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Texto de Quinta: Insípido, Inodoro e Incolor

January 18, 2018

Não fui vendedor de filtro de água porta a porta por muito tempo. E não fui um bom vendedor. Talvez por isso eu lembre com tanta clareza cada uma das minhas vendas. Foram cinco. Em dois meses. E eu gostaria de contar cada uma delas como quem conta uma QUASE grande façanha, tipo um troféu perdido nos minutos finais ou uma batalha vencida numa guerra sem sentido.

E uma dessas vendas, uma em especial me vêm a memória vez em quando. Talvez pela alegria daquele senhor ao dar um novo sentido para sua vida ao comprar o filtro.

Eu estava dentro da casa dele (tínhamos boas técnicas para sermos convidados a entrar – e esse era o primeiro passo para a venda) quando ele deu aquele grito de alegria ao ver o filtro instalado em sua cozinha.

Era um senhor por volta dos seus setenta e cinco anos cadeirante (ele não tinha as duas pernas). Sua filha não queria que ele comprasse de jeito nenhum. Mas ele ficou tão entusiasmado com os benefícios que o filtro traria para sua vida que travou uma intensa discussão com ela. Os argumentos dela eram todos pertinentes e racionais, enquanto os dele eram esperançosos e ingênuos. Usando o manual de vendas eu havia elencado os inúmeros benefícios que tal filtro de água poderia trazer. Ele acreditou em cada um deles, ao contrário de sua filha que via nas minhas palavras um certo charlatanismo. Talvez tenha identificado que até o nó da minha gravata era falso. Mas eu não mentia, apenas reproduzia o que havia aprendido nas aulas de vendas de filtro de água. Mas o entusiasmo dele perante minhas “boas novas” me surpreendeu. Alegando que usaria o dinheiro da aposentadoria, ele disse que queria o mais caro, de inox.

E foi quando o filtro já estava em sua parede, contrariando a filha que olhava para a minha cara num misto de raiva e pena, que ele gritou “essa água vai abençoar nossas vidas”. Mas ele disse isso com uma alegria e uma verdade que me emocionou profundamente. Eu percebi que o filtro traria novidade para sua rotina e era esse gosto do novo que ele comprava, para além da água pseudo-pura. A benção era a novidade que talvez durasse alguns dias.

Antes de partir eu pedi para beber um copo da água abençoada. O gosto insípido, inodoro e incolor que eu senti (ou não senti – como tem que ser), era resignificado por aquele grito que ele havia dado e que ecoava em mim.

O mesmo filtro que para a filha representava uma despesa desnecessária, para o pai era a renovação.

Hoje bebendo água ao acordar o grito voltou com força, como seu eu tivesse acabado de ouvir com a exata inflexão de voz que ele usou naquele dia perdido no meu passado infindável: “essa água vai abençoar nossa vida”.

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