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Caderno de Notas/Bloco de Anotações-Texto de Quinta

July 6, 2017

Caderno de Notas/Bloco de Anotações

 

Num caderno de anotações as ideias são colocadas sem data. São ideias sem fim e fins sem começo. São histórias reais que ainda não aconteceram. São ideias de coisas que deveriam ser feitas. São ideias megalômanas. Mas também são ideias medíocres.

Nesse pequeno bloco de notas há tempo/espaço pra se falar detalhadamente do choro de um bebê que parece que nunca vai acabar. Mas também há espaço pra se tentar resolver questões irresolvíveis entre países do oriente médio.

É possível encontrar uma descrição detalhada de um pôr do sol qualquer com cara de único ou último, e também é possível encontrar cálculos matemáticos e físicos para desarmar uma bomba atômica qualquer de um país atômico qualquer.

Claro que se no meio de um texto sobre a luta das esquerdas latino-americanas ou sobre o crescimento do número de suicídios na Suécia, vier a imagem de um tipo de cortina nova para o quarto que está com a cortina rasgada, não se perderá tempo: a textura ou cor dessa ideia haverá de se meter nas questões históricas/religiosas/sociológicas/culturais. E constatar que a questão “cortina” poderá ser resolvida mais rápido do que as questões de primeira ordem, mais trará alívio do que desesperança, porque constatar a possibilidade concreta de resolver determinados problemas, mostrará como é possível acreditar nas coisas escritas no pequeno caderno de notas.

Num caderno de notas preenchido com canetas BIC de quatro cores (não a BIC quatro cores, mas quatro cores de BIC) é possível perceber as variações de humor do dono do caderno.

Percebe-se lá quando ele se acha e quando se perde. Quando pensa que é o tal e quando nem pensa em nada. Quando quer a revolução e quando deseja a calmaria de uma tarde de quase sol pra escrever sobre uma tarde qualquer de quase sol e calmaria. Percebe-se quando o tesão fala mais alto em suas descrições sobre curvas e líquidos e quando a decepção tá na cara. Percebe-se quando o tédio começa a cercá-lo e quando ele não tem tempo nem pra dizer que não tem tempo. Percebe-se como ele é culto e como ele só sabe que nada sabe. Percebe-se quando ele prefere o silêncio e quando ele está rouco. Percebe-se quando ele quer dar um ponto final e quando o parágrafo vem sem travessão. Percebe-se quando ele pensa em saltar da ponte e quando sua vida é eterna. Percebe-se quando suas dúvidas éticas lhe jogam na teia de aranha das contradições e quando uma cachoeira gelada lhe purifica a existência. Percebe-se quando suas dívidas lhe roubam a poesia com preocupações calculadas e quando um consumismo fútil lhe faz esbanjar sua poética. Percebe-se sua fé fajuta e seu niilismo da boca pra fora. Percebe-se quando ele está à base de remédios e quando os remédios são sem base. Percebe-se quando deleta frases feitas e quando completa equações des-feitas. Percebe-se seu fascínio com os tatu-bolas e seu cansaço que lhe joga na cama desinteressado em existir. Percebe-se suas migalhas poéticas e seus fragmentos moralistas. Percebe-se seu domínio do verbo e seu chute substantivo. Percebe-se seus vícios esquecidos e suas mágoas tatuadas. Percebe-se suas coleções de equívocos e seus triunfos passageiros. Percebe-se suas esperanças irônicas e suas expectativas melancólicas. Percebe-se suas certezas rarefeitas e seus conceitos hereditários. Percebe-se sua fome mal humorada e suas pupilas quando dilatadas. Percebe-se quando baba sangue de ódio e quando seu nariz escorre sangue alérgico. Percebe-se sua ironia cansada e sua sátira drogada. Percebe-se seu hábito de organizar velhas ideias e seu hálito de repetir ideias velhas. Percebe-se quando fala sério e quando ri antes de terminar a piada.

Percebe-se suas influências literárias, filosóficas, religiosas e futebolísticas.

Num caderno de notas com capa colorida, as páginas podem ser arrancadas e jogadas para o alto pra voarem com o vento (o que é certamente muito mais interessante do que usar o frio delete, apesar de sujar mais a cidade).

Num caderno que cabe no bolso, na bolsa e na palma da mão é possível fazer anotações críticas em peças de teatro ou filmes no cinema sem que se atrapalhe ninguém ou mesmo sem que ninguém perceba (o que com o bloco de notas do telefone celular é impossível).

Num pequeno bloco de anotações é possível dizer o que se pensa e ao reler anos depois, rir do que se pensava balançando a cabeça negativamente e proferindo em sussurro “como eu era idiota”.

Num pequeno caderno de anotações é possível exercitar sua poética pretensiosa sem a pretenção de exibí-la pra ninguém.

Num pequeno bloco de ideias é possível mostrar-se charmoso, mas também é possível ser antiquado.

