ESSAS MOÇAS QUE ME CAUSAM VERTIGENS

Livro de contos inspirados na alma feminina. 
São 15 contos.
Abaixo três contos integrais.

O velho e o mar

(Antes da morte: uma história capaz de me tirar o sono)

 

 

 

O galo cantou às cinco e meia e eu levantei, acredite, sorrindo. É hora de me preparar para o surfe do dia, da manhã, o surfe que me dá forças para o dia inteiro de trabalho. Trabalho no banco e só agüento aquela merda toda por culpa do surfe.

Mas o galo está meio desregulado, talvez por estar longe do campo. Galo que vive fora do campo, com seus cheiros e cores (cores verdes de capim verde claro, cheiro de esterco de vaca e outras coisas mais que só o campo tem), fica meio louco. Por mais que more em um grande quintal, como o meu, ele fica meio louco. Ou talvez não seja verdade essa história de que os galos do campo cantem pontualmente às seis. Acredite, eu só fui ao campo uma vez quando era pequeno. Era a fazenda de algum amigo do meu pai. Sei lá, sei que como tudo pra mim lá era novidade, consigo lembrar de quase tudo que vi. Galinha d’angola, vaca, boi com e sem chifre, cavalos, bezerrinhos, potros, plantações de café, de cana de açúcar. Um carrapato grudou em mim, peguei um ovo de galinha na granja, tirei um pouco de leite da vaca, pesquei um lambari no rio, andei de trator (eu guiei!). Foi muito louco.

Mas volto para meu galo pirado. Ele veio aqui pra praia pintinho. O velho meu vizinho que o trouxe. Hoje ele é meu animal de estimação. Ele é o cachorro que não tenho.

Lembrei essas coisas ainda acordando, em processo de acordar, mais dormindo que acordado. Olhei o mar da minha varanda e nessa altura o sol já estava no céu e o mar já estava azul (mas porque o céu está azul, descobri recentemente que muito da cor do mar é reflexo do céu, além da coloração dada pelas algas). Já havia tomado banho e café da manhã (pão de forma com geléia de morango, copo cheio de leite com nescau, mamão com bastante açúcar e meia dúzia de uvas daquelas gordonas). Já estava com minha roupa de borracha e a prancha no meu braço direito. Mas não consegui me mover, lembrando do velho, meu vizinho. Fiquei algumas noites quase sem dormir lembrando a história do velho. Mas hoje dormi bem e como essa história não me veio à cabeça de madrugada, me veio agora de manhã. Melhor assim.

Concluí que talvez um modo de me livrar dessa história pra sempre é escrevendo-a. Perfeito. Como quero tocar minha vida e deixar essa história pra história, agora estou fazendo isso. Hoje não vou surfar. Nem trabalhar. Melhor assim, acho que amanhã vou surfar e trabalhar mais leve, sem o olhar vidrado com que estava devido às reverberações da história do velho vizinho. Pra recomeçar tudo volto a falar do galo que é uma das coisas que o velho deixou pra mim.

O galo muito louco, ontem, era um pintinho. Esse pintinho não veio pra praia sozinho, não, o vizinho trouxe com ele mais quarenta outros pintinhos. Mentira, quarenta com ele, então, ele e mais trinta e nove. O cara queria montar uma granja e, além dos quarenta pintinhos que virariam ou galo ou galinha (como fazer pra saber se um pinto é macho ou fêmea? Engraçado isso ao se falar de pinto, né?), trouxe sete galinhas e quatro galos.

Ninguém entendia o velho, meu vizinho, o dono da pequena granja que não deu certo. Em pouco tempo morreram os galos, as galinhas e metade dos pintinhos. Ou de morte natural, ou assassinados por algum vizinho filho da puta, ou assassinados pra virar churrasco, enfim, a granja sucumbiu. Ninguém entendia qual era a do velho, muito menos eu.

Engraçado, ele sempre foi velho pra minha geração. Quando nascemos ele já era velho e crescemos vendo-o velho. Todos sempre achamos esse velho esquisito, inclusive os surfistas amigos que vinham da cidade pegar onda por aqui.

Mas essa história que vou contar, e que foi capaz de me tirar o sono por muitas noites, me fez compreendê-lo profundamente.

Antes de contá-la, acho importante destacar que quando moleque, eu fui dos que mais zoou o velho. Eu quebrava os vidros de sua casa com pedras certeiras partindo do meu estilingue. Quando não matava pombas (odeio pombas), matava os vidros do velho. Também o xingava e saía correndo e mais de uma vez pichei o muro de sua casa. Acho que em todas pichei simplesmente VELHO.

Mas o tempo passou e, apesar do velho continuar velho, eu, de moleque, virei um cara, e um cara sempre em estado de alerta, tal como quem pega onda.

Eu sempre via o velho calado, sempre calado, olhando o mar. Ele adorava passar as tardes sentado na areia olhando o horizonte. Parecia não ter parentes. Sempre estava só.

Ele também nunca entrava no mar. Nem quando o sol estava forte demais. Ele só ficava olhando, olhando e olhando o mar, o horizonte.

Já crescidos continuamos a achar o velho esquisito ou no mínimo engraçado. Ríamos muito dele e dizíamos um para outro “olha lá, você amanhã” e nos ofendíamos com essa possibilidade. O velho era tudo que não queríamos pra nossas vidas.

Até que chegou o tempo do costume, chegou o tempo em que nem o víamos mais lá parado.

Isso tudo aconteceu bem antes do velho tentar montar a granja. Esse lance da granja aconteceu pouco tempo antes de ele morrer.

