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BRANCO DE MEMÓRIA

February 3, 2017

Recentemente eu quase desisti de ser ator. Não quero entrar em detalhes de quando, nem onde, mas vou detalhar o porquê. Tive um branco devastador de memória no palco. Não foi um branco qualquer como outros tantos que já tive. Foi uma cratera imensa, um buraco negro, um vazio incomensurável. Das piores sensações da minha vida. Que vai além de simplesmente esquecer um trecho de uma peça. Claro, dizendo de maneira objetiva eu posso dizer simplesmente “esqueci o texto”. Mas foi mais que isso. Mais do que esquecer o personagem e a peça. Foi uma sensação de abismo inédita pra mim. Talvez minhas sensações físicas tenham se aproximado das sensações de quem está tendo crise de pânico. No ápice da crise. E o fato de na ocasião eu estar inserido num contexto que não era o meu habitual trouxe um peso cruel para o acontecimento. Era um espetáculo em que eu era só ator, nem o texto nem a direção eram meus. E não era um solo. Ou seja, outras pessoas dependiam de mim pra dar seus textos e executar suas ações. E eu lá, calado, pálido, trêmulo. Curiosamente eu havia escrito uma peça chamada IDENTIDADE(...) em que o texto começa com a descrição de um branco de memória de um ator diante do público. Mas apesar de ter descrito quase detalhadamente o branco naquele texto, nunca eu tinha experimentado de fato tal sensação. Claro, já havia tido diversos brancos, coisa normal, mas aquele vazio absoluto foi a primeira vez. E eu não imaginava que poderia ser tão terrível. Abismo. Queda. Morte?
Meu Deus, ninguém morre com um branco de memória de um ator no palco, certo? Então qual o motivo de tamanha agonia? Não sei dizer. Talvez seja uma sensação próxima a de um jogador de futebol depois de perder um pênalti importante. O último pênalti de um jogo decisivo. Morte? Oras, aquilo é só futebol, não é? Ninguém vai morrer pelo erro. Mas os símbolos, significados e significantes são mais complexos do que parecem. Cada um com sua dimensão. Sua dor e sua delícia (de ser o que é?). Sucessos e fracassos lado a lado.
Um atirador de elite erra o alvo. Um malabarista derruba as argolas. Um engenheiro erra um cálculo. Um piloto derrapa na curva. Uma confeiteira perde o tempo do bolo. Um cirurgião vê o óbito do seu paciente. Uma cabeleireira corta dois dedos além do combinado. Um trapezista se desequilibra nas alturas. Uma cantora desafina. Um peão cai do touro no primeiro segundo. Um violinista erra a nota. Um advogado perde uma causa fácil. Um anestesista erra a veia. Um jornalista erra o furo. Um economista fracassa nas previsões (tal como a vidente). Tantos possíveis exemplos que podem servir de metáfora para o branco do ator no palco. Ainda assim nenhuma será igual. Algumas situações são piores porque colocam vidas em jogo. Outros são mais amenas. Pra quem não se interessa por futebol aquele erro de pênalti é um nada. Agora para o torcedor fanático aquilo é realmente muito sério. E mais que isso, a dimensão que cada um dá para tais acontecimentos é única. 
Já tendo passado por crise de estresse em função de maratona de apresentações, numa ocasião me exigi férias do palco. Duas semanas depois já estava com saudade das estradas e da rotina teatral. Como já tenho alguns anos de palco nas mais diversas situações possíveis (pra multidões ou pouca gente), nos mais diversos tipos de teatro (imensos ou minúsculos) eu não esperava que nada poderia colocar em xeque minha carreira. Mas eis que aquela sensação devastadora me fez pensar o que eu poderia fazer da minha vida a partir dali. O que? Me lembrei da autobiografia do tenista André Agassi em que ele diz que num determinado momento da carreira não tinha mais a menor disposição pra jogar tênis, mas como desde muito cedo ele havia se dedicado ao esporte, não via nenhuma perspetiva além de... continuar. O que mais eu poderia fazer da minha vida? Eis que no meio do terrível abismo do branco, essas questões me invadiam enquanto o texto não vinha. Limbo. 
