Posts Em Destaque

Ela disse...

Ela disse que gosta dessa moda de não gostar de Romero Brito; que prefere andar a cavalo que surfar; que tem condromalácia patelar; que no chuveiro canta melhor que a Marisa Monte; que sua caipirinha tem que ser de Velho Barreiro; que na TPM escreve poesia concreta; que está pintando as paredes do escritório com as sobras da tinta da pintura da casa da mãe Joana; que entender a segunda guerra mundial é a única forma de compreender tudo o que vivemos em geopolítica hoje (inclusive as ações terroristas); que este ano nasceu com cara de ano passado; que se um dia ficar senil é pra jogá-la do penhasco; que maconha lhe dá náuseas; que a Apple é do capeta; que gosta mais de ratos que baratas; que acorda todo dia espirrando; que tem saudade do Tom Jobim mesmo sem tê-lo conhecido (nasceu no dia de sua morte); que precisa comprar uma mala nova pra viagem que pretende fazer ainda não sabe pra onde nem quando; que está com as unhas horríveis, não olhe pra minha mão; que o Johnny Depp está muito mainstream pro seu gosto; que tem fotofobia e que esqueceu os óculos escuros no carro, merda; que uma vez aplaudiu quando seu avião pousou porque por quase um segundo teve certeza quase absoluta de que ele cairia e que não fez metade das coisas que pretende fazer antes da queda de sua vida; que seu umbigo é pra fora; que gosta de pegar metrô pra ler e fica indo e voltando enquanto as pessoas vão saindo e entrando e quando se cansa desce na estação em que estiver pra tomar um suco; que truco é um jogo de jovens e buraco é um jogo de velhos; que tem preguiça das polaridades política e/ou futebolísticas; que não sabe o que será do mundo quando o Obama sair da presidência de lá; que adora se lambuzar com o panetone de maracujá da Bela Paulista; que em São Paulo é São Paulo, no Rio é Fluminense, no Sul é Grêmio, em Minas é Galo, na Itália é Juventos, na Espanha é Sevilha, na Alemanha é Schalke 04, em Portugal é Sporting, mas que não gosta muito de futebol; que o encontro dos rios em Manaus é de um desencontro comovente; que aos trinta será vegana; que quer falar espanhol com sotaque portenho e inglês com sotaque australiano; Que chorou com aquele vídeo do cachorro perseguindo o carro funerário com seu dono dentro do caixão e que em seguida riu com o vídeo do filhote de elefante tomando banho numa piscina de plástico; que tem tido dores de cabeça constantes e que por isso talvez tenha que trocar o anticoncepcional; que aos quinze pensou em como aos quatorze era infantil, aos dezesseis pensou em como aos quinze era idiota, aos dezessete em como aos dezesseis era imbecil e aos dezoito em como aos dezessete era ingênua; que ao som de qualquer som tem vontade de dançar e que até o escândalo de sua máquina de lavar desregulada lhe faz arrastar o pé num quase forró ex-universitário; que ficou presa no elevador por horas aos sete anos e desde então andar de elevador lhe acelera o coração tanto quanto ver os moços bonitos fazendo cooper no parque; que cílios postiços só usa em festa a fantasia; que o regime do ano retrasado se perdeu ano passado; que açaí foi a melhor invenção de Deus depois dos pandas; que ninguém é de todo mundo e todo mundo é de ninguém; que pretende ter um labrador e cinco gatos persas; que vai ao cinema todas as quartas há anos; que sua avó que lhe ensinou aquela receita alucinante; que casou com J.M. Coetzee embora ele ainda não saiba; que teatro quando é ruim lhe dá dor de dentes, mas quando é bom o prazer é sexual; que ficou entre marketing, jornalismo e relações internacionais; que séries americanas são o ópio do povo que ela faz parte; que jazz lhe dá tristeza boa; que abre as janelas assim que sai da cama e mesmo ofuscada fica cinco minutos olhando a cara do dia; que plástico bolha foi a melhor invenção do homem depois da guitarra elétrica; que Paris é e sempre será uma festa; que as nuvens que passam rápido no céu sempre lhe trazem preocupação; que gosta de combinar amor com ardor; que biquíni combinando é coisa anos 90; que um dia irá tocar violino, mesmo que mal; que vinho tem gosto de felicidade; que nunca repetiu de ano, mas que sempre ficava de recuperação em matemática, óbvio; que sua primeira vez no MoMa lhe fez chorar de alegria, mesmo sem lágrimas; que está sem sutiã; que coleciona sinais de trânsito e que eles sempre lhe são metáforas essenciais; que precisa de barulho pra dormir, qualquer barulho; que nunca conseguiu decorar a segunda metade do hino nacional depois de Brasil, de amor eterno seja símbolo; que na praia gosta da voz do mar misturadas com as vozes dos vendedores de amendoim/picolé/salgado/canga/e tudo mais; que seu tio morava de frente pro mar até construírem um prédio na frente do prédio dele que passou a morar num prédio de frente pra um prédio de frente pro mar; que não gosta muito de falar de si;

(Parte 1)... #CurtoConto #FicçõesNossasDeCadaDia

Posts em breve
Fique ligado...
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Nenhum tag.
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Vinícius Piedade