CÁRCERE

Dramaturgia escrita em parceria com Saulo Ribeiro.

O espetáculo estreou em 2008 no Centro Cultural São Paulo.

O livro foi lançado em 2009.

Abaixo trecho do livro.

                      Cárcere

 

É madrugada e eu escrevo. Desde que comecei a escrever esse diário eu não consigo parar. Meu querido diário...

Escrevo como quem quer dar um último suspiro. Como quem quer dar um último suspiro escrevo. Suspiro e escrevo... Escrevo na condição de presidiário, mas não escrevo sobre a condição de vida de um presidiário. Não tenho pretensão nem moral pra representar os outros. Mesmo porque todo mundo já sabe da precária condição da vida de um presidiário. Não sabe? Pois bem, então escrevo sobre a liberdade através da ótica de um cara que perdeu a sua, mas isso não é um diário de um detendo. Falo da liberdade nossa de cada dia. As grades aqui são metáforas pra casamentos aprisionantes, trabalhos acorrentadores, relações encarceradas e vidas enjauladas. Mesmo que fora de uma penitenciária. É isso. Falo sobre um cara como qualquer um, como eu, como tu, nós, vós, eles. Um cara que tentou viver, ou seja, ganhar a carne suculenta de cada dia, através do piano, seu real ofício, sua vida, tentou ganhar o futuro leite das suas futuras crianças através da sua arte... Mas estava tão difícil viver disso que era o que esse cara realmente sabia fazer, estava tão difícil fazer do seu trampo sua vida, que um quase camarada desse cara falou “olha só cara, pára tudo e pense, já que tá dificil viver da sua parada, faz uma parada paralela sem ter que parar com sua parada, vende umas parada, pelo menos enquanto não vive da sua parada”, e a parada é a seguinte, eu topei a parada e parei aqui! CÁRCERE! A história de um cara que vai ganhar uma tatuagem na testa assim que colocar seu pé direito na rua. Uma tattoo da moda, talvez em japonês, talvez simbolizado num tribal, talvez em claro latim dizendo EX-PRESIDIÁRIO. É a partir dessa marcar que muita gente vai julgar a cara desse cara aqui, independente do que ele fez, do como fez, do quando fez, do porque fez, do se fez... Logo esse cara que não se amarra muito em rótulos. Na verdade, esse cara, eu mesmo, gosta de um único rótulo. Pianista. É o que sou. Desde moleque. Culpa do tio. Ele tinha um piano na casa dele e sempre me deixava tocar. Os outros adultos me viam tocando e ficavam apavorados dizendo que eu ia quebrar e desafinar e eu desafiava e tocava, já que meu tio me autorizava... Na verdade eu gostava era de fazer barulho. E fazia. Até o dia em que o piano foi penhorado. Aí acabou a brincadeira. Meu tio antes de morrer era muito criativo. Puta cara criativo. Desenhou numa cartolina as teclas de um piano e disse “use a imaginação” e eu usava, ou seja, fazia a cartolina-piano, virar cartolina-bola, pois amassava e fazia gol. Meu tio vendo que meu futuro como pianista que ambicionava estava arriscado resolveu lançar mão do seu plano principal: me apresentou para o som de Thelonius Monk. Me amarrei no som. Na hora. E depois. E hoje. E sempre. Monk é a trilha sonora da novela da minha vida. A trilha do meu carnaval. Do meu natal. Páscoa. Reveillon. De janeiro a julho, manhã de segunda, entardecer de quinta-feira, fogueira junina, solidão de sábado a noite, tempestade de março, Monk a expressão da minha alma inconformada, hoje e sempre, amém.

 

 

