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LIVRO NO LIXO

June 1, 2017

O cara pegou o meu livro na mão e disse que iria comprar pra jogar no lixo. Não iria ler, não iria dar de presente, não iria esquecer em lugar algum. Iria jogar na lata do lixo. Surpreendido eu perguntei porque ele iria jogá-lo no lixo sem nem mesmo ler. Porque se lesse e achasse um lixo, o lixo seria um bom destino. Mas sem ler, como ele poderia fazer isso? Ele respondeu que se comprasse, o livro seria dele e ele faria o que quisesse. E queria jogar no lixo. A partir do momento em que eu vendesse o livro pra ele isso não seria mais da minha conta. Perguntou o preço, tirou o dinheiro da carteira e me disse “quer me vender mesmo assim?”. O modo como ele me olhava me fazia sentir que eu falava com Mefistófeles. E na hora fiquei realmente na dúvida se venderia ou não o livro pra ele. 
Voltemos ao começo, o ano era 2003, ano em que eu havia lançado meu primeiro livro chamado TRABALHADORES DE DOMINGO, um livro de contos em que as profissões são o foco. Eu havia lançado incentivado por Denise Stoklos pra vender na porta do Centro Cultural São Paulo em nossa temporada do projeto Solos do Brasil. Logo me reuni com o Leo Ceolin que criou a capa e fez a diagramação. Peguei um empréstimo no banco e mandei rodar logo mil. O objetivo era aproveitar o público que frequentaria a temporada no teatro que seria de terça à domingo pra vender os livros. Mas na minha inexperiência na época acabei mandando rodar meio em cima da hora e os livros só ficaram prontos no final da temporada. Ou seja, eu tinha agora quase mil livros na sala da minha casa e uma boa (péssima) dívida com o banco. Precisava vender esses livros e sem a temporada no teatro seria impossível. Nas livrarias a saída era baixa de modo que inspirado também no escritor Parral Miguel Felix que saía (e continua saindo) vendendo seus livros pelo bairro da Vila Madalena em São Paulo, coloquei os livros debaixo do braço e fui desbravar as mesas de bar ou as praças (como a Benedito Calixto). No começo eu sempre ficava meio tímido, mas com o tempo me soltava e acabava vendendo muito bem. O mote do livro chamava a atenção dos possíveis leitores que buscavam contos sobre suas profissões. Fiz alguns amigos e muitas amigas vendendo livros pelas ruas. E é claro que eu passava por diversas situações das mais engraçadas as mais bizarras. Talvez eu deva fazer um livro só sobre isso. Mas o fato é que mais do que “mostrar o trabalho” eu passei a necessariamente pagar minhas contas através disso. Ou ao menos cobrir o rombo que tinha feito na minha vida com o empréstimo bancário com aquele juros assassino. A coisas do juros sobre juros é pra todo mundo um buraco sem fundo. Nesse sentido fui socorrido pela Graça Cremon e pela Tita Dias que na época conseguiram me tirar dessa areia movediça dos juros. Juro. (Desculpe, não resisti).
Na época eu tinha uma peça chamada CARTA DE UM PIRATA, meu primeiro solo (que eu havia criado justamente no Solos do Brasil), mas enquanto eu não conseguia marcar/vender apresentações, eram os livros meu modo de subsistência. Pois bem, era esse o contexto. As vendas me eram importantes. Foi nessa época que entendi que além do fazer artístico eu teria que me apurar cada vez mais na “venda do meu peixe”. Não bastava pescar (escrever os livros ou ensaiar as peças), eu teria que saber fazê-los chegar nas pessoas. E na ocasião não tinha melhor modo: bares sempre lotados eram pra mim potenciais leitores. 
Até que chegamos naquele fatídico dia. O cara sem nem mesmo folhear o livro me garantiu que compraria pra jogar no lixo. Um provocador? Um debochado? Um babaca? O que seria ele? E eu nesse contexto, o que seria? Um vendido? Um artista? Um vendedor? Um cínico? O que ele queria com aquilo? Por mais que outros tantos comprassem o livro “pra dar uma força pro artista” sem nem mesmo tocar no livro, esses outros não me diziam nada disso ao comprar. Compravam e ponto. Minha expectativa era que essas pessoas lessem o livro, mas o que me garantia isso? Ou seja, isso não poderia me incomodar ou ser uma questão pra mim. 
Vi recentemente que muitos desses livros hoje estão sendo vendidos no site Estante Virtual o que prova que um mesmo livro é lido por várias pessoas. Tomara. Aliás, como este livro já está fora do meu catálogo há muitos anos, interessados podem adquirir o livro dessa forma. Certamente terá dedicatória pra alguém, já que as pessoas sempre queriam com dedicatória. E sobre dedicatória não tive que conversar com o cara que iria jogá-lo no lixo. Se ele jogaria no lixo não precisava de dedicatória. Eu poderia ter pensado na época que no lixo ele seria muito melhor aproveitado do que com ele, já que existem pessoas que trabalham recolhendo lixo e quem sabe algum desses pegasse o livro? Mas no dia isso não me passou pela cabeça. A questão era se eu deveria ou não vender o livro pra ele. Esse era seu desafio. Você venderia? Pois bem. Eu vendi. Incomodado. Cheio de questões paradoxais na cabeça, mas com o dinheiro dele no meu bolso. 
Saí andando pela noite da cidade me questionando se agora eu era um Fausto ou apenas mais um trabalhador (como tantos) que se submetem a diversas situações pra garantir o pão de cada dia.

 

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