 

Antes da morte

 

 

Era uma terça-feira de sol quando conversei pela primeira vez com ele. Sentei ao seu lado não intencionalmente, mas porque onde ele ficava era um bom lugar de olhar o mar. Sempre é bom paquerar o mar antes de entrar nas suas possibilidades de onda.

Ao olhar para o lado e ver o velho lá parado, reparei que fazia tempo que não falávamos dele, fazia tempo não ríamos dele, fazia tempo que nem o olhávamos. Ele tinha virado uma coisa da praia, como os coqueiros pequenos, como a barraca do seu Jorge, como o poste de luz, como a grande lixeira, como a placa PERIGO, como o próprio mar. E ao vê-lo lá estático, senti que seria uma boa puxar assunto, logo mais a rapaziada chegaria e seria novidade pura contar como foi a conversa. Ninguém nunca tivera coragem nem vontade suficiente pra isso.

Nesse dia não fui surfar. Nesse dia ignorei os chamados dos amigos, aliás, pra quem se aproximava eu gritava cai fora, como faço pra afugentar as pombas. O velho, que pra mim sempre fora um velho sem vida, um velho acabado, quase um morto, quase um nada, agora era pra mim outra coisa, não sei dizer bem o que, outra coisa que não simbolizava simplesmente um fim.

Enquanto a rapaziada pegava belas ondas (com destaque para o Guanabara, que dropava todas), eu escutava atento o velho que falava, falava e falava, enquanto fixava o horizonte e olhava, olhava e olhava. Eu não olhava o horizonte, eu olhava a rapaziada nas ondas (a Lúcia Terra também tava dando show, poucos marmanjos tinham a alegria dela nas ondas).

Não precisei falar muita coisa pra ele desatar a falar, nem lembro bem o que falei, talvez “bom dia”, talvez “tá sol, né?”, talvez “e aí vizinho, como é que tá?”, sei lá, sei que logo depois de me olhar por uns quinze segundos ele começou a falar, não como um louco alucinado (como eu esperava), não, calmamente falou que eu tinha crescido e que tinha me visto surfar desde moleque e que hoje de todos os surfistas eu era o melhor. Disse que meu estilo de surfar era parecido com o dele quando surfava, e foi aí que não parou mais, talvez por necessitar contar sua história, talvez por perceber um ouvido querendo saber, entender, compreender. Ele, que não trocava idéia nem com o padeiro, agora me contava tudo. E do mar, entre uma onda e outra, todos me olhavam entre curiosos e irônicos.

Acho que se eu não surfasse tão bem como ele em sua época, ele não me escolheria para ser seu interlocutor, o interlocutor dessa sua história de amor que tanto me tirou o sono.

 

 

História capaz de me tirar o sono

 

 

Quando veio pra essa praia não existia nada, nem padaria, nem estrada, nem mercado. Nem mercado?, eu perguntei chocado. Nem mercado. Era um outro mundo e ele, filho de pais ricos, só queria saber de surfar. As pranchas eram bem diferentes dessas aí, disse ele apontando a minha sem olhá-la. Fiquei um pouco ofendido com o gesto.

Quando morava na cidade ele tinha outra vida, uma vida bem chata, ele tinha que se mostrar um rapaz educado, um filho responsável, o futuro da família. A única coisa que o interessava na cidade era ela. Ele só queria saber de ir pra praia surfar e amá-la. Ela era filha de pais amigos de seus pais. Ela era linda. O velho me descreveu de-ta-lha-da-men-te como ela era e não sei por que tive vontade de chorar. Ela era linda. Só pra pegar alguns exemplos dos encantos que o velho me contava, eu olhava as meninas zanzando de lá pra cá, de cá pra lá. Algumas me olhavam sorrindo, algumas me cumprimentavam, mas eu não queria travar relações convencionais com ninguém, eu apenas as olhava ouvindo atento as descrições do velho detalhista ao meu lado. Fixava as mulheres de forma fragmentada: tornozelo, bunda, costas, ventre, olhos, bochecha, nuca, boca, umbigo.

Ele mudou pra cá e olhando-a fundo nos olhos disse vem comigo. Ela desobedeceu os nãos de seus pais e veio morar com ele na casa da praia. Criou-se inclusive uma rixa familiar. Os pais dele passaram a apoiar sua decisão de viver na praia, só pra discordar da família dos pais dela. O velho apontou sem olhar (já que não tirava os olhos do mar) o hotel Brisa e disse que sua casa ficava mais ou menos ali. Ele tinha um carro do ano (o ano da época, sei lá qual era o carro do ano na época) e comprava tudo o que precisava na cidade ao lado, que na época já tinha o que precisava para viver.

Ele tinha duas boas pranchas e tinha ela. Era uma vitória, uma conquista, tudo que quis na vida, quase um fim, assim a vida já tinha sido efetuada, aquilo já era um “e viveram felizes para sempre”.

Passou um cara vendendo sanduíche natural e comprei dois. Pra mim de atum, pro velho de cenoura. Entreguei a ele sem perguntar se ele queria e ele comeu sem parar de contar sua história.

Ele surfava todos os dias e conversava muito com o mar, nesse momento o velho me olhou sorrindo e pela primeira vez olhei-o nos olhos. Olhos azuis que já eram cinzas. Quase opacos, mas apesar disso expressivos. Seu sorriso era sorrido pelos olhos. Disse que na época considerava o mar seu maior amigo e toda onda que pegava dedicava a ela.

Ela ficava pela praia e uma vez por dia nadava. Nadava muito bem. Nadava depois do lugar onde as ondas surgiam. Vê-la nadar era bom, talvez tão bom como surfar. Dessa vez eu sorri, achei o velho poético. Quem diria, esse velho, que ontem eu considerava uma múmia, agora quase me emocionava com suas frases poéticas.

