4 ESTAÇÕES

Dramaturgia.

O espetáculo estreou em 2013 no Teatro Livraria da Vila Higienópolis em São Paulo.

O livro foi lançado também em 2015.

Abaixo uma das quatro ESTAÇÕES: Outono.

                         Outono

 

Notícias de uma tarde nua

 

Ator e atriz sentados em duas cadeiras lado a lado. Ele tem uma máquina fotográfica nas mãos.

Fotógrafo – O parque já está pra fechar.

Atriz – Vai fechar? Então acho que temos que ir... Mas por que você marcou aqui quase na hora do parque fechar?

Fotógrafo – Porque o parque vai fechar pra todos, menos pra nós. E para os guardas. Teremos o parque inteiro à nossa disposição. E com os guardas como nossos seguranças particulares!

Atriz- Mas eles vão ficar olhando o que vamos fazer?

Fotógrafo – Vão, claro. Essa é a minha permuta com eles. Eles nos deixam ficar, e, em troca, os deixamos olhar.

Atriz – Como assim? Eu não sei... Não sei nem se vou fazer. Eu tô ainda confusa... Vim conversar com você...

Fotógrafo – Claro, vamos conversar. Eu preciso que você confie em mim. Sou fotógrafo profissional e o que faço é arte. Eu busco a arte dos corpos. Eu busco revelar a poética das curvas, das formas, posições, cores e jeitos. Jeito de corpo. Nuances e vãos. E para que eu faça o meu trabalho, minha arte, preciso da sua ajuda. Preciso que se solte, que se permita. Preciso que confie em mim. Pense que eu sou um escultor e você, minha modelo viva. Gostou desse exemplo?

Atriz – Mas até agora você não revelou para onde vai enviar as fotos.

Fotógrafo – Eu não posso te precisar quantos veículos vão querer veicular as fotos. Isso depende do meu trabalho, que depende do seu trabalho. É só você fazer o seu trabalho que eu faço o meu. Tudo depende da qualidade artística das fotos!

Atriz – Mas eu não sou modelo vivo. Nem modelo. Sou atriz.

Fotógrafo – Ótimo. Pense que você está representando uma personagem. É isso. Não é você que eu vou fotografar. É uma personagem. Ou várias personagens. Eu posso te sugerir várias personagens durante as fotos.

Atriz – Fotos que vão parar aonde?

Fotógrafo – Eu ainda não tenho certeza. Tenho vários contatos, revistas e sites do mundo inteiro. Mundo inteiro. E eles analisam caso a caso. Pagam por foto ou, se temos uma série boa, por série, entende? Por isso que eu digo que depende de você. Quanto melhor você for, mais espaço terá.

Atriz – Mas eu não quero espaço. Eu quero justamente o contrário. Na verdade, eu nem sei o que quero. Nem sei o que estou fazendo aqui.

Fotógrafo – Você está aqui para trabalhar. É isso que está fazendo aqui. Não é de graça. Eu te ofereci aquele valor e você gostou!

Atriz – Mas você não deixou claro o que faria com as fotos.

Fotógrafo – Mas você achou o que? Me diz? Pensou que eram fotos pra eu guardar de recordação? Você não está vendo que isso é trabalho pra mim?

Atriz – Esse é o problema. Eu não sei se é trabalho pra mim.

Fotógrafo – Mas você disse que a grana era boa.

Atriz – A grana me ajuda a segurar a onda das contas desse mês e do próximo. Até que eu consiga emplacar algum trabalho. Preciso segurar minha onda. Não tenho ninguém por mim mais. Sou totalmente desligada da minha família. Não tenho nenhum contato há anos. Abri mão de muita coisa pela minha carreira. Inclusive da minha família. E agora tenho que bancar. Tô numa maré foda. Não pego nada de publicidade, não me chamam pra testes de cinema. E meus projetos de teatro simplesmente não acontecem. Eu não sei produzir. Mas tenho ideias, projetos. Que não sei nem como começar. Parece que nada acontece. Não me chamam nem pra animar festinha infantil. Aí a Michele me falou de você. Falou que você pediu meu contato.

Fotógrafo – Eu vi uma foto sua com ela e me interessei pelo seu visual, pelo seu biotipo. Pela sua energia. Não vou mentir pra você. Você é fotogênica. Por isso pedi a ela o seu telefone. Consegui falar com você, e que bom que você veio!