Depois da peça, conversando com amigos que assistiram ao espetáculo, a maioria me disse não ter notado aquilo. Uma amiga chegou a me dizer que parecia proposta aquele silêncio inesperado no meio da fala. Mas meus companheiros de cena, a equipe de direção e os técnicos, naturalmente, perceberam tudo. Mas não era isso o que me causava tamanha agonia. Era na verdade a falta de domínio que eu parecia ter (ou não ter) sobre aquilo que era vital na minha profissão. O pavor naquela altura não vinha do branco em si, mas da certeza de que eu teria brancos daquele tipo pra sempre. Não sei de onde tirei aquela ideia, mas ela me fez conjecturar outra vida, fora do que fora minha vida desde que pude escolher o que faria. O que seria do meu futuro? Como? Onde? 
A apresentação seguinte a essa do branco foi a pior da minha vida. Sobretudo nos momentos que antecederam o trecho do branco do dia anterior. É evidente que eu não conseguia relaxar. Qualquer um poderia dizer um bando de chavões pra me acalmar e isso e aquilo, mas o que eu sentia não seria resolvido com frases feitas otimistas. Nem com respostas prontas de psicólogos oníricos ou com tarjas pretas de psiquiatras de óculos escuros. Minhas próprias experiências teatrais que incluíam situações mais do que inusitadas como quando tive problemas na legendagem do espetáculo e tive que improvisar em uma língua que eu não dominava (em cidades como Zurique e Munique), não me confortava. Nada que eu pudesse fazer me tranquilizava. Era como se depois de uma mordida de tubarão naquela praia, exigissem que no dia seguinte o surfista pegasse onda exatamente lá, no mesmo lugar da mordida. Claro que a probabilidade do tubarão voltar pra atacá-lo era muito baixa, mas vai dizer isso para o surfista. Não adianta, ele ficará a espera do tubarão. E eu a espera do branco. Tubarão. Morte? Até que cheguei em tal trecho, o trecho do branco de ontem, do abismo, branco, eu, pálido, eu, trêmulo e o texto... veio. Claro que sem nuances, sem força, sem verdade, mas veio, ou melhor, foi, passou e quando a peça terminou eu chorei por ainda estar... vivo? Tubarão.
Mas o que eu havia sentido era ruim a ponto de eu me perguntar pra quê? Claro que não cheguei a abrir a página de classificados de empregos pra ver o que faria. Mas a perspectiva de sentir tal sensação a cada apresentação estava descartava. Se assim continuasse eu teria que parar. Passaria a ser apenas diretor e autor fugindo daquilo que me parecia o fim. Abandonaria aquilo que mais me dá sentido no existir. 
O que eu pude fazer até voltar a sentir uma mínima tranquilidade pra continuar foi simplesmente ler aquele trecho do texto por horas a fio até ele sair automático como um “parabéns à você” ou o hino do Corinthians que saem da minha boca sem que eu tenha que pensar. 
E apresentação por apresentação fui ganhando confiança e voltando acreditar que aquilo, ser ator, era de fato minha vocação. 
Vieram alguns brancos depois daquele, mas nenhum me gerou aquela sensação de catástrofe, pelo contrário, como sempre levei com certo humor. 
A primeira apresentação de IDENTDADE(...) depois daquilo foi especial. Falar daquele branco terrível tendo experimentado tal sensação resignificou aquela investigação sobre nossas identidades dissolvidas da contemporaneidade. 
Fiquei muito aliviado por não ter tido que abandonar a carreira e posso dizer que me vejo pra sempre ator, mesmo quando for um velho desmemoriado. Não pretendo “pendurar as chuteiras” jamais. Mas sigo alerta, com menos certezas absolutas do que antes do tal devastador branco, mas com uma alegria infindável a cada nova apresentação.

(Texto de Quinta - Publicado todas às quintas no site viniciuspiedade)

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