O velho e sua bela amada se amavam dentro e fora desse mar. Esse mesmo mar que tanto me suaviza a vida, pensei e também me achei poético.

Eu não conseguia imaginar esse velho andando com uma bela mulher. Mas enquanto ele falava, falava e falava, lembrei que nem sempre ele foi velho. Um dia ele foi até jovem, jovem como eu, jovem como a bela. Ri mais uma vez ao pensar que, hoje, até a bela que ele descreveu não deveria ser tão bela assim. Mas afinal onde ela estava? Achei melhor parar de viajar e voltar a ouvi-lo, antes que eu perdesse o fio da meada.

Esse mar que ele considerava libertário, suave, paradisíaco, quase um céu, lugar de plenitude, vivência e até felicidade o traiu. Ele descobriu que tanto quanto ele, o mar a amava. O mar amava tê-la nadando em suas carnes, tanto quanto ele gostava de tê-la toda sua, seja com roupa, seja nua; sorrindo, seja acordada, seja dormindo; cansada, seja correndo, seja parada.

Ele pegava suas ondas e começou a sentir o mar violento, não lhe dando boas ondas, dando sim bons caldos, rancoroso, vingativo, invejoso. Quando ela entrava, o mar passava a ser só suavidade, marola, tranqüilidade na hora. Quando ele voltava a entrar, o mar voltava a ser bruto como um touro faminto. Indomável mar, ondas torpes, nada pra surfar.

Chegou até a falar mal do mar pra ela, mas ela nada pôde fazer a não ser rir do que julgava ser um mau humor. De noite, quando ela dormia, ele andava pela praia e olhava o mar na escuridão. Sentia medo e feito criança voltava pra perto dela. Chegou a pensar que estava enlouquecendo.

Mas quando o dia nascia, ele logo corria pra prancha sorrindo, mas logo se desiludindo ao olhar o raivoso mar, com seu olhar tenebroso.

Ele não mais o queria por lá. Ele o mar e ele o velho. Não se queriam mais. Na verdade os dois queriam uma única coisa: ela. E ela queria os dois, tal como ele, o velho, os quis tanto. O mar apaixonado é insaciável, irresistível e tentador. O mar, um grande sedutor, a trazia para suas pós-ondas. O que dizer? Não vá? O mar te quer pra ele? Tenho ciúmes do mar? A única vez que falou isso a fez rir da sua cara, então nada mais pôde fazer a não ser não mais surfar e passar as tardes na areia agoniado vendo-a nadar.

Ela não entendia suas razões, também ficava agoniada ao não o ver surfar e ele, só pra disfarçar, se fingiu de machucado, andava mancado e dizia foi culpa do mar. Ela lhe fazia curativos, dizia vai passar e corria pra nadar. Os olhos azuis do velho brilhavam ciumentos e odiavam os sorrisos desse mar desgraçado.

Pedi para o velho uma raspadinha de groselha sabor uva e pra mim de morango. Não o consultei sobre o sabor mas ele não reclamou e nem parou de falar ao abrir a mão pra receber o copinho. Disse para o João das raspadinhas que depois pagava e ele me disse sorrindo olha lá, hein?

Quanto mais o tempo passava, mais ele a amava e agora ela era sua única alegria, ela era seu oceano, sua descoberta, seu mundo. O amor que dedicava ao mar estava concentrado agora nela, nas suas formas, no seu silêncio, no seu todo. E ela dizia que ele era seu poeta, sua prancha, seu destino.

Chorei, cara! O velho que era aquela coisa acabada tinha vivido tudo isso? Não imaginava. Tentei lembrar se já tinha vivido algo assim e o invejei. Eu com inveja dele, daquele velho que era e sempre foi meu anti-exemplo e meu anti-ideal de vida. Aquele símbolo, rótulo ou marca que tinha colocado nele, que sempre retomava quando o olhava, agora se dissolvia tal minhas lágrimas que rolavam lentamente. O velho estava inspirado e continuava falando, falando e falando sem me olhar, mas cada passagem, cada frase e cada palavra ele dirigia a mim com o cuidado de quem desenterra um tesouro.

Chegou o dia em que não agüentou mais dividi-la com o mar. Estava paranóico, demente e revoltado. O mar parecia lhe perseguir e ele não ousava dizer tais coisas pra ela. Apenas não surfava mais. Via belas ondas, perfeitas, mas quando ameaçava pegar a prancha, logo o mar ficava bruto e perigoso. Por outro lado, sempre que ela ia nadar ele amansava tal animal de estimação. Pra mim um animal criminoso.

Estavam os dois sentados na areia depois de ela nadar e ele quase morrer de ciúmes. Ela de olhos fechados tomava seu sol. Ele olhava o mar expressando o quanto o odiava. O mar parecia gargalhar, com ondas mansas, mas barulhentas. Ele disse pra ela que deveriam ir pra cidade. Voltar pra terra deles. A praia era só um estágio, uma fase, um começo. Ela chocada abriu os olhos e sentou pra olhá-lo melhor. Ele disse que chegava a hora de assumirem uma vida juntos na cidade, estudar e construir suas vidas, juntos, sem dependência dos pais. Os olhos dela brilharam de admiração. Ela o beijou e disse que não via a hora de ele tomar essa decisão. O velho ficou espantado com a própria idéia. Nunca tinha lhe passado pela cabeça construir uma vida na cidade, mas por ela faria isso. Quando levantaram pra arrumar as coisas, juntar os trapos, ele olhou para o mar sorrindo, entre vingado e irônico, e viu uma imensa onda estourando raivosa e inofensiva.

