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BAILARINA (CAMINHOS CRUZADOS)

March 9, 2016

Bailarina (caminhos cruzados)

Acordou cedo como todo dia e como todo dia sofreu, doeu, que saco, que droga, ah, nada melhor do que dormir, quando, meu Deus, quando vou poder dormir até meio-dia? 
Tomou banho quente (pelando) quase de olhos fechados. Só abriu os olhos realmente ao ligar seu carro.
No escritório, despachou, arquivou, telefonou, disse não, disse claro, abriu e fechou sua caixa de e-mails doze vezes, disse em voz alta que odeia SPAM, foi paquerada novamente pelo chefe do setor de baixo, fez um bom negócio (o melhor da semana) e aí sim foi almoçar. 
Arroz, feijão, meio pedaço de picanha, um punhado de maionese, duas folhas de alface com bastante sal, suco de limão sem açúcar (mas com adoçante, claro) e pudim de leite de sobremesa. 
Passou na banca de jornal e viu as manchetes das revistas imbecis que nunca compra, mas que adora ver a capa. Disse consigo mesma, eu sabia que aqueles dois não iam ficar muito tempo juntos, esse ator é muito galinha e essa cantora muito ingênua, não ia dar pé!
A tarde foi fresca, ligou o ar condicionado e desligou duas vezes, foi paquerada pelo chefe da seção de cima (mas desse ela gostou, tanto que sorriu de volta, respondeu às suas perguntas bobas com jeitinho de menina e olhou sua calça social meio apertada), tomou café, fechou dois negócios pequenos, teve vontade de dar um cochilo (quando, meu Deus do céu, quando eu vou poder dar um cochilo de tarde?), ligou Beethoven no computador e ouviu quase todos reclamarem dizendo de novo?, ao que ela entre empolgada e orgulhosa respondeu ontem foi Vivaldi, antes de ontem Bach, sexta-feira foi Caetano e na quinta deixei vocês ouvirem Ivete, sem chiar.
Abriu sua agenda de trabalho e viu que estava cheia até semana que vem. Abriu sua agenda pessoal e viu que hoje tinha jantar com André, depois de amanhã cinema com Marcos e sábado balé com Camila... 
Deu a hora de ir embora, mas ficou mais uma hora sem peso nas costas, ao contrário, uma leveza incrível, executou tudo que tinha que ser executado, importou o que tinha que ser importado e exportou o que tinha que ser exportado, disse sim e foi para o carro a caminho da casa, e na casa o banho e do banho o vestido preto e do vestido preto o interfone onde seria anunciado pelo sotaque forte do porteiro João a presença de seu André... O que será que quer André comigo? Namorar? Transar? Conversar? Tomara que seja só uma transa, se não vai doer na alma dele, ah... 
Banhou-se e foi só quando saiu do banho que lembrou que sábado iria ao balé. Bateu uma alegria, um êxtase, uma coisa entre suave e furiosa, um tesão e uma vontade louca de executar alguns dos passos que executava com tanta leveza antes do acidente que a privou de ser bailarina. Não era amargurada por isso, fazia tudo que fazia com ardor, calor, sabor, humor, dor e amor, mas vez em quando batia uma saudade do tempo em que ensaiava diariamente a partir da uma da tarde até o corpo não agüentar mais, ah... Saudade, não uma saudade doída, e sim uma saudade contente; não era uma frustração, e sim uma conseqüência, ela fez tudo que pôde fazer, então, um brinde, disse mais tarde pra André com a taça de vinho tinto erguida (André a olhava de terno e gravata com olhos brilhantes, entre ingênuos e excitados), um brinde... A quê? Perguntou o cara e ela sem titubear respondeu alto, fazendo as mesas em volta olharem-na não com incômodo, e sim com admiração: aos caminhos cruzados...

(do livro ESSAS MOÇAS QUE ME CAUSAM VERTIGENS - lançado em 2007)

 

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