismo nos faz melhores de alguma forma, ele é capaz de provocar mudanças, de criar questionamentos, ele é capaz de acabar com a estúpida alienação.
E sim também sou uma inconformada com o conformismo ou passividade da massa brasileira, e admito tenho muito medo de acabar algum dia conformada com o mundo ao meu redor, sem expectativa de mudanças, de realizações, simplesmente aceitando e indo com a maré.
Quanto ao orgulho de ser brasileira ainda questiono o meu, ate porque ainda estou questionando ( já faz um tempo) o que realmente é ser brasileira.
Beijooooooooos!!
agosto 30th, 2010 at 6:24
Belo texto, forte, verdadeiro.
Um grande questionamento mesmo. Mas quando se está fora do próprio país mais difícil uma resposta, um sentir genuíno,principalmente estando em países “ricos”.
Parabéns pelo teu trabalho.
forte abraço
sueli
agosto 30th, 2010 at 16:03
Vini, amigo querido! Sempre leio seu blog e hoje, mais que nos outros dias, sinto a necessidade de fazer meus comentários também…
Moro ha 20 anos na Vila Brasilândia (curiosamente, local que você conta em seu texto, eu acho), leciono para a comunidade carente da região e faço trabalhos voluntários para outras comunidades carentes de SP. Sabe, meu contato com esta dura realidade me faz celebrar a vida, e celebrar a Deus. Você deve estar se perguntando o porquê, e eu respondo: eu vejo e vivo milagres todos os dias!
Juntos, arregaçamos as mangas e fazemos a diferença na vida de algumas pessoas…acho que isto é o milagre da ressurreição: trazer vida, esperança e Educação, onde há apenas “morte” e miséria.
Acho que isto nos une: você através da sua arte, levando-nos a reflexão sobre nós mesmos, e a delícia que é o teatro, eu com o giz na mão, numa sala de aula na periferia de SP.
Ter orgulho de ser brasileiro não é andar com Havaianas com bandeirinha do Brasil, nem ser patriota em época de Copa do mundo, mas realmente olhar para o lado e transformar o nosso redor, simplesmente brilhando.
Não é assim que você nos fala? “Você tem a liberdade, ilumine onde você quiser” ?
Curiosamente, a essência de tudo isto é justamente Deus, afinal, se não temos luz, não podemos iluminar nada e nem ninguém…
Estamos iluminando este nosso querido Brasil, e espero que a gente faça muito mais!
Bom tê-lo nesta luta, no Brasil e agora fora dele.
Beijão com saudades,
Thati
agosto 31st, 2010 at 11:20
Como a viagem te fez inteligente, gente inteligível!
beijão, camarada!
agosto 31st, 2010 at 23:25
Pirata!Não há mais tempo!Há tempo que não há mais tempo para certas situações que da nossa casa comum, este planeta bonito e doente por nossos maus tratos. E poucos são os que conseguem ter um olhar para todas as realidades,estava lendo os textos da Tathi, da Gabi, da Fátima enfim de todos aí, mas a grande massa brasileira, ou melhor a massa mundial está psicossocialmente a se postar numa condição de vítima do outro, do algoz, do sistema, do governo,enfim, e poucos fazem o que devem fazer. O trabalho é de formiga,eu não conheço nenhum formigueiro que tenha entrado em colapso social,moral,ético,humano,espiritual,econômico….etc
Um teórico de economia Adam Smith (de 1700 e pouco) citou que “a sociedade é um conjunto de indivíduos egoístas cada qual procurando para si melhor” Adam, o que vc citaria em 2010?Revire-se em seu túmulo se estiver ainda nele!!!E dados de pobreza e riqueza que li ontem num artigo: No Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional!Que soberania heim??
É Pirata,só resta e que bom que vc leva essa bandeira de gritar aos quatro cantos tua arte e teu pensamento e fazer deste trabalho um veículo para semear idéias, transformar, tocar, iluminar como disse a colega aí de cima: ilumine o que quiser ?!
Penso que naquele dia lá na Brasilandia,vc não brindou a morte de Deus,vc brindou o nascimento da consciência do teu Deus que é você, do planeta que quer melhor! Um brinde e Namaste para todos que significa : meu Deus saúda, brinda o teu Deus!
Boas navegações