Na manhã seguinte já estava tudo arrumado no carro, a casa já estava em ordem e ele já pensava na longa estrada que teriam que encarar, quando ela decidiu dar um último mergulho. O velho olhou para o mar que estava de um verde brilhante e gritou não. Ela se assustou e disse que queria muito. Ele voltou a olhar o mar e percebeu que agora era ele que sorria sorriso irônico e vingativo. Pediu pra ela não fazer isso e ela lhe perguntou se ele a escutava quando ela dizia pra ele não surfar. Ele dizia que iria e ponto. O velho tentou convencê-la dizendo que fazia tempo que não surfava e ela disse que era só porque estava machucado.

Acho que eu tremia escutando as narrativas do velho. Estava sol, um belo sol, e eu tremia. Eu também agora olhava o mar e via, em seu modo de quebrar na praia, cada uma das expressões que o velho dizia que o mar tinha.

Ficou na praia olhando-a nadar e viu desesperado o mar bruscamente ficando agitado. Ondas gigantes começaram e não pararam mais. Quando pensou na possibilidade de entrar no mar pra ver se ela estava bem, ouviu um grito fino e desesperado dela e se precipitou para a água. Tentou, tentou e tentou. Nada. As ondas não o deixavam alcançá-la e seu desespero era tanto que logo perdeu o fôlego e desmaiou. O mar fez a generosidade de lhe jogar na praia.

Acordou logo mas não pôde mais fazer nada. Ela sumira e o mar voltara a ficar calmo. Calmo até demais. Nem um último olhar dela ganhou. Nem um último beijo. Só um grito desesperado e inconsciente.

O velho ficou algum tempo no mesmo lugar em que estava parado olhando o horizonte. Perguntei quanto tempo e ele falou talvez horas, talvez dias, talvez semanas. Mas olhava o mar sem raiva, sem revolta, sem ciúmes, apenas dor. Uma dor inexplicável. Dor.

Tentava até encontrar no mar alguma daquelas tantas expressões que ele tinha exibido deixando-o louco de raiva, mas nada viu. Tentou ver seu sorriso vencedor e só viu o mar normal: belo e neutro. Tentou ver uma alegria fora do comum pelo fato de ele ser agora dono dela pra sempre e nada viu. O mar estava como sempre fora antes de conhecê-la.

O tempo foi passando e diariamente passou a olhar o mar. A dor foi se dissolvendo. Mas durou muito tempo. Seus pais mandaram um funcionário cuidar dele. Achavam que ele estava louco. De certa forma estava mesmo. Estava louco de saudades dela. Sentia-se como um afogado, sem ar, desamparado, no mar.

Muito tempo se passou e me tornei velho, disse o velho. Muita coisa aconteceu em sua vida até isso acontecer. Mas nada que tivesse alguma relevância, nada que merecesse ser contado pra mim, disse olhando-me mais uma vez. Eu estava petrificado. Tinha mil perguntas a fazer pra ele mas nada saiu da minha boca. Acho que eu estava conseguindo entender um ínfimo do que ele tinha sofrido. Mais do que entender o velho, eu parecia compreender um pouco mais uma série de coisas.

Nos dias seguintes fui à sua casa e ele me contou algumas outras coisas. Falou sobre o tempo em que saiu da praia e foi tentar administrar uma fazenda do pai. Ficou anos na fazenda. Mas sabia que seu lugar era lá, na praia, naquela praia, naquela praia em que tinha vivido toda uma vida com ela. E com o mar.

Na casa do velho tinham várias coisas da fazenda que um irmão, com quem não se dava bem, administrava.

 

E por falar de mim, volto ao começo...

 

Em uma certa tarde, ouvi o cantar de um galo e como vi que vinha da casa do velho, fui lá ver o que se passava. Com saudade da fazenda, o velho comprou os pintinhos e galinhas e galos em uma feira na cidade ao lado. Achei engraçado isso, mas fiquei meio incomodado com o barulho dos galos. Meio desregulados alguns cantavam até de madrugada. Mas como já disse, essa granja se dissolveu rápido, sobrando apenas alguns pintinhos.

Não demorou muito para os pintinhos virarem galos, tal como não demoraria para o velho morrer.

Dia sim, dia não, eu pregava minha prancha na areia e escutava suas palavras. Acho que quase nunca eu chegava a completar alguma frase pra ele. Ele queria falar e eu queria ouvir. Era essa a nossa relação. Ele me dizia que não sentia mais dor ao olhar o mar, o tempo dissolve tudo, dores, alegrias, traumas, fantasias.

Ele estava viciado no mar. Olhava, olhava e olhava. Só isso. Não esperava nada. Gostava também de olhar o mar e me ver surfar. Nos dias em que surfei depois de ouvir isso, arrebentei. Fiz inveja até ao Marciano, que considero o melhor surfista da região.

Um dia antes de morrer, o velho me disse que finalmente tinha visto um sinal do mar. Um sorriso, um sorriso fundo, o mar tinha sorrido pra ele. Eu perguntei ingênuo, mas o senhor não tinha dito que não esperava nada do mar? E ele sorrindo sorriso fundo disse que mentiu pra mim, disse que na verdade esperava um sinal qualquer. Uma expressão, uma dica, um pedido de perdão. Notícias da mulher amada. E naquele dia o mar tinha sorrido pra ele. Foi como um aceno. Aí eu fui surfar pensativo e nunca mais o vi.

O Jacaré, que tem uma barraca de caipirinha na praia, disse que o viu entrando no mar pouco antes do sol nascer com uma prancha da idade da pedra debaixo do braço. Mas como Jacaré é do tipo que não se surpreende com nada, não se surpreendeu ao ver o velho que nunca entrou no mar (na nossa frente) entrando com uma prancha antiga. Também não se surpreendeu ao não vê-lo sair.