Trabalhar cedo pra ajudar em casa nunca foi um problema justamente por causa do piano. Não que tenha começado a trabalhar com piano. Explico: trabalhei em diversos bares em que tinha piano. Mas eu não trabalhava necessariamente com piano. Servia nas mesas, fritava batata, fazia drinks, limpava privada, fechava as contas. Mas sempre que me sobrava algum tempo eu ia para o piano fazer o que podia. Alguns gerentes diziam “isso aí não é pra funcionário, só pode ser tocado pelos pianistas profissionais da noite, vai secar talhes com álcool, você vai desafinar” e eu desafiava, ou seja, secava os talheres todos com álcool e voltada a tocar e dessa forma, aos trancos e barrancos, autodidaticamente nasci como pianista. Tenho que agradecer aqui os pianistas da noite que me ensinaram muito do que eu sei. Foram fundamentais. O grande problema é que cada cada dia ia um diferente e cada dia um me dizia uma coisa. Um me dizia “o jeito certo de tocar é colocando o movimento do corpo todo no piano”, outro vinha e dizia “só mexe o corpo pra colocar peso nos braços”, outro dizia “nada de corpo, é só os braços que se movem”, outro “não mexe os braços, mexe somente as mãos”, outro “nada de mãos, só os dedos, isso, só os dedos” e outro “não mexe nada!, fica parado e deixa o som vir de dentro, não mexe nada, faz silêncio e deixe o som vir de dentro isso, espere” e eu dizia “acho que peidei” e ele respondia “é isso!, um som natural, agora sim pode começar a deixar as mãos soltas”, e nesse excesso de informações, fui fazendo a minha formação, uns diziam “é assim”, outros “é assado”, outros “você é um craque”, outros “sai fora que não tenho tempo a perder”, eu já ouvi “senta aqui no meu colo que te ensino garoto, vem cá” e eu entre esperançoso e desesperado um belo dia me senti pronto para meu primeiro encontro com o público. Para um artista, nada mais importante do que esse momento. Me senti preparado depois de tanto treinar. Era um sábado a noite. Chovia lá fora. O pianista da noite estava no seu momento de descanso tomando um whisky ou um guaraná e o piano estava a minha disposição, como que me esperando, como se fosse uma mulher nua me dizendo vem. E eu como um rapaz virgem, excitado mas nervoso, fui. A mulher nua me dizia vem. E eu entre tímido mas muito excitado fui. Ela me dizia vem. E eu ia tremulo de tesão e excitação. Ela me dizia “vem, que a cede de te amar me faz melhor, eu quero amanhecer ao seu redor, preciso tanto te fazer feliz”, me dizia “vem quente que eu estou fervendo, pode vir quente que eu estou fervendo” e me dizia “vem neném, vem neném, vem neném” e eu fui e foi... Uma bosta. Tipo assim, brochei. Mas vamos entender o rapaz: eu estava nervoso. Toquei mal. Péssimo porque não dizer. Teve gente que vaiou. Teve um que disse que não pagaria couvert artístico. Teve um cara que ameaçou atacar um sapato. Teve outro que atacou. Teve outro que gritou sai daí seu idiota, seu desgraçado, seu desqualificado, seu degenerado, seu demente, seu decadente... e eu sai do piano me sentindo despreparado, desesperado, desprecatado, desregrado, desestimulado, descabido, destrambelhado, descaído, desembestado e quase... desempregado. Muita gente ria da minha cara e eu aproveitando a carona, cheguei a fingir que fiz isso pra causar riso... Disse foi minha stund-up tragedy. E fui pra cozinha juntar meus trapos, porém na porta dei de cara com o gerente que foi logo me dizendo “filho, tu toca muito, mas muito, mas muito... mal! Desiste! Piano não é pra você. Desiste. Sou o gerente e tenho obrigação de orientar os funcionários. Então, te oriento: desiste do piano. Tenho um sobrinho que quer ser jogador de futebol. Só que ele é ruim de bola. Não serve pra jogar nem em time de terceira divisão. O que tu quer que eu diga a ele? Eu digo a ele o que digo pra você: desiste”, mas olha bem aqui na minha cara e diz se é a minha cara desistir, diz, é minha cara desistir? Diz... Pelo contrário, passei a me preparar mais e mais para um novo e infindável encontro com o público. Sempre com Monk como referência, passei a chegar mais cedo e a sair mais tarde, pra poder tocar, treinar, praticar, tentar, ritmos, tons, sons, formas, métodos, dia e noite, sem férias, sem sono, sempre com Monk na veia, sempre, tentando, arriscando e eu treinei tanto, mas tanto, mas tanto... Que me deu uma tendinite! Mas valeu a pena. Até a tendinite valeu a pena.

Era um sábado a noite. Talvez um ano e meio depois do fatídico dia eu estava novamente pronto para o encontro com o público, momento mais importante pra um artista. Chovia lá fora. O bar lotado. O pianista da noite no seu momento de descanso tomando um whisky ou um guaraná e eu concluí, é hoje! É agora... O piano a minha disposição como se fosse uma mulher nua a cantar “vem que a cede de te amar me faz melhor, vem quente que estou fervendo, vem neném, vem” e eu fui e foi! Foi. Gozei. Foi bom? O teto tremeu, o chão vibrou, a coisa aconteceu. Gol. Palmas! Palmas? Palmas...

