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Crepe (Texto de Quinta)

April 12, 2018

Sempre que passávamos em frente daquela loja que vendia crepes, minha mãe dizia que achava um absurdo o preço. Jamais pagaria aquilo. Nunca entrávamos. Mas era no caminho da casa para a escola (e vice e versa) e não tínhamos como evitar aquele delicioso cheiro. Eu via as pessoas comendo na porta e sempre eu desejava abocanhar algum deles. Eu tinha uma curiosidade física pra sentir a sua consistência. Mas não podíamos. Era caro. Jamais. Impossível. De modo que comecei a atravessar a rua para não ter que passar na frente daquela creperia e sentir aquela agonia de querer e não poder. Os crepes passaram a representar algo proibido na minha vida, algo que estaria além do meu poder, da minha condição, da minha saliva. O fruto proibido. 
Aí mudamos de casa, o tempo passou, e eu cresci. Virei adolescente. Mas continuei acreditado serem os crepes algo que não era pra mim. Sempre que eu via alguém comendo eu desviava os olhos como que para evitar pecado capital. Fiquei condicionado a evitar crepes. Claro que sempre reprimindo uma vontade que chegava a me deixar trêmulo. 
Já adulto, o estigma continuou. Tudo na vida é possível... menos crepes. Essa era minha máxima.
Até que... Semana passada! Meu Deus. Passando por uma pracinha como que distraído dei de cara com uma barraca em que um cara vendia crepes. Foi inevitável. Não deu pra desviar os olhos. Nem para correr. De repente estava eu lá, diante