Durante alguns dias achamos que seu corpo fosse aparecer na praia, mas não apareceu.

Como eu era o único que o conhecia, fiquei com tudo que tinha em sua casa. Dei a maioria das coisas pra prefeitura. Eles dariam pra quem realmente precisasse. Fiquei com alguns móveis que achei interessantes como a mesa de madeira (que era tipo mesa de fazenda) e a grande estátua de pirata. Fiquei também com os galos e galinhas. Frango e despertador pra toda rapaziada. Só sobrou um que eu quis guardar como uma recordação viva do velho e que acabou virando meu despertador desregulado.

Engraçado, tenho me sentido mais adulto depois que conheci esse velho. Olho pra todos com mais cuidado, crianças, moças, velhos. Ruas, casas, árvores. Tenho vontade de viver coisas. Sinto que preciso viver amores e não me acostumar com nada. Tenho olhado mais para o mar, mas não chego a temê-lo. Pego minhas ondas numa boa, apesar de entender e acreditar na história do velho. Não importa. Na verdade, nada que eu disser agora vai ter alguma importância. A história que tinha importância era a do velho e essa já foi contada. Não sinto que tenha vivido algo suficientemente interessante pra ser contado, então encerro isso por aqui, apenas aproveitando pra reafirmar minha imensa vontade de amar, amar e amar.

                 Letícia

 

Estava indo pra faculdade um pouco mais cedo do que o comum porque tinha uma reunião importante no Centro Acadêmico. Por falar nisso, um momento fundamental para o Centro Acadêmico. Estávamos organizando uma assembléia que reuniria alunos de todos os cursos, veja bem: estudante de economia lado a lado com estudante de teatro conversando com o de medicina paquerando a aluna de história discursando para a aluna de geografia e etc e tal. Claro, somos todos jovens, vemos praticamente os mesmos filmes e ouvimos as mesmas músicas, mudamos os mesmos canais na TV e pegamos o mesmo metrô, nadamos no mesmo mar e choramos a mesma morte (quando um ícone da juventude morre); mas o fato de um estudar no prédio de arquitetura e outro no de sociologia faz com que esses nunca nem se falem. E isso não pode acontecer nesse momento em que precisamos dos jovens unidos pra mudarmos algumas coisas nessa faculdade tão bagunçada. O reitor não faz nada e a Universidade está evidentemente em decadência. Isso todos sabem, dos mais engajados aos mais alienados.

Pois nessa reunião, eu seria o facilitador, ou seja, a pessoa que coordena e tenta fazer esse encontro não ser em vão.

Rio de Janeiro. Copacabana. Eu estava quase atrasado, tanto que comia uvas pelo caminho. No ponto de ônibus, olhei um pedaço de mar ao longe. Verde, verde, verde. Senti uma certa tensão no pescoço, então mexi minha cabeça pra todos os lados pra ver se relaxava. Não relaxei. Guardei meus livros na mochila e tirei do bolso um rascunho do que falaria pra abrir a reunião. Estava preocupado. Li um trecho em voz alta e de rabo de olho vi que uma senhora me olhou. O ponto de ônibus estava quase vazio, essa senhora, um cara de gravata e bigode (e pasta e sapato engraxadíssimo), um cara com uma caixa de chocolates (entrava em cada ônibus que parava, mas sempre que o motorista percebia que ele iria vender seus chocolates, o fazia descer), uma moça grávida com saia de crente (com seu longo cabelo de crente, sua cara de crente e naturalmente sua pequena bíblia na mão) e uma moça. Uma moça. Uma moça. Uma moça. Uma moça. Uma moça. Uma moça. Uma moça... Não consegui tirar os olhos dessa moça: essa moça me deixou fora de mim!

Ela estava um pouco perto, três metros à frente, e suas formas, sua carne, suas roupas, seu jeito de ficar parada, seu jeito de respirar, de ser e de estar me deixou estático. Quis ver desesperadamente seu rosto, seus olhos (olhar), seu nariz (inspirando), sua boca (molhada pela sua saliva), seu queixo (com ou sem furinho), precisava olhar aquele rosto. Meu pescoço ficou ainda mais tenso. Minhas pupilas dilataram quando ela olhou pra trás, como que pra ver aquele pedaço do mar que eu acabara de olhar, e pude ver como ela era.

Meu ônibus chegou e foi embora. Outro que também servia pra mim parou no ponto (a velha e o engravatado subiram) e também se foi. Olhei para o mar e percebi que estava confuso. Guardei meu texto no bolso de trás. O ônibus dela chegou. Ela que o fez parar esticando o braço direito com a mão e os dedos longos relaxados. Nem vi qual era o ônibus: entrei atrás precipitado, tropeçando, perdido, confuso. Ela me olhou por dois segundos e isso foi pra mim uma benção. Pagou sua passagem e se sentou em um banco de dois lugares VAZIO! Paguei a minha e voei para seu lado. Não sabia bem o que estava fazendo lá. Aliás, sabia mais do que sabia de qualquer coisa na vida, mas estava confuso. Pensei na reunião e achei melhor desligar o celular antes que começassem a me ligar pelo atraso. O celular dela tocou e ela, sem dizer alô, disse seu nome, disse Letícia. Falou qualquer coisa que não prestei atenção. Seu nome (Letícia, Letícia, Letícia) ainda reverberava na minha carne. Desligou o cel e olhou o mundo que parecia passear na janela.

Senti seu cheiro. Quis seu gosto. Senti um medo. Quis seu rosto. Senti vontade. Quis enredo. Senti vertigem. Quis sua rima.

