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Texto de Quinta: Passagem (Diários de Viagem)

February 23, 2017

Fiquei sabendo do falecimento dela pouco antes de embarcar em uma longa viagem. Falecimento. Palavra feia. Mas achei melhor do que a palavra morte. Poderia ter dito também desaparecimento, mas esse termo deixa uma esperança vã de aparecimento. Passagem me parece um bom termo tal como “desencarnou”, mas como são termos que exigem fé, preferi o burocrático falecimento.

Apesar de não ser próximo a ela, nos momentos em que convivemos trocamos muito. Trabalhamos por quase dois anos em um processo absurdamente profundo. Nesse período almoçávamos juntos quase todos os dias. Não nos tornamos amigos, mas tínhamos uma relação de muito carinho. O que configura alguém como amigo? Claro que eu poderia me referir a ela como amiga se alguém me perguntasse se eu a conhecia, mas não era alguém pra quem eu ligava pra desabafar. Mas pra quem eu ligo pra desabafar? Em tempos de redes sociais os desabafos tem sido mais públicos que privados. Partindo desse princípio posso sim considerá-la amiga, mesmo que distante, mesmo não morando distante. Como tantos. Até porque na correria da contemporaneidade os amigos acabam se dissolvendo com a pressa de um metrô lotado em que não cabemos.

Mas saber do seu FALECIMENTO pouco antes de embarcar foi um baque tão forte que me fez até pensar em cancelar o vôo. Mas como de fato tal cancelamento não a faria desistir de desaparecer (ou morrer ou falecer ou desencarnar) acabei seguindo viagem e abrindo mão de participar do seu ritual de passagem (ou velório/enterro).

Sou do tipo que degusto as viagens longas com os livros que se acumulam nas estantes. É como se as horas de espera e deslocamento fossem tempos preciosos pra se ganhar e não se perder (tempo/vida). E pra aliviar o peso que a tal estante tem que suportar. Jamais considerei uma viagem (o caminho/passagem) “perda de tempo”. Mas apesar de ter selecionado uma literatura e um livro de crônicas pra alternar meu humor, acabei não conseguindo me concentrar pensando naquilo que todos pensamos quando alguém próximo morre, ou seja, a perenidade/finitude da vida. E pra ela dediquei meus melhores pensamentos. Lembranças de conversas ou de situações em que ela estava no palco fazendo o teatro que acreditava com todas as forças de sua vida (tempo/passagem).

Quando já sobrevoávamos o oceano atlântico entrei numa conversa com a jogadora profissional de vôlei sentada ao meu lado indo de mudança pra Sérvia onde defenderia um time local. O vôo era pra Paris, então ela faria uma breve conexão para seu novo lar. Sou privilegiado com uma imensa curiosidade que me permite conversar por horas sobre assuntos que não domino na ânsia de conhecer melhor e percorrer mundos outros. Se alguém vier com a aquela pergunta óbvia “qual a sua maior qualidade” sem titubear eu respondo CURIOSIDADE, por mais que isso que chamo de qualidade pra muitos seja defeito.

Foi só depois do jantar que dormi. E só fui acordar quando o avião já começava o processo de descida.

Acordei com uma das sensações mais incríveis do mundo. Aquela do sonho que permanece na carne e nos ossos, sabe? Sabe. E que sonho! Sonhei justamente com a despedida que não tive da minha amiga desaparecida (ou morta, falecida, desencarnada).

Foi tudo como nos filmes em que a fotografia muda nos momentos oníricos. Eu estava numa praça e ela aparecia como quem vem do nada e sua imagem parecia angelical pelo sol que estava forte atrás de sua cabeça. Tipo filme piegas. No sonho ela ainda não havia morrido (ou falecido ou...) e ela veio me dizer que estava satisfeita com tudo que havia vivido. Disse outras coisas com o olhar e me deu um adeus tão sereno que me encheu a vida de sol. O sol que provavelmente batia na minha pele enquanto eu dormia no vôo. O sol nosso de cada dia. E foi embora como que em câmera lenta em direção ao horizonte infindável. E mesmo quando eu já não a via continuei olhando o horizonte. Até que acordei com o sol forte no rosto. Percebi que a jogadora de vôlei parecia se incomodar com sol, então fechei a janelinha e rememorei o sonho que ao contrário da maioria, não me abandonou a lembrança. Nunca.

Pra ser sincero não vejo esse episódio de maneira mística. Meu insconsciente ciente do meu consciente me trouxe o alívio de que eu precisava. Simples assim. Mesmo porque, até se eu fosse religioso não acreditaria que ela viria se despedir justamente de mim, tendo tantos outros mais próximos pra visitar em noites tristes devidamente aliviadas com sua derradeira aparição. Mas a força do encontro de adeus significou muito, mesmo que more apenas em mim.

Já em terra firme eu andei por muito tempo pelo aeroporto Charles de Gaulle já que tal como a jogadora de vôlei eu também estava em conexão, só que pra Suíça onde faria apresentações em Zurique e Berna.

Curiosamente aqueles momentos foram dos mais inesquecíveis da viagem. O lugar de passagem com um fim em si. E por mais que eu saiba que tal sonho foi pura projeção, sempre que lembro dela me vem essa despedida no sonho, a despedida que não aconteceu de fato.

Esse adeus sereno fez que sua morte ganhasse pra mim justamente um caráter de passagem. Mais que isso, o fato de momentos de conexão num aeroporto tornarem-se tão marcantes me deixou mais curioso sobre o desconhecido que nos envolve em cada... passagem.

 

(Texto de Quinta - PASSAGEM - do livro Diários de Viagem)

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