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Sr. Eduardo (Texto de Quinta)

March 1, 2018

Sr. Eduardo, com seus oitenta e cinco anos tinha orgulho de sua trajetória de vida. E eu, um office-boy de dezesseis, parecia alguém merecedor dos seus sábios conselhos em quase todos os fins de tarde quando eu lhe levava café. Mas o curioso é que raramente ele dizia algo realmente digno de nota. Sua vontade de dar conselhos sábios era mais interessante do que os conselhos em si. Não me lembro de nenhum de seus conselhos. Mas lembro bem do seu ato de querer dar conselhos. Era como se pra mim a forma neste caso importasse mais do que o conteúdo.
Aquele era o escritório de uma das maiores fábricas de mantas e cobertores do estado. E Sr. Eduardo era a quase trinta anos o gerente de vendas. Em sua sala ele possuía o mapa do estado cobrindo uma parede inteira e ele, que havia sido um grande vendedor antes de assumir a gerência, tinha pequenos grampos em todas as cidades que já havia passado como vendedor. Eram muitos grampos de fato. 
Vez em quando ele me dizia com sorriso triunfante que havia sido dos melhores vendedores de mantas e cobertores do mundo. Claro que tal ranking ele mesmo havia elaborado e se coroado. E isso pra mim merecia mais consideração do que glórias concedidas por outros. 
A secretaria da empresa sabendo que eu ainda tinha serviços externos para fazer, se desesperava com o tempo que eu parecia perder ouvindo as palavras “sábias” do velho gerente. E eu sentado na cadeira de frente para a sua, não tinha pressa nenhuma de sair de lá. Talvez ele me preparasse pra ser um dia como ele. Talvez ele imaginasse que eu ambicionasse aquela cadeira que ele sentava. Talvez me imaginasse sonhando num futuro ter um office-boy com os olhos tão arregalados como os meus ouvindo lições plasmadas das suas. O café esfriava a sua frente enquanto ele respirava fundo olhando a janela formulando qual lição de vida fundamental ele iria me ensinar. E eu olhava pela mesma janela sem respirar tão fundo pra não espirrar com seu perfume da moda dos anos 60 que ele usava diariamente. E por mais que não ambicionasse assumir sua vaga setenta anos depois, eu gostava de vê-lo orgulhoso da própria trajetória. 
Cada um dos vendedores de lá mereceriam nota, crônicas, contos, mas era o velho Sr. Eduardo o ápice das peculiaridades de todos eles. 
Os boatos de que ele era apenas decorativo sempre me incomodavam. Por mais que ele não fosse mais tão capaz (ou vencedor) como noutros tempos, ele ainda estava lá pra contar as suas histórias. Eu percebia os risos de escracho que quase todos tinham quando ele virava as costas. Mas eu não participava de tal linchamento. Eu o via como um campeão olímpico do passado, que por mais que não pudesse mais quebrar recordes, tinha em seu peito penduradas as medalhas de glórias inesquecíveis. O mapa da sua sala marcava seus passos pelo estado. As mantas e cobertores que aqueciam tanta gente em todo o estado haviam sido dignamente vendidas pelo Sr. Eduardo por tempos infindáveis. Cada uma das vendas pra ele mereciam comemoração. Ele apontada para o mapa e dizia que em cada grampo ele havia conseguido uma vitória. Eu muitas vezes me levantava e enquanto ele falava frases sem nexo, o imaginava percorrendo aquelas estradas com seus objetivos claros de vender, vender e vender. Imaginava-o frustrado por vendas não realizadas e em êxtase por vendas bem sucedidas. 
Sua preocupação com a perpetuação das suas pseudo ideias pareciam tranquilizadas com minha atenção. Talvez por isso seu olhar de decepção quando eu comuniquei que não trabalharia mais lá por ter conseguido emprego como operador de telemarketing onde ganharia mais. Acho que ele se perguntava que fim eu daria pra cada um dos seus tantos conselhos. E por mais que eu tente me lembrar, nenhum me vem a memória. Mas sua gana em perpetuar sua prática como grande vendedor (o melhor do mundo) em minutos infindáveis diante da xícara de café me é inesquecível. Talvez eu tenha aprendido com ele a colocar grampos imaginários nas estradas em que percorro vendendo o lúdico que eu gostaria que aquecesse tanto quanto as mantas e cobertores que o Sr. Eduardo vendia com tanta paixão.

 

(Texto de Quinta - publicado todas às quintas-feiras no site viniciuspiedade . com . br)

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