Minha voz certamente sairia de mim gutural. Minhas pernas estavam bambas (ainda bem que estava sentado!). Meu lábio inferior começou uma leve tremida (um tique nervoso de infância). Eu olhava pra frente e vi de rabo de olho que ela me olhou, não só me olhou, me secou, não só me secou, me desejou. Pelo menos assim quis ver a situação. Senti seu braço suavemente se esfregando no meu (e o quente do seu braço no meu, àquela altura, foi como banho de cachoeira pelando) e sei que foi de propósito.

Olhei em volta e vi vários passageiros. Odiei isso. Queria o ônibus vazio, só eu e ela, no máximo o motorista guiando e o cobrador dormindo. Um moleque cuspia pela janela. Um bebê chorava chupeta. Uma senhora falava mal do presidente. Um rapaz vestia o exército. Uma moça vestia uma tanga de praia modelo década passada. Um cara com cara de surfista e prancha de surfe na mão deu sinal. Uma mulher disse adeus no celular. Um casal sorriu em silêncio. Uma nuvem encobriu o sol. Sentia fome e calor. Sentia-me despenteado.

Pensei em Neruda. Pensei em levantar e lá da frente berrar Neruda olhando-a nos olhos. Ela me olhou novamente. Não, Neruda berrado não funciona. Pensei em recitar o mesmo Neruda no seu ouvido. Neruda disse que a poesia é de quem precisa, então, diria que fiz pra ela. Melhor ainda: Neruda em espanhol. Quando abri a boca pra começar, o ônibus fez uma curva e eu engoli ar. Não, Neruda não, vou de música, vou de Chico Buarque, vou cantar como quem canta pra si mesmo, mas pra ela ouvir. Vou cantar aquela que ele diz assim com voz suave e sincera “ela desatinou...”! Mas e se eu desafinar? O mesmo medo que Chico tem me invadiu e eu entendi na carne a razão pela qual ele faz poucos shows...

Enquanto o ônibus nadava no asfalto quente do Rio de Janeiro de março (4 de março), eu tentava saber o que dizer pra ela que agora era minha miragem, minha bóia salva-vidas, meu compasso. Ela, meu desejo, meu tesão e meu romance. Ela, naqueles instantes que pareciam infindáveis, meu meio e meu fim. Minha utopia. Ela, minha expiração. Ela, minha inspiração. Tudo de mim pra ela. Se fosse pintor, um quadro. Se fosse jogador de futebol, um gol. Se fosse pirata, meu pote de ouro. Se fosse fugitivo, a minha liberdade. Se fosse dona de casa, uma torta de limão. Se fosse empresário rico, um iate. Se fosse escritor, um conto. Se fosse árabe, mil camelos. Se fosse paulistano, um passeio na Paulista. Se fosse músico brega, meu maior hit. Se fosse o seu homem, um bebê. Ela, meu excesso e minha falta.

Não sabia o que lhe dizer em palavras. Olhei-a e ela, sentindo-se olhada, relaxou a sobrancelha e mexeu no cabelo. Esse movimento fez com que seu cheiro inundasse o ônibus e nele me embebedei. Mais ainda: ela respirou fundo e soltou o ar como fazem os cansados, me deixando, de propósito ou não, nadar nessa extensão de seu corpo: seu hálito.

Quis expressar nos meus olhos o quanto a queria, mas ela não me olhou.

Quis seus olhos pra lhe dizer que ela era minha musa do agora, tal como Ana foi de Lenine outrora, mas ela olhou a hora.

Pensei em recitar um trecho de “Os Miseráveis” de Victor Hugo, mas achei prepotente. Pensei em ir de Camus, mas achei sem nexo. Pensei em ir de Bono Vox e achei confuso. Ela me deixava confuso. Ela, com seu jeito être (ser e estar em francês), me transformava em pó. Meu eu dissolvido a seu lado e ela na dela (talvez me dando mole, talvez nem sabendo da minha existência).

De repente ela me pediu licença. Olhava-me fixamente sorrindo, sorriso educado. Por Alá, ela olhando pra mim sem pudores (e sorrindo)!

Seus olhos em mim. Meus olhos nela, em sua carne (em sua boca, seus ombros, seus seios) e em sua alma. Invadia-a sem pedir licença, sem me acanhar, sem me sentir acuado.

Ela iria descer e disse sem dizer que iria embora pra sempre, tal miragem que some mais cedo ou mais tarde.

Falei claro, um claro escuro, sem voz, um fio de voz, um fio de mim, mas não dei a tal licença. Reuni o dobro de coragem que sempre tive, o triplo da coragem que precisava pra falar com cinqüenta mil no movimento estudantil e disse pra ela entre romântico e pateta, entre confuso e poeta: me dê seu endereço. Preciso te mandar uma carta, uma carta perdida, uma carta traída, uma carta amassada, uma carta estampada de mim confuso e real, verdadeiro e banal, uma carta desconhecida, uma carta desesperada, uma carta cantada, uma carta bailada, uma carta banhada de sangue-de-vinho-de-suor-de-gozo-de-perfume o meu, o meu eu expresso nessa carta pra ti!

Por favor, me dê seu endereço.

Pelo amor de Deus, me dê seu endereço.

Ela foi paciente. Sentou-se e sorriu lisonjeada (as mulheres amam ser cortejadas) e me deu seu endereço que bem que pode ter sido inventado pra que esse cara com cara de jovem utópico não lhe encha de palavras vãs. Foi-se embora, desceu dois pontos depois do que tinha que descer, mas me deu um suave beijo na bochecha. Um beijo molhado que me deixou feito múmia: estático.