Atriz – E eu vim no impulso, que fique bem claro isso.

Fotógrafo – Mas que fique bem claro que você veio no impulso trabalhar com um profissional. Tenho DRT de fotógrafo, quer ver? Pergunte para a Michele. Acha que ela te colocaria numa roubada? Ela fez boas fotos comigo.

Atriz – Mas ela gosta desse tipo de trabalho. Tudo bem gostar. A minha questão não é moral. A minha questão é pessoal. Não é o que eu pretendia ou pretendo da minha vida, da minha carreira. Eu não sei por que estou falando isso pra você.

Fotógrafo – Mas eu acho bom. Acho importante essa cumplicidade entre nós, afinal, daqui a pouco faremos um trabalho artístico.

 

Atriz – Artístico? Eu gostaria de te pedir pra parar com essa história de fotos artísticas. Se você assumir que estamos falando de fotos pornográficas eu prefiro. Porque não gosto de ser enganada.

Fotógrafo – Então eu vou falar em outros termos. Vamos chamar esse trabalho de fotos artísticas, sim. Mas que serão, sim, expostas em sites e revistas de um conteúdo mais adulto?

Atriz – O que acha que faz das suas fotos, fotos artísticas?

Fotógrafo – O olhar.

Atriz – Que olhar?

Fotógrafo- O olhar artístico.

Atriz- De quem?

Fotógrafo- O meu!.

Atriz – Entendi. Então você acha que as pessoas entram em sites de putaria pelo mundo a procura de arte? Acha mesmo? Você não acha isso. Você acha que eu sou uma idiota. Esta é a única possibilidade. Na verdade, tem outra possibilidade. Você pode ser um idiota por acreditar nisso. Então eu quero que defina de uma vez por todas: quem é o idiota, eu ou você?

Fotógrafo – Somos duas pessoas trabalhando. Prefiro ver dessa forma. Vamos fazer o seguinte, eu te deixo por dentro de todos, absolutamente todos, os sites e revistas em que eu conseguir emplacar as fotos. Mas preciso que comecemos. Eu já te entrego a grana na mão agora. Agora. Bingo. É tua. E eu assumo o risco. Vou te pagar mesmo não sabendo se as fotos serão publicadas. É um investimento. Um investimento no seu talento. E na minha arte. Mas vamos começar. Eu escolhi o parque a essa hora porque queria esse fim de tarde outonal. Essas folhas caídas. E está começando a escurecer. Vamos começar?

Atriz – Eu ainda não sei se vou fazer.

Fotógrafo – Faz como laboratório. Você não é atriz? Ou então vamos fazer o seguinte, a gente faz as fotos e você escolhe as que você quer. Se não quiser nenhuma, não vai nenhuma. Deleto tudo. Vou te fotografar sem compromisso, ok? Sem compromisso!

Atriz – Eu não sei...

Fotógrafo – Mas você já está aqui. A máquina tá na minha mão. E minha permuta com os seguranças só vale pra hoje. E eles já estão ali reunidos pra ver o trabalho. Vamos fazer o seguinte, vou te pagar cinquenta por cento a mais do que eu havia combinado. Agora. Na mão. Ganhou. Bingo. Agora vamos trabalhar. Porra, você já tá no inferno, abrace o capeta!

Atriz – Como?

Fotógrafo – Eu quis dizer: se você está no local de trabalho, faça o trabalho.

Atriz – Você está me pressionando!

Fotógrafo- Está escurecendo.

Atriz - Eu tô confusa, meio perdida, me sentindo mal... com tanta coisa na cabeça. Sentindo muita coisa.

Fotógrafo – Você quer me falar como se sente?

Atriz – Mas você quer saber como eu me sinto?

Fotógrafo – Quero. Muito. Mas, enquanto te escuto, vou fotografando, ok?

Atriz – Mas sua câmera vai conseguir apreender meus sentimentos? Nossa, que frase foi essa? Como estou melancólica!

Fotógrafo – Continue falando. Quero te ouvir. Eu e a câmera. Ela capta tudo. Essa câmera é a pessoa mais importante da minha vida. Ela consegue captar qualquer sentimento. Me diz como se sente?

Fotógrafo começa a fotografá-la enquanto ela fala. Ela se solta pelo espaço enquanto fala. Aos poucos, induzida por ele, ela começa a se despir até a semi-nudez.

