IDENTIDADE(...)

Dramaturgia.

O espetáculo estreou em 2012 no SESC Consolação em São Paulo.

O livro foi lançado também em 2012.

Abaixo trecho do livro.

                      IDENTIDADE(...)

 

Já no carro em alta velocidade pelas ruas de uma cidade qualquer eu me perguntava “mas que cidade é essa? Que cidade é essa?” Me perguntava também se eu não estaria roubando o destino do verdadeiro Rogério Marques que nesse momento estaria no aeroporto procurando a plaquinha que assaltei. Me perguntava também se eu não estaria furtando seu passado. Raptando sua personalidade. Sequestrando seus sonhos. Despojando sua mulher e tomando seus filhos. Arrebatando uma vida. Mas, embebido desse espírito pirata, bati a carteira do meu próprio bolso e vi através dos documentos que coincidentemente ou não, eu era, eu sou, de fato, Rogério Marques. Só que, segundo os documentos, Oliveira. Rogério Marques Oliveira. E pra falar a verdade, saber-me Oliveira me deu até um certo alívio, já que a partir daquele momento eu saberia mais de mim do que o motorista que só me sabia Rogério Marques. Deu até vontade de dizer “olha só, eu sou Rogério Marques Oliveira, viu?”, pra exibir meu auto-conhecimento. E como num estalar de dedos tudo foi voltando. Ao menos na hora, eu pensei que tudo estava voltando, principalmente porque a primeira coisa que me lembrei de fato foram minhas senhas. Essas certamente dariam muitas pistas para minha auto-investigação. São tantas senhas, agência 0311 conta corrente 50.333 dígito 2 senha 011512, dias dos aniversários da minha mãe, do meu pai e do meu irmão nessa ordem. E-mail rogeriomarques@hotmail.com senha 121501 inverte a ordem, aniversário do irmão, pai e mãe, tal como a senha do cartão de crédito, do outro cartão e do cartão da outra bandeira também. No caso das redes sociais F, T e L, a senha é 151201, pai, irmão e mãe. Fui lembrando senha por senha, a senha da senha, a senha pra recuperar a senha esquecida, a senha esquecida que foi trocada, a senha trocada que foi esquecida, a senha pirateada substituída, a senha blindada que foi hackeada, a senha do sistema da empresa, do sistema da diretoria da empresa, do alarme da casa da praia, do net, do not e do cel, lembrei da minha senha pra acordar e pra dormir, lembrei da senha pra nascer, senha pra crescer e senha até pra morrer, no caso as minhas, todas derivadas das datas de aniversário do meu pai, da minha mãe e do meu irmão.

 

