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Cassinos de Macau

December 15, 2016

Os cassinos de Macau na China me impressionaram muito. O crescimento deles, como tudo relacionado ao país, foi tão grande que hoje geram três vezes mais receita que os cassinos de Las Vegas. Passei algumas madrugadas com meu brother Márcio Baptista me perdendo naqueles cassinos infindáveis. E meu interesse nunca foi jogar e sim sentir aquela atmosfera que me fascinava e repudiava a um só tempo. Escrevi um texto (pseudo-poesia) que vai entrar no livro que estou escrevendo inspirado nas cidades por onde passo e compartilho integralmente aqui:

CASSINO

Perdi tudo que eu não tinha nos Cassinos de Macau.
Apostei o dinheiro dos outros que temiam a sorte que jamais tiveram.
A cada número acertado eu triplicava o risco.
A cada número errado eu oferecia os bens (e os mals) daqueles que queriam o risco do risco.
De um deles já sem posses que perdi numa roleta que de chinesa virou russa,
ofereci três dedos da mão direita (mindinho, fura-bolo, pai-de-todos),
o rim, a alma e o filho pós-adolescente de cabelo azul que apesar de chinês nascido na capital é fortemente identificado com a cultura japonesa para o desespero do seu avô.
Jurei pelo deuses gordos dos budistas e pelo Papai Noel dos cristãos
que se ao levantar essa carta aparecer uma valete seminua 
eu ficaria mais duas horas zanzando semi-sonâmbulo pra arriscar nos jogos
com a certeza 
de que 
aquilo na vida
que não pode ser arriscado nos dados
não merece o risco 
(de vida).
Dilatei as pupilas com uma técnica recém adquirida pra deixar na dúvida os que de mim duvidam.
O problema real é quando você precisa blefar pra você mesmo,
aí, meu amigo, minha irmã, a coisa tá ruim pro seu lado,
pior que vício de jogar nas máquinas 
o destino do seu destino.
Vida é aquilo que acontece enquanto a roleta gira.
Apostar é plantar.
Perder é colher.
Seu acerto é erro do esperado.
Meus erros eu pago com fichas.
Aqui Deus e o Diabo merecem maiúscula.
Aqui o Comunismo chinês tá na tumba do Mao.
Aqui é só mais um espaço de tempo entre um dia escuro e uma noite clara.
Aqui Portugal esqueceu seu idioma.
Aqui é lazer para os que levam a vida a sério.
Aqui é palco pra seus atos mais sem sentido.
Aqui o passado era triste e o presente é futuro.
Aqui é só mais uma ilha boiando no nada da sua existência.
Aqui seu charme é cópia de filmes americanos com atores que estudaram no Actors Studio.
Aqui destempero.
Aqui não se sabe quem se diverte e quem morre um dia de cada vez.
Aqui a água é grátis e o banheiro é virando ali na segunda porta à esquerda.
Aqui o café com leite é grátis e a saída é uma porta pra outra entrada.
Aqui seu rolex é só um relógio que marca as horas.
Aqui o fuso-horário é metáfora sobre futuros pretéritos.
Aqui o jet leg é wisky com barriga vazia.
Aqui você não vai conhecer ninguém pra transar (sem pagar), 
nem pra falar sobre a ex-globalização (sem pagar),
nem sobre o casamento do pequeno burguês ($).
Aqui seus braços cruzados não significam corpo fechado.
Aqui o tempo é medido em cifras 
e a areia da ampulheta caindo é cocaína.
Aqui a pressa é amiga da refeição.
Aqui o seu cartão de crédito é o passaporte.
Aqui o grito é abafado e o silêncio é em cantonês.
Aqui é Estados Unidos da China.
Aqui você se proteje de você.
Aqui não se agradece aos santos pelas glórias esquecidas.
A cada nova mesa percorrida sem pressa com falsos destinos
a pergunta que você se faz sem emitir voz, porém mexendo a boca
é o que fazer com tanto dinheiro?
Não se pode jogar tudo pra cima e começar tudo do primeiro milhão.
Enquanto aqui estamos, 
nossos filhos 
são devidamente 
mal-criados 
pra reproduzir tudo que de torpe fizemos pela raça humana.
Falhamos de mãos dadas, 
munidos perderemos.
Todos nós aqui boiando nesse rio sujo com nojo da merda que boiamos.
Mas chega de fingir pensar algo além do jogo.
Entre a aposta e o resultado final com as fichas já na mesa,
a cabeça fica vazia 
e é nesse momento que as perguntas mais claras não calam.
A cara daquele que ganha o dobro,
se metamorfoseia nas faces do que perde o triplo.
Você não paga pra ganhar. Você não paga pra perder. Você paga pra jogar.
Sorte de hoje é azar requentado?
Azar vindouro é sorte cansada?
Entro naquela porta que me joga numa outra dimensão com mais jogos conduzidos 
por funcionários com caras de bonecos de cera.
Seguranças que ao me olhar nos olhos parecem saber tudo que já fiz de errado na vida,
me olham nos olhos relevando meus pecados,
mas advertindo que lá nenhum deles será permitido.
Tudo me parece possível até o impossível me abraçar e me gritar sou sua.
Mais uma porta se fecha atrás de mim anunciando minha entrada em outro desconhecido 
(idêntico aos outros tantos reconhecidos).
Desta vez o segurança finge gentileza apontando a entrada pra que eu fique à vontade
pra me gastar até o último resto do que já fui.
Minha vontade é dizer que meu bolso furado não lhe pagará salário.
Uma funcionária me fala em inglês com sotaque de Xangai que ali é noite todo dia.
Fotos pra serem deletadas assim que tiradas (da virtualidade).
Nada de self nos momentos em que seu descontrole mostre o quão terrível pode ser sua existência.
A trilha sonora de uma vida concebida dentro de um laboratório de informática
é musiquinha de vídeo-game.
A limpidez não me esconde a sujeira.
Sua auto-suficiência se justifica pelos mais de dois bilhões de habitantes terra adentro.
É preciso espaço pra tanta sorte.
É preciso azar pra tanto jogo.
E preciso saber parar quando ainda é possível sair com um sorrido escancarado na cara.
É preciso empatar num dia tolo.
É preciso calcular a quantos passos você está da cama do hotel que te é casa hoje.
Deixa eu te contar daquelas noites em Macau
em que viciei no vício dos outros
como o tal do fingidor que fingiu tão completamente?
Noites não debitadas do meu cartão des-crédito. 
O relógio do seu pulso pulsa na mesma velocidade do seu coração medido no pulso.
Vampirizar-se pra retroalimentar-se.
Eu fecho os olhos num piscar prolongado e quando olho tudo novamente
me vejo ofuscado pelos nossos excessos.
Só paro de andar sem destino nos labirintos iluminados por neons 
quando percebo que todo dinheiro que os outros gastam (ou ganham)
pra mim é o tempo que lhes dedico em busca de um sentido
para além do horizonte que parece sem fim, 
mas que termina no final desse carpete sempre limpo.

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