Atriz – Como eu me sinto? Assim. Como esse parque. Outono. As folhas vão caindo. Parece que tudo vai acabar. Sinto-me no lugar errado na hora errada com a pessoa errada. Sinto-me longe do que posso. Pior. Dizer em palavras como me sinto é tão difícil que somente o Shakespeare conseguiria fazer com suas metáforas completas e complexas. Tenho a sensação de que sou um país devastado pela bomba atômica. Esse país que eu sou está devastado. Sou um país explorado pelos colonizadores. Sou o Terceiro Mundo em pessoa. Os índios que viviam em mim morreram. Meu ouro já está longe. Sou uma precariedade. Sou a África que foi estripada e estuprada, sou a América Latina sugada, chupada. Sou a Albânia. Sou o Golfo, o Iraque, a Índia. Afeganistão. A Síria. Sinto também uma vontade de rir e de chorar. Rir chorando. Chorar rindo. Mas o riso não vem. Nem o choro. Entende? Claro que não entende. Entende? Eu quero rir e o riso não vem. Eu quero chorar, e, veja bem, não tem nenhuma lágrima aqui. Tem algo pior do que estar seca? Mas a gente tem que bancar nossas escolhas, né? Eu sempre quis ser atriz. Sempre. Quando minha carreira de atriz não foi apoiada pelo meu pai, que me queria dirigindo uma de suas corruptas empresas, eu pedi um dinheiro pra fazer um curso no exterior. Menti dizendo que o curso me ajudaria a ter desenvoltura e base para administrar suas empresas. E foi um caminho sem volta. Foi o momento mais alegre e triste que já passei. Alegre e triste em um só tempo. Entende? Claro que não entende. Entende? O dinheiro das empresas picaretas do meu pai para o curso foi pra minha viagem infindável pela Europa. Tudo começou em Roma. De Roma pra Madrid. Fui a uma tourada pra turista ver, e urrei quando o touro quase matou o toureiro. Passei por Sevilla, Porto, Veneza, Paris, Bruxelas... Eu queria me apaixonar mais do que nunca, e, um mês antes de fazer 25 anos, eu voltei para Espanha. Eu sabia que lá isso seria fácil. E foi. Me apaixonei em Barcelona, mas logo nosso amor esfriou. Fugi para Sevilla, queria ficar o mais longe possível dele. Meu pai reclamava da minha viagem. Eu ignorava. Foi em Cartagena que decidi fazer uma peça de teatro da minha viagem. Eu precisava teatralizar tudo aquilo. Com uma personagem, personagem de mim mesma. Que não seria eu. Mas partiria do que eu sou. Do que eu fui. Do que eu vivi. Entende? Claro que não entende. Entende? Eu me perguntava se eu ia fazer aquela peça. Nunca fiz. Acho que nunca vou fazer. Depois de dois anos de viagem, em uma tarde chuvosa de primavera em Praga, meu pai gritou comigo ao telefone e disse que eu tinha que voltar e tocar uma de suas empresas. Que cortaria meu dinheiro se eu não voltasse. Aquilo me alegrou e me assustou ao mesmo tempo. Eu não queria mais o dinheiro sujo das empresas sujas dele. Então como que para cortar laços já soltos, eu revelei que estava em busca de oportunidades teatrais pela Europa e essa seria a minha vida. Eu disse adeus. Ele chorou alto e desligou. Nunca mais nos falamos. Na semana seguinte me apaixonei. Dessa vez de forma arrebatadora. Foi quando pintou o convite para fazer aquele seriado aqui no Brasil. Dei o tiro pro alto. Fiz a mala e disse que talvez um dia voltasse. O seriado foi um fracasso e nosso amor diluiu com a distância. O tempo passou tão rápido de lá pra cá. Colecionei equívocos e fracassos. Eu escolhi estar aqui? Eu estou aqui? E minhas fotos estarão em alguns wwws perdidos pelo mundo. Aquela das fotos serei eu? Ou uma parte de mim? Parte de mim. Minhas partes. Escolhas. Mas isso tudo também faz parte da minha dramaturgia. A viagem já acabou. Mas a peça ainda está sendo escrita. E não terá um final feliz. Eu não sei qual será o final. Mas uma coisa eu sei, minha peça vai terminar no outono.

 


 

Para pedido clicar em