Lembrar as senhas me deu um certo alívio, afinal, quem és tu sem as suas senhas nos dias de hoje? Mas essa amnésia repentina me lançou num estado de estranheza. Confusão. Eu reconhecia a cidade em que estava pelos viadutos, monumentos e praças, mas não sabia o nome da cidade. E estalando os dedos eu consegui lembrar de outras coisas. Lembrei, por exemplo, que estava naquela cidade para uma reunião com uma grande empresa de sabão em pó na qual eu propunha uma nova campanha publicitária chamada “IDENTIDADE”, claro, lembrei. A cada novo estalo de dedos, uma nova lembrança, claro, lembrei! Eu estava realmente perturbado. Chegando aqui no hotel, o ambiente agora é esse, um quarto de hotel nessa cidade sem nome, coloquei essa mala preta no chão ainda me perguntando se de fato ela me pertencia ou se teria alguém neste momento no aeroporto xingando os funcionários da companhia aérea pela mala extraviada. Eu me despi com pressa, como se a nudez me ajudasse a encontrar minha essência e comecei a me perguntar, o que está acontecendo comigo? O que foi isso que aconteceu comigo hoje no aeroporto? Meu Deus, o que foi aquilo? O que está acontecendo com minha cabeça? O que está acontecendo? Eu só teria reunião no dia seguinte, ou seja, eu tive muito tempo pra não fazer nada e nada fiz. Simplesmente fiquei com as mãos na cabeça me perguntando, o que está acontecendo comigo? Eu ainda vivia o coração acelerado que sucede o susto e ele não queria parar de bater em alta velocidade, e minhas mãos na cabeça e eu me perguntando, o que é isso que está acontecendo? Por mais que num estalar de dedos eu pudesse lembrar e dizer quem é esse que sou, a questão que me veio no aeroporto, esse que sou eu quem é?, martelava as minhas idéias. Quem é esse que sou? Quem? Quem? Rogério Marques. Sou Rogério Marques. Oliveira. Rogério Marques Oliveira. Tenho trinta e sete anos. Signo: gêmeos. Ascendente: libra. Um metro e setenta e oito de altura. Peso: setenta e seis quilos. Olhos castanhos. Cabelos castanhos, embora já comecem a rarear, tenho duas grandes entradas. Mesmo assim continuam castanhos. Barba por fazer quase sempre, mas não a ponto de me parecer um desempregado deprimido e sim a ponto de poderem me classificar como “despojado”. E isso pra minha profissão é bom. Sou publicitário. Publicitários são pessoas despojadas. Que deixam a barba por fazer pra parecerem despojados. Não que eu deixe a barba por fazer pra parecer o que sou, despojado. Não faço a barba diariamente porque me irrita a pele e pele irritada é irritante. Mas sou, com ou sem barba por fazer, um publicitário despojado. Premiado. Faço as pessoas acreditarem em coisas às vezes inacreditáveis. Forjo necessidades e invento prioridades. Saindo do campo profissional e entrando no campo pessoal, a coisa que mais gosto é viajar. De férias, não a trabalho. Viagem a trabalho me cansa e muito. Me deixa confuso. Não sou religioso, mas também não xingo os deuses. Não sou vegetariano, mas evito carne todos os dias. RG: 30.409.490-4. Visto para os Estados Unidos vencido esse mês. Preciso renovar, preciso anotar isso na minha agenda, aliás, cadê a minha agenda? Estou com doze pontos na carteira de motorista por excesso de velocidade. Fora os pontos que passei para a carteira da minha tia. Taí uma coisa que adoro. Velocidade. Ir reto toda a vida. Eu sou brasileiro. Latino-americano. Terráqueo. Paulista, paulistano. Corintiano, graças a Deus. Não sou casado oficialmente, mas moro junto com Raquel, com quem tenho Michele, de quatro anos. Tenho opiniões políticas claras, embora confusas. Confusas, mas pra mim, no fundo, claras. E gosto de rock. O ano inteiro. Samba gosto no carnaval. Ópera, no inverno. E na primavera, latinidades. E etc. E tal. Em resumo é isso. Esse é o meu personagem. O personagem que represento no palco da vida. Vida real. Ou seja, esse é o ser que eu me tornei. Ou o que a vida me tornou. O que me tornei na vida. Embora nesse momento desordenado. Embaralhado. Transtornado. Depois do branco no aeroporto, com crateras na memória. Confuso a ponto de ainda não ter certeza se a minha mala é a minha mala. Reviro essa minha mala e reconheço uma gravata, mas desconheço uma cueca. Reconheço uma meia, mas desconheço uma calça. Reconheço o perfume, mas desconheço o shampoo. Reconheço a escova de dente, mas desconheço o alicate de unhas. Confuso a ponto de lembrar bem qual é o meu time do coração, todos os seus títulos e glórias, mas não lembrar do dia no nascimento da minha filha. Eu não lembro do dia do aniversário dela, da minha filha! E se por um lado eu lembro como foi o meu primeiro contato com a neve, por outro, eu não lembro da minha rotina de vida. Minha rotina da semana. Eu não lembro! Ainda bem que eu tenho uma agenda, aliás, cadê ela? Ainda bem também que eu lembro bem que eu tenho uma secretária que eu lembro bem como ela trabalha bem, embora eu não lembre bem o seu nome. Ao menos eu lembro o meu. Que é Rogério Marques. Oliveira. Rogério Marques Oliveira. Rogério Marques Oliveira. E eu deito e durmo repetindo Rogério Marques Oliveira na esperança de esquecer o esquecido, mas ao acordar, na hora eu lembro do branco e o coração acelera e as mãos suam. E eu? Eu continuo. O que mais que eu posso fazer? Eu finjo ser o mesmo de sempre, mesmo sem ter certeza como sempre fui. Finjo ser o mesmo Rogério Marques Oliveira de anteontem. Estalo os dedos e consigo dissimular uma segurança, uma personalidade, uma identidade. Estalo os dedos e me vejo na sala de reuniões da grande empresa de sabão em pó. Identidade é o nome da campanha, claro, lembrei. Estalo os dedos e consigo lembrar a ideia inteira da campanha que criei antes de ter a minha própria identidade posta em xeque. E agora através da campanha identidade eu busco um cheque. Estou na cabeceira da cumprida mesa, a diretoria toda está a minha volta. Eu estalo os dedos e digo, você é o que você come? Você é o que você come? Você é o que você come! Você é o que consome. Não vivemos mais a era do cidadão. Estamos na era do consumidor. Democracia não é votar, é poder escolher produtos pra comprar e o ideal é que esses produtos tenham a ver com você, com a sua identidade. Quando um cidadão, digo, um consumidor, escolhe um produto X ou Y, ele está fazendo uma escolha de vida. A afirmação de uma personalidade. A escolha de produtos é a fundação da sua identidade! Em resumo, essa é a ideia da campanha. Afirmar a importância dos produtos para a formatação do consumidor dos dias de hoje. O que acharam? Palmas. Contrato assinado. Um grande contrato. Fiquei feliz. Tanto que, ainda na empresa, porém no banheiro, quando me vi sozinho, eu disse “yes!”. Mijei e foi no momento em que lavava as mãos que de relance me vi no espelho e não me reconheci. Tomei o susto de quem se depara com um estranho te olhando num momento de intimidade. E como quem quer agredir o intruso que te privou da privacidade da privada, eu disse, sem dizer, só no olhar, espero que essa empresa tenha um sabão em pó neutro, porque somente um sabão em pó neutro pra você afirmar a sua identidade.

