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Paixão de Cristo

March 27, 2016


Escrevi isso há poucos anos e na época fiquei surpreendido com as reações, algumas exageradamente entusiasmadas e outras assustadoramente agressivas de amigos ou pessoas desconhecidas. Minha conclusão foi (e é) que as questões religiosas são das mais mal resolvidas de todas as civilizações. E ao contrário da frase que diz que "não se discute" penso justamente o contrário.
Eis o texto:

Eu peço publicamente DESCULPAS pra quem estava lá pra ver a bela encenação da Paixão de Cristo da nossa cidade e tiveram o espetáculo interrompido quando eu, que fazia Jesus, parti pra cima dos caras que representavam os guardas romanos que me davam chicotadas enquanto eu carregava a cruz. Como gosto de improviso, acabei achando mais interessante essa reação perante o que parecia injusto, do que o mero conformismo com um tipo de status quo. Para os que esperavam ansiosos pelo final já sabido, peço que entendam que o teatro acaba transcendendo vez em quando a mera representação da vida (ou do que se pensa que foi e é a vida). Ainda assim, sei que desrespeitei as marcações do diretor. Mas desde o começo eu pedi pra fazer Judas, achava o personagem mais humano e com mais camadas. E curiosamente o cara que fez o Judas estava com raiva de mim porque queria ele fazer Jesus, de modo que foi bonita e até emocionante a cena dele pegando a cruz no chão e conduzindo heroicamente até sua própria crucificação enquanto eu saía na porrada com os quatro guardas (aproveito pra agradecer aqui o Pedro - o ator que fez o Pedro - que se juntou a mim na pancadaria). O espetáculo não pode parar, mesmo se no final Judas se transformar no crucificado. Quando aquela senhora gritou no microfone que eu deveria ser preso por ter desvirtudado a história sobretudo para as crianças que esperavam ver a encenação como proposta no catecismo, garanto que ficaram também algumas parábolas interessantes pra elas refletirem. Algo que não seja pautado apenas na culpa, piedade e perdão. Isso já aprenderam bem. É preciso ir além ou ao menos aquém do já sabido. É esse o espírito da coisa, mesmo que não seja um Santo Espírito, é o melhor que pudemos fazer nesta Santa Sexta. 
Com amor e sem culpa, Vinícius (sem piedade).

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