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Moscou

October 26, 2017

Era como acordar em Moscou no meio de uma madrugada de quase frio e se perguntar se aquilo de fato estava acontecendo. E ao perceber que sim, aquele era você em Moscou, você se perguntasse “tá, mas e agora, o que eu faço? Fico no aeroporto madrugando a espera pelo próximo vôo ou me perco pelas ruas do que foi soviética união?”. Aquilo era apenas uma conexão. A questão era saber se o tempo nesse solo poderia ser citado na minha biografia. Ao olhar no relógio do celular as horas desse lugar e comparar com as horas do pulso (que marca as horas da minha origem), constatei que estava muito além do meu tempo e do meu espaço e justamente por isso a solução seria transfundir tudo aquilo que eu havia chamado de “eu” até agora.

Uma e meia da madrugada. Conexão. Pouco tempo. Seis horas de vácuo na vida. Buraco no tempo. Dormir? Ler? Morrer? Eu poderia ter optado por uma noite mal dormida em um pedaço de chão do aeroporto russo, mas e o desejo físico de sentir o vento gelado da Praça Vermelha?

A língua dos sinais não me abarca, nem os sinais em russo e muito menos o russo em carne e osso fingindo entender meu inglês com sotaque do sul da América. Algo me dizia pra desistir. Mas desistir é des-existir. E a velocidade do meu sangue nas minhas veias me arregalava os olhos. Era preciso o risco pra me aplacar.

Foi quando percebi na saída pós-carimbada que meu passaporte exigia saída. Sem a Praça Vermelha na sola dos meus pés aquela carimbada seria ficção.

Rodei pelo aeroporto como que em busca de vodca caçando alguém que entendesse meu destino. A russa com olhar de bielorrussa me disse com sotaque da Chechênia que a solução era pegar um táxi, já que naquela hora eu não poderia correr nas veias das linhas férreas moscovitas. O cara do setor de informações parecia desconfiar que eu trazia mensagens confidenciais e me orientou buscar socorro com algum cara devidamente credenciado com um colete da KGB. Foi quando apareceu um cigano que ao invés de ler minha mão leu meu olhar. Falando francês sem bufar, me disse que me levaria nos principais pontos de Moscou. Foi nesse momento que eu tive a certeza de que estava numa cena de um filme ucraniano.

Já percebendo que agora era tudo ou nada, sussurrei que o tudo era nada e o nada era o tudo. Caminhei ao seu lado sabendo que as ruas de Moscou virariam minha casa se ele me deixasse na mão. Lendo no meu olhar dúvidas ele sorriu pra fingir-se de confiável como só os gerentes de banco sabem fazer. Mas quando prestei mais atenção em seu sorriso, vi que o buraco era mais embaixo. Contei cinco dentes de ouro. E ele prolongou tal sorriso quando percebeu meu cálculo. Percebi que ele tremia um pouco e olhava em volta como que com medo de ser flagrado praticando mais um de seus sequestros. Tinha tudo pra ser uma cilada. E percebendo que eu antevia tal cilada, ele me fez parar e apontou para as câmeras do aeroporto me assegurando que elas eram a garantia de que nada me aconteceria. O Grande Irmão, como um Deus comunista, estaria nos observando. O histórico de nosso encontro estava assegurado. Claro que me vi nos noticiários de três dias depois no jornal Bom Dia Moscou com aquela imagem repetida diversas vezes: o jovem peruano (ou venezuelano ou brasileiro?) desaparecido parecia saber pra onde ia, tanto que olhou para as câmeras pra demonstrar segurança. E depois de um anúncio rápido de pá para neve, o equatoriano (ou argentino ou colombiano?) voltaria a ser destaque.

Quando cruzei com o cara do balcão de informações, ele fez aquele universal movimento de não com a cabeça, anunciando que o risco era iminente. Mas como o velho acelerou o passo, automaticamente o segui, como que se a ele eu estivesse algemado. Ele parecia saber que se eu titubeasse seria o suficiente para eu desistir. Tentando ser positivo eu pensava que nossa negociação de valores para o tal passeio era o grande motivo pra tal pressa, já que esse dinheiro pago em euro e convertido para o rublo lhe garantiria um novo dente de ouro.

Quando eu o vi tremer ao observar os policiais vindo em nossa direção, percebi em mim um masoquismo irreconhecível. Era evidente que eu devia mudar o rumo na primeira curva, mas eu continuava a seguí-lo como que buscando assunto para uma crônica aventureira. Chegando em seu carro que parecia ter sido comprado nos tempos em que São Petersburgo se chamava Leningrado, armei as desculpas mais esfarrapadas que me passaram pela cabeça. O ideal seria que ele mesmo desistisse da empreitada. Pensei em dizer que na verdade eu era da CIA e que estava lá a pedido do Trump para entregar um recado confidencial ao Putin. Também me veio a ideia de perguntar qual era o melhor lugar para que eu pudesse me explodir em nome de Alá e do Daesh. As ideias esdrúxulas se sucediam, mas quando fui ver já estava dentro do carro de Leningrado em alta velocidade.

A grande rodovia em direção à cidade me mostrou que o cara tentaria ser um bom guia ao invés de um bom serial killer. Ia me explicando tudo com seu francês que ele parecia não usar desde os tempos de Gorbachev. Me mostrou orgulhoso o canal construído nos tempos de Stálin e garantiu que milhares morreram ali em sua construção. Suspirou saudade dos bons tempos e abriu o porta luvas bruscamente. Meu coração acelerou na certeza de que era a hora de descobrir se há vida pós vida, mas o que vi lá dentro foi conhaque. Nem arma, nem vodca. Nada além de conhaque. Bebemos um gole na Praça Maiakovski enquanto eu ameaçava recitar um de seus refrões transformados em música do outro lado domundo. Já na Praça Gorki eu lamentei para o próprio transformado em estátua o fato de nunca ter decorado seus textos. Mas o tempo urgia e antes que eu pudesse pedir assinatura de liberação de direitos autorais, o homem dos dentes de ouro me pediu para correr porque a polícia estava por perto. Espelhei seu medo da polícia e passei a avisá-lo a cada viatura que se aproximava para me salvar. Claro que meu medo da polícia não era menor do que o medo que eu tinha do próprio. A cada rua estranha que ele entrava tossindo eu ameaçava me transformar em cristão ortodoxo para pedir uma salvação nas rezas locais.

O que para mim era frio, para ele era calor. E suas explicações ansiosas me faziam esquecer o que eu já sabia sobre a cidade. Foi só quando chegamos na Praça Vermelha que eu descobri que não poderia dar uma volta olímpica lá. De madrugada ela era isolada e cercada pela polícia, o que não nos daria mais do que cinco segundos frustrantes fora do carro. Já no carro rondamos todo o Kremlin como se a cidade estivesse sitiada e só sobrássemos nós. A história passava na minha frente, dos meus lados, nas minhas costas. Me invadia os poros friamente e eu fingindo ser parte de tal história. Naquela semana a revolução russa completava cem anos e isso fazia dessa rápida fuga do aeroporto algo imprescindível.

Entre suas explicações precárias e meus pensamentos difusos, as horas se passaram. Quando foquei o horizonte em busca de mais uma estátua heróica, vi que o dia ameaçava nascer. Era hora de eu pegar um novo vôo para me perder em outros mundos. E ao contrário do que eu esperava, ele me deixou no aeroporto inteiro, mesmo que de alguma forma modificado pela intensidade daqueles momentos tatuados no invisível das minhas pegadas.

(CRÔNICA DE QUINTA - PUBLICADA TODAS ÀS QUINTAS)

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