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Ela disse...

March 11, 2017

Ela disse que gosta dessa moda de não gostar de Romero Brito; 
que prefere andar a cavalo que surfar;
que tem condromalácia patelar; 
que no chuveiro canta melhor que a Marisa Monte; 
que sua caipirinha tem que ser de Velho Barreiro;
que na TPM escreve poesia concreta; 
que está pintando as paredes do escritório com as sobras da tinta da pintura da casa da mãe Joana; 
que entender a segunda guerra mundial é a única forma de compreender tudo o que vivemos em geopolítica hoje (inclusive as ações terroristas); 
que este ano nasceu com cara de ano passado; 
que se um dia ficar senil é pra jogá-la do penhasco; 
que maconha lhe dá náuseas; 
que a Apple é do capeta; 
que gosta mais de ratos que baratas;
que acorda todo dia espirrando; 
que tem saudade do Tom Jobim mesmo sem tê-lo conhecido (nasceu no dia de sua morte); 
que precisa comprar uma mala nova pra viagem que pretende fazer ainda não sabe pra onde nem quando; 
que está com as unhas horríveis, não olhe pra minha mão; 
que o Johnny Depp está muito mainstream pro seu gosto; 
que tem fotofobia e que esqueceu os óculos escuros no carro, merda; 
que uma vez aplaudiu quando seu avião pousou porque por quase um segundo teve certeza quase absoluta de que ele cairia e que não fez metade das coisas que pretende fazer antes da queda de sua vida; 
que seu umbigo é pra fora; 
que gosta de pegar metrô pra ler e fica indo e voltando enquanto as pessoas vão saindo e entrando e quando se cansa desce na estação em que estiver pra tomar um suco; 
que truco é um jogo de jovens e buraco é um jogo de velhos; 
que tem preguiça das polaridades política e/ou futebolísticas; 
que não sabe o que será do mundo quando o Obama sair da presidência de lá;
que adora se lambuzar com o panetone de maracujá da Bela Paulista; 
que em São Paulo é São Paulo, no Rio é Fluminense, no Sul é Grêmio, em Minas é Galo, na Itália é Juventos, na Espanha é Sevilha, na Alemanha é Schalke 04, em Portugal é Sporting, mas que não gosta muito de futebol;
que o encontro dos rios em Manaus é de um desencontro comovente; que aos trinta será vegana; 
que quer falar espanhol com sotaque portenho e inglês com sotaque australiano; 
Que chorou com aquele vídeo do cachorro perseguindo o carro funerário com seu dono dentro do caixão e que em seguida riu com o vídeo do filhote de elefante tomando banho numa piscina de plástico;
que tem tido dores de cabeça constantes e que por isso talvez tenha que trocar o anticoncepcional; 
que aos quinze pensou em como aos quatorze era infantil, aos dezesseis pensou em como aos quinze era idiota, aos dezessete em como aos dezesseis era imbecil e aos dezoito em como aos dezessete era ingênua; 
que ao som de qualquer som tem vontade de dançar e que até o escândalo de sua máquina de lavar desregulada lhe faz arrastar o pé num quase forró ex-universitário; 
que ficou presa no elevador por horas aos sete anos e desde então andar de elevador lhe acelera o coração tanto quanto ver os moços bonitos fazendo cooper no parque; 
que cílios postiços só usa em festa a fantasia; 
que o regime do ano retrasado se perdeu ano passado; 
que açaí foi a melhor invenção de Deus depois dos pandas; 
que ninguém é de todo mundo e todo mundo é de ninguém; 
que pretende ter um labrador e cinco gatos persas;
que vai ao cinema todas as quartas há anos;
que sua avó que lhe ensinou aquela receita alucinante;
que casou com J.M. Coetzee embora ele ainda não saiba;
que teatro quando é ruim lhe dá dor de dentes, mas quando é bom o prazer é sexual;
que ficou entre marketing, jornalismo e relações internacionais;
que séries americanas são o ópio do povo que ela faz parte;
que jazz lhe dá tristeza boa;
que abre as janelas assim que sai da cama e mesmo ofuscada fica cinco minutos olhando a cara do dia;
que plástico bolha foi a melhor invenção do homem depois da guitarra elétrica; 
que Paris é e sempre será uma festa; 
que as nuvens que passam rápido no céu sempre lhe trazem preocupação; 
que gosta de combinar amor com ardor; 
que biquíni combinando é coisa anos 90; 
que um dia irá tocar violino, mesmo que mal; 
que vinho tem gosto de felicidade; 
que nunca repetiu de ano, mas que sempre ficava de recuperação em matemática, óbvio; 
que sua primeira vez no MoMa lhe fez chorar de alegria, mesmo sem lágrimas; 
que está sem sutiã; 
que coleciona sinais de trânsito e que eles sempre lhe são metáforas essenciais;
que precisa de barulho pra dormir, qualquer barulho;
que nunca conseguiu decorar a segunda metade do hino nacional depois de Brasil, de amor eterno seja símbolo;
que na praia gosta da voz do mar misturadas com as vozes dos vendedores de amendoim/picolé/salgado/canga/e tudo mais; 
que seu tio morava de frente pro mar até construírem um prédio na frente do prédio dele que passou a morar num prédio de frente pra um prédio de frente pro mar;
que não gosta muito de falar de si;

(Parte 1)...
#CurtoConto
#FicçõesNossasDeCadaDia

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