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Crônica de Quinta (Diário Pirata – Campinas. Escrito pós-apresentação de 4 ESTAÇÕES no SESC Campinas dia 27/01/17)

January 4, 2018

Chegar na cidade e ver um outdoor com uma imagem da peça foi curioso. Poderia ser um anúncio de refrigerante, de supermercado, de bolacha, de sabão em pó. Mas era a divulgação de uma peça de teatro. Posar para uma foto diante do próprio outdoor parece uma redundância, a foto da foto da foto. E compartilhar tal foto (da foto da foto) parece uma tentativa de dar relevância para algo que muitas vezes é tratado como irrelevante. Vez em quando tenho a impressão de que o teatro só é relevante para... os artistas de teatro! Sobretudo em São Paulo onde a cena teatral parece se “autoalimentar”. Os artistas assistem-se para serem vistos pelos artistas? Os debates em outros Planeta's e outros Piolins ou Lunas triagulando-nos em permutas de nós por nós (pra nós?). 
As coisas tem a relevância que damos a elas. Qualquer coisa. E quando o teatro vira trampolim para sorrisos globais, parecem afundar-nos em ambientes com fortes reverberações pré-midiáticas. Do contrário é a luta por um papel mais efetivo das artes em uma sociedade retrógrada. Mas será que um mero outdoor com sua cara expressiva numa cena descontextualizada te traz tal sensação de relevância? Ou é placebo? Veremos a noite se tal publicidade traz mais do que os seus pares que buscam arte ímpar para comparar com as suas. Para disputar o caneco do fim de ano? Para brindar na competição dos “mais melhores de bão” eleitos pelos amigos dos amigos para os amigos, um brinde, parabéns, você é o melhor, ou quase, sinta-se recompensado (se é isso que te resiginifica a existência torpe - ou sua arte vã).
Reencontrar personagens que já não povoavam meus pensamentos é ressuscitá-los em mim. E tal encontro tem um certo frescor. Re-sentir não é o caminho mais curto. Por isso prefiro a emoção genuína que essas palavras me convocam, mesmo que me engasgue, me perca, ou confunda um motoboy apaixonado com um fotógrafo fissurado, um romântico inveterado com um separado frustrado. Sou um fazendo quatro personagens sem uma proposta de construção mimética, ou seja, é preciso partir dos meus ossos para atingir a alma do que só existirá depois do terceiro sinal e que morrerá com as palmas que haverão de ser celebração por algo real, para além de glorificar o medíocre por padrões comportamentais estanques. E na minha frente, lado, cima, baixo, ela, a atriz com suas construções ritmicas e disritmicas em busca de um olhar para dentro para se convencer da verdade que há em cada ato que degusto, admiro e bebo com sede quando a cena me pede fome e com fome quando a cena me pede pressa e com pressa quando a cena me pede choro. Olhar essa atriz em cena estando em cena com ela é em si um encontro com o belo (e como a estética é também a ciência do belo, trata-se de uma experiência estética).
Campinas, cidade grande com cara de pequena, cidade perto da minha, mas com cara de longe, sempre foi porto para meu fazer artístico. Aliás, minha primeira temporada fora de São Paulo foi justamente em um teatro lá chamado Espaço Cultural Semente. Será que essa semente germinou ou como tantos espaços culturais virou algo mais relevante (cinismo meu nessa frase de de-efeito)? Era meu primeiro solo espandindo-se para outros solos e íamos todas as semanas por três semanas cravar nossa bandeira pirata. Era tentativa. Era persistência. Era busca de relevância? De lá pra cá, tudo o que fiz em teatro foi germinado no solo campinense que quando caio na estrada rumo ao lar eu digo olhando para o horizonte, vou lá, mas eu volto, não sei quando, mas eu volto. E volto. Sempre. Em busca do eterno retorno do encontro teatral que viabiliza o imponderável eterno, hoje e sempre. 
Em tempo: Questionar a relevância do teatro não é desaguar nas redundantes proclamações do seu fim. Mas pensar no espaço que essa arte tem (ou não tem) na mídia é (mal) necessário. Lembro-me de como fiquei surpreso no metrô de Paris vendo cartazes de teatro a cada curva. E a surpresa continuou em Berlin, Zurique e até no Rio de Janeiro (onde vejo divulgação de teatro até nos ônibus). Nesse sentido, caminhar no sentido contrário aos que crêem na busca de relevância através de competições medíocres me parece ser a primeira rota possível. Em busca da relevância perdida, hoje e sempre e agora sim, AMÉM.

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