Num pequeno caderno de anotações expressa-se o que é preciso ser expelido de si, mesmo que não sirva pra nada, ou mesmo, pelo contrário, que tal anotação vire um filme do Kubrick.

Num pequeno livro de anotações é preciso anotar alguma coisa vital vivida no dia, como num diário que será publicado depois da sua morte e que será lido pela sua neta num futuro bem distante. E quem sabe o que poderá ser interpretado daquilo que tinha clareza só para o cara com a BIC na mão?

Num caderno de anotações sem revisão, é possível entender por escrito aquelas ideias defendidas em conversas de bar em voz alta pelo dono do caderno.

Num caderno de anotações que mais parece revista de palavras cruzadas é necessário matar charadas sem poder encontrar as respostas de ponta cabeça.

Num caderno de notas útil pra momentos diversos, como espera em filas diversas ou em salas de espera de hospitais, aeroportos, dentistas, é necessário imprimir a relatividade do tempo e a afirmação de que a espera é pura ilusão de almas atormentadas por pequenas certezas fajutas sobre a existência da cronologia temporal.

Na chuva não é possível preencher páginas sem o risco de desmanche das folhas borradas do caderno de notas, mas é possível tentar apreender sensações que poderão ser desenhadas quando aquele toldo azul te proteger a carne e as folhas, para aí então tentar abarcar as sensações do molhar-se.

Num bloco de notas sem trilha sonora é necessário respirar fundo, bem fundo a cada frase preenchida com ou sem pressa, sem ou com medo.

É possível perder esse bloco/caderno de notas num ponto de ônibus no momento em que se preenche algo perecível e numa parada abrupta para uma bela espreguiçada você coloca o caderno do seu lado no banco do ponto e de repente aparece o ônibus antes que o corpo se alongue inteiro e num pulo você se levanta e estende a mão direita sem ainda alongá-la inteira e o ônibus pára e você entra e paga e senta e aí sim se alonga e cinco pontos depois vê uma mulher se alongando e resolve escrever no caderno de notas sobre a beleza do corpo feminino quando se alonga e antes mesmo de procurá-lo na mochila, em menos de um milésimo de segundo, vem na sua cabeça a imagem dele lá no banco do ponto de ônibus sendo xeretado por um cara magro com cara de desesperança, lá já no seu passado. O caderno/bloco de notas perdido. Pra sempre. Aqui seria um bom fim pra esse texto sobre o bloco de notas, mas continuo porque ainda há algum espaço neste bloco de anotações.

Num caderno de notas é possível escrever canções que nunca serão musicadas; peças que jamais serão encenadas; poesias que nunca serão declamadas. Mais que isso: é possível conceber projetos arquitetônicos que nunca sairão desse papel e desenhar quadrinhos que jamais terão o riso irônico de qualquer um. Mais que mais que isso: será possível escrever cartas suicidas para mortes não efetuadas e expressar preconceitos nunca assumidos. Também será plausível contar nesse caderno de notas segredos nunca segredados. Prever futuros preteridos e lembrar de passados virtuais.

Despertar a curiosidade de qualquer um que o vê escrever como quem tem algo a dizer será uma das funções mais entusiasmantes do caderno de notas.

Nota-se que qualquer semelhança com a sua história de vida será mera coincidência dessas notas sobre todos e sobre qualquer um de nós.

Descrever gostos como se as palavras abarcassem sabores. Inscrever sons como se as palavras traduzissem ruídos. Representar toques como se o tato fosse desenhável. Explicar cheiros como se os odores fossem manipuláveis. Poetizar imagens como se a visão fosse descritível.

Numa página em branco de um bloco de notas é possível explicar-se. Será possível perdoar-se. Lá, escondidas no meio do bloco de notas estarão inconfidências das quais ninguém jamais saberá.

Usar o bloco/caderno de notas como algo terapêutico; como algo romântico; como algo profético; como algo patético; como zona de conforto; como testemunho de si; como confissões sem pecado; como opiniões inflexíveis; como juramento; como planilha; como testamento; como rascunho pra algo que deverá ser escrito a sério num computador outro dia, noutra semana, noutro tempo.

Num caderno de notas as notas serão vermelhas até o último bimestre.

Num bloco de anotações com espiral, será necessário respirar fundo, bem fundo a cada palavra eternizada, mesmo se incompreensível.

E página por página, ao contrário da ilusão de infinito dos blocos de anotações virtuais, de repente, olha você aqui, na última página, no último momento da última página, última linha, tendo que colocar um ponto final pra que a coisa não acabe sem um ponto, não há o que fazer, não dá pra voltar atrás, o fim chegou, acabou o bloco de notas, fim do caderno de anotações, aceite, parta para outro bloco, esconda esse na última gaveta ou no fundo do armário, morreu, é o fim de um tempo, coloque esse ponto, acabe com tudo, terminou, chega, não há outra saída, fim, ponto.

 

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