 

Voltei pra cidade que parecia ser a minha juntando os cacos da minha vida. Meu quebra cabeça reality. Deslocado no tempo e no espaço. Me sentindo um personagem da vida real. Só que mal ensaiado, sem o texto decorado, sem saber minha marcação, sem nem mesmo saber o que fazer com a minha mão. Me sentindo desconfortável no meu próprio corpo. Como é que alguém em sã consciência, meu Deus do céu, pode se sentir desconfortável no próprio corpo? Me senti desconfortável na minha própria casa. Um estranho no meu ninho. Aqui na varanda do meu apartamento moderno, estilo retro, eu digo aos ventos, as músicas me remetem a emoções de lembranças que eu não lembro. Tal como cheiros que me remetem a cheiros já sentidos e eu pergunto: quando, onde? Os gostos que sinto na boca me remetem a tantos gostos já sentidos quando, onde, do quê? Os toques que sinto na minha pele-carne-ossos-alma me remetem a outros toques: por quem? Identidade difusa. Rosto coberto e voz adulterada. Tal como essas pessoas que dão entrevista pra televisão e não podem ser identificadas, rosto coberto e voz adulterada.

 

Falei tudo isso para o meu médico. Falei também do coração acelerado e da memória fragmentada. Ele me pediu uma série de exames e quando me sentei na sua frente, me sentia num tribunal pronto pra ouvir do juiz a minha sentença, que poderia ser a pena de morte. E o juiz, digo, o médico, parecia se divertir com o poder que tinha sobre o meu destino. Ele analisava com calma os exames e me olhava vez em quando com cara de personagem mafioso italiano em filme americano. Acho que, se não fosse anti-ético um médico acender um cigarro, ele o faria e só me daria a resposta já sabida na quinta tragada. Já com os exames na mesa, me olhando nos olhos, ele estalou os cinco dedos da mão direita e me disse em seguida, você está com estresse! Estresse? Só isso? Achei que fosse coisa mais séria! Claro que eu não estava decepcionado com o veredicto, eu só esperava que não fosse coisa da minha cabeça e sim algo visível num Raio X. Mas ele tentando valorizar o seu trabalho, esclareceu que estresse é coisa séria! Morre-se de estresse. Você corre risco de AVC. Repouso era o meu remédio. Uma dose de férias por dia durante pelo menos trinta dias. Férias na veia. Ou via oral. Supositório de férias. Isso ele não falou, mas eu subentendi. Férias era a minha receita assinada com letra legível. Nesse momento, impossível, doutor! Eu acabo de assinar contrato com uma grande empresa de sabão em pó, provavelmente a mesmo que o senhor usa pra deixar esse jaleco branco, tão branco. E é campanha grande, não posso parar nesse momento. Identidade é o nome da campanha. Não tem outro remédio pra me oferecer, algo que me faça simplesmente esquecer o que eu esqueci? Eu disse isso num desabafo, como quem confunde neurologista com psiquiatra, clínico geral com psicólogo. Disse mais. Disse, doutor, eu sempre tive esse ritmo de vida, não é possível que agora eu vá ter problema. Eu sempre vivi assim, em alta velocidade, reto toda vida. Reto, mesmo sem olhar exatamente pra onde ia. Pra onde me levava essa estrada. Ou pra onde me trazia. Reto toda a vida. Estou confuso. Até o médico fica confuso. E eu me pergunto, será que todos a minha volta estão confusos?

 

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