O tempo se passou desde esse dia. Três dias. Não fui mais à faculdade. Jurei-me doente. Esse amor reprimiu minha ideologia. Toda minha ideologia dissolvida nesse amor. Minhas causas se voltaram todas pra ela.

Estou de fato doente. Estou com febre. Estou com tontura. Dor no corpo. Estou confuso.

Acho que seu beijo me transmitiu um vírus ou um feitiço. Estou com febre. Tento escrever-lhe a tal carta, mas nada sai de minha boca, nada sai das minhas mãos, nada sai de mim. Estou com tontura. Não sei como começar, não sei como conduzir, não sei como encerrar. Dor no corpo. Eu, que sempre redigi discursos, agora estou estático, feito múmia. Estou confuso.

Não paro de olhar minha folha de sulfite em branco, vazia, carente, querendo umas letras quaisquer.

No papel só o título resumido em uma palavra escrita com caneta preta e letra tremida, dessa que é minha carta mais infindável: Letícia.

 

LETÍCIA

 

 

    Minha relação com os Stones e com a Jaque

 

 

Na saída do cinema, Jaqueline me disse: Legal! Eu respondi: Boomm! Ela sorriu, eu andei, ela me seguiu, eu sorri. Joguei os copos de coca no lixo, ela jogou os dois grandes potes de pipoca (minha barriga pesava). Assim que os vi entrando no lixo, lembrei que Cléber, meu irmãozinho, pediu para que eu guardasse os potes com fotos de filmes pra ele. Ele adora colecionar bobagens. Quando olhei o lixo cheio de lixo resolvi que viria ao cinema na terça e que comeria mais pipocas (pensar em comer pipocas naquela altura me deu um pouco de náusea).

Jaque me disse no carro que estava cansada. Perguntei se estava com fome, se queria uma pizza ou um hambúrguer, ela disse não, acrescentando que estava com a barriga cheia de pipoca. Eu também, eu disse, se você aceitasse pizza, iria até a pizza hut, você escolheria uma mini-pizza e eu ficaria na pepsi. Se você aceitasse o hambúrguer, iria ao drive-thru do Mc Donald's, e escolheria pra mim um sundae de chocolate. Ela perguntou se a pizza hut vendia coca-cola. Respondi que a que eu costumava ir, não, mas nos shoppings, sim. Perguntei se queria parar em algum lugar pra tomar um suco, uma cerveja, não, me interrompeu, acrescentando que amanhã acordaria cedo, então toquei pra casa dela.

Liguei o rádio e um som do Oasis estava no final. Ela aumentou. Que bom, não sabia mais o que falar e quando estou com alguém (seja minha namorada ou um desconhecido na fila do banco), não sei por que, sinto que tenho que falar alguma coisa, não importa o que, sinto necessidade de não deixar o silêncio dominar o ambiente e mesmo estando sem vontade de falar, falo algo, nem que seja pra induzir a outra pessoa a falar. Só não sou assim com meu pai, com a minha avó e também não era assim com a minha mãe, antes do acidente. Quando o som do Oasis acabou eu disse: Bom som, né? Ao que ela respondeu: É! O locutor então falou o nome da rádio (um daqueles ridículos slogans), o horário, 23h15min, e anunciou os Stones. Sorrimos sorriso de criança que ganha um saco de pipoca.

Quando nos beijamos pela primeira vez, numa festa, num apê, quinto andar, janela direta pra avenida, falando sobre a natureza que não víamos, tocava Stones. Mais ainda: tocava essa música. Depois disso, começou o namoro e sempre que ouvíamos Stones ela dizia, nossa banda, e sempre que tocava essa música, dizia, nossa música. Dessa vez não disse nada, apenas sorriu e sorriu mais ainda quando a olhei. Olhei pra frente sorrindo e quando o rabo do meu olho direito captou seu olhar, exagerei o sorriso.

Na porta da casa dela, já não tocava mais músicas, um cara com voz chata anunciava uma escola de inglês dizendo que quem fizesse aula na tal escola, falaria inglês tão bem como um inglês e por isso seria bem sucedido na vida, no trabalho, com os amigos e com as garotas. Estranho esse comercial. Meio doentio. Desliguei o som e a beijei. Ela pegou no meu pau, depois de trinta e cinco segundos de beijo, se decepcionou quando o sentiu mole, soltou meus lábios e olhou pra frente, sem nada ver, mergulhada apenas na sua decepção. Passou-se um minuto (a eternidade em um dia), quando voltou a me olhar e sorriu aquele sorriso que só os médicos sorriem. Beijou minha orelha, meu pescoço, meu queixo, minha nuca, minha orelha, boca, pescoço, nuca, queixo, orelha, boca e sentiu novamente meu pau mole. Tirei sua mão direita do meu pau com força. Esse é meu ponto fraco, quando uma mulher encosta ou vê meu pau mole, me sinto frágil, desprotegido. Acho que é por isso que só transo no escuro, pra que elas não vejam meu pau amolecendo depois da ereção. Disse a Jaque que também estava cansado e que ela teria que me entender. Disse ainda, em êxtase por ter lembrado disso, que no cinema ele havia ficado duro e que ela não quis pegar. Ela disse que ficou duro não por ela, mas pela nudez da atriz principal, e que não gostava do medinho que lhe dava de ser descoberta com a mão no meu pau no cinema, ao que respondi que não estava escrito que não podia e ela disse como que pra si mesma mas falando de mim "idiota".