 

 

O sol estava no céu do meio dia e eu ainda tocava. Um novo dia nas nossas vidas e eu havia nascido como pianista. Fui pra cozinha pra juntar as minhas coisas pra talvez não mais voltar e na porta dei de cara com quem? O gerente, que foi logo me dizendo “filho, tu toca muito, mas muito, mas muito... legal! Gostei. Ainda bem que falei pra você não desistir. Está lembrado? A coisa de um ano e pouco... peraí, ouve, escute, não falei pra desistir, usei na verdade a psicologia moderna, ou seja, a firmação inversa do desejo mais profunda, se alguém te diz desiste e você acredita na coisa, o que você faz? Persiste, foi uma provocação que fiz e deu certo. Deu certo tanto pra você como para meu sobrinho que tá jogando num time profissional... da segunda divisão. Mas tá lá, fazendo o que sabe e você vai fazer isso que sabe aqui. Irá tocar as segundas-feiras!”. Ok. As segundas passei a tocar lá. As terças em outro bar e as quartas e quintas e sextas e sábados e domingos, cada dia num bar, de domingo a domingo, tentando fazer o que realmente sei fazer, porque tocar piano não é só questão de gostar. Você virar pra mim e dizer “que bom que você faz o que gosta”, não é só gostar... Gostar eu gosto de açaí com granola; de correr na beira do mar; de jogar futebol... Tocar piano não é só gostar. É como acordar de manhã olhando o teto branco com suas rachaduras dizendo “é isso que vou fazer hoje; é isso que sei fazer e que farei; é a única coisa que posso REALMENTE fazer da minha vida”, tocar e tocar e tocar a beleza de ser um eterno aprendiz, ai meu Deus!

 

 

Mas a história você já sabe, pra viver disso, fui fazer uma outra correria vendendo umas paradas e o problema é que essa mercadoria é conduta típica prevista no artigo 35 da lei 11.343/06. A pena é de 5 a 15 anos, regime inicial fechado. Se você for primário, bons antecedentes, tiver um bom advogado, conhecidos no judiciário e bom comportamento na prisão, dá para conseguir um regime semi-aberto aí com dois quintos da pena cumprida. Eu tô aqui há um ano e oito meses e a única coisa que faz esse lugar não ser o fim, é aquilo ali. Ta vendo ali? Minha vitrola? Tem que imaginar, é teatro! Na vitrola ouço sabe o que, né? Monk na veia, dia e noite. Mas as coisas estavam pra melhorar. Eu estava pleiteando entrar nesse lugar com um piano. Os presos tem direito a algumas regalias e eu solicitei um piano. A direção achou um absurdo. E eu achei um absurdo eles acharem um absurdo. Eles falaram “como vai colocar o piano aí, quer que a gente tire as grades” e eu respondi “mas depois pode colocar de novo”. Então eles me disseram “pede outra coisa. Pede uma TV. TV é bom. Quase todos tem. Faz bem. Acalma, anestesia, emburrece. Controla. Fica todo mundo controlado. Dá uma olhada. Todos tem na ala A. Na ala B. Todos tem porque acalma. Anestesia. Tranqüiliza.” E eu não tive como não cantarolar “... mas a televisão me deixou burro, muito burro demais... agora vivo nessa jaula junto dos animais...”. Mas aí eu disse que já era pianista e eles ponderaram a recusa. Numa reunião que fiz com eles, ouvi eles cochichando “podemos vender pra imprensa a imagem de que recuperamos ele. Entrou aqui traficante e saiu pianista.” E eu gritei que não haveria problemas. Pelo contrário: ensinaria todos os presos que quisessem aprender a tocar. Isso aqui se transformaria num conservatório de pianistas. Um super-lotado conservatório. Numa sala de aula onde caberiam 30 novos pianistas, teriam 200! Alguns estudando 30 anos sem sair da sala de aula. Que conservatório do mundo daria essa oportunidade para o aluno? E enquanto eles pensavam na idéia o líder de uma facção criminosa da ala A virou pra mim e disse “aí, eu te vi de conversinha com a direção, tu deve estar de caguetagem, então vou logo te dizendo que seus dias estão contados!”. Aí o líder da facção da ala B me viu conversando com o cara da ala A, e me mandou um recado “tu está fechando com os caras da ala A, então vai morrer antes do que imagina”. Aí tinha um cara na ala H formando uma facção e perguntando “quem quer entrar pra minha facção levanta a mão, modelo inspirado no exército americano, quem quer”, eu mal olhei pra ele que me disse “tu não! Tu é o maior traíra do presídio, te vi de conversa com a direção, com a ala A e com a ala B, tu é o maior cagueta que já vi e vai ter bomba na boca antes do dia raiar!” e a direção querendo proteger o seu artista, vendo-me cercado por todos os lados, me mandou pra cá, ala dos SEGUROS. Vem cá conhecer de perto, parece seguro aqui, não parece? Pois não é tão seguro assim. Sempre que tem rebelião, o candidato natural a refém, levanta a mão! Eu. Entendeu a minha situação? Porque tá rolando um zum zum zum de rebelião, ou seja: eu tô com a cabeça a prêmio; eu tô na beira do vulcão que está pra entrar em erupção; eu tô na linha do trem e o trem está vindo; eu tô na mira da bala e a arma está engatilhada; eu tô sem ar, me falta ar, me falta ar; mas até agora foram dez andares e TÁ TUDO BEM! Tá tudo bem aí? Tudo bem? Tudo bem!?...

 

 

Usa tua liberdade e ilumine o que quiser!

 

 

 

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