Disse que tinha que dormir e ela me deu um beijo carinhoso de quinze segundos e quando tirou a boca da minha, olhou com decepção para minha mão protegendo meu pênis. Disse-lhe que amanhã conversávamos. Ela disse até amanhã, sorriu (não sorriso de médico, dessa vez um sorriso de atendente de sorveteria) e saiu. Esperei-a entrar e pisei fundo. Liguei o rádio, mas ao ouvir um cara anunciando o show de uma banda de rock que nunca veio ao Brasil, desliguei. A música dos Stones que ouvira há pouco veio na minha boca. Cantei tão mal que resolvi que na quarta-feira veria preço das escolas de inglês. Parei no farol vermelho, mesmo estando só no cruzamento. Já tomei três multas por avançar o farol vermelho. Odeio, mais do que tudo, essas câmeras espalhadas pela cidade. Sinto-me vigiado como na época de escola, onde qualquer coisinha de errado tinha bronca; como tomei bronca! Quanta bronca! Só tomei bronca na época de escola. Lembrar de escola, pra mim, é lembrar de bronca.

Aproveitei a breve parada pra desligar o celular. Jaque poderia ligar e não queria mais ouvir sua voz por hoje.

Passei na frente do bar que freqüento, ponto de encontro de alguns amigos de tempos e do peito, e lá de dentro o único que me viu foi o Rato que fez um gesto ofensivo mas carinhoso, como só os amigos fazem. Parei o carro torto e um cara novo e forte disse que não tinha erro, iria vigiar o carro e ninguém nem chegaria perto, “nem as autoridade”, balancei a cabeça pra ser simpático e toquei para o bar.

Fiquei contente ao ver ao lado do Rato o Marcão. Dei um abraço nele e disse, você não morreu, cara?, quantos anos!, e ele com seu jeito sempre debochado disse trinta e dois e me apresentou sua amiga Márcia, uma morena baixinha (tipo mignon, que adoro), seios grandes (afirmados pelo decote) e olhar brilhante (pelo menos quando me olhou). Fiz um comentário desses que sempre faço pra quebrar o gelo e fui cumprimentar o resto do pessoal. Mais ou menos duas e meia da madruga, Márcia sentou-se ao meu lado e disse sei lá o quê. Não que eu estivesse bêbado, não, não estava nem alegre (ou a alegria que o álcool em grande quantidade proporciona), tinha bebido pouco, mas não sou um cara de boa memória. Eis outra coisa que me prejudicou na escola. Nunca lembrava nada, como fazer lição ou recitar a tal tabuada. Isso era mais um motivo pra bronca.

Acho que só lembro de coisas que inconscientemente considero importantes. Dessa conversa que tive com Márcia só lembro dos seios dela: naquela altura era a coisa mais importante da minha vida. Conversamos durante uns trinta minutos, o suficiente pra ela poder se dizer que já me conhecia o suficiente pra trepar comigo (as mulheres são umas moralistas!). Disse-me que estava cansada e queria ir pra casa (quando a moral delas se dissolve, dão show!). Disse que talvez quisesse dar uma volta antes, o problema é que não tinha carona. Fiquei quieto. Meu coração batia muito e estava me segurando para não agarrá-la ali na mesa, como ela tanto queria. Lutei pra não falar nada durante um tempinho. Tinha que pensar o que iria fazer. Não queria agir por impulso: o cheiro de Jaque ainda estava em mim.

Que crueldade: Márcia colocou sua mão direita na minha coxa (meu ponto fraco, ah, eu fico louco, eu fico fora de mim!) e perguntou se eu poderia lhe dar uma carona. O brilho dos seus olhos doía em minha carne e lhe respondi gaguejando, com muito tesão, sim, que só iria ao banheiro e a levaria pra onde quisesse. Ela fez um biquinho e disse para eu ir logo. Esse biquinho me deixou com as pernas bambas, pensei que não conseguiria caminhar até o banheiro, mas fui com o coração balançando meu colar. Olhei-me no espelho. Lavei as mãos. Abri a tampa e abri o zíper do meu jeans. Não conseguiria acertar a privada nunca. Talvez se forçasse um pouco, acertasse o teto. Lavei minha mão de novo e, me olhando, concluí que precisaria fazer isso pra saber se realmente queria continuar o namoro. Depois de dois anos e meio com Jaqueline, não havia fugido nenhuma vez. Meu recorde. Vários quase, muitos quase, meu Deus, quantos quase! Mas quase não passa de... quase!

No carro, perguntei pra onde ela queria ir. Ela lambeu minha orelha, meu pescoço, minha língua. Peguei nos seus seios. Ela pegou no meu pau, sorriu contente e não quis mais largar. Mesmo quando disse pra ela que iria tocar para um drive-in.

O tempo do lugar onde estávamos até o drive-in se dissolveu da minha história e quando nos beijávamos no nosso box, ela sem tirar a boca da minha ligou o som. O Pearl Jam mandava "Even Flow". Beijei-lhe os seios e ela gemeu. Mordi e ela urrou. Beijou-me inteiro fazendo contorcionismo.

Mais um tempo infindável dissolvido na minha existência se passou até que ela sacou uma camisinha da bolsa e colocou em mim. Subiu em mim e quando fechamos os olhos, começou o som dos Stones. A-QUE-LE som dos Stones. Um mal estar imenso me invadiu e esse tempo não conseguiu se dissolver da minha vida, carrego-o como quem carrega um botijão de gás cheinho. Minha mão esticada não alcançava o som. Prazer e dor. Angústia e ardor. Confusão e descontrole. Tremor e gritos. No refrão da música, fiquei na dúvida se iria gozar ou ter um ataque do coração.

Meus olhos, desde então, brilham brilho único, o mesmo brilho que naquela noite expressava desespero e êxtase.

Êxtase e desespero. Desespero e êxtase, eis o que me causou, causa e vai causar Stones nos meus caminhos que percorro trôpego como pedra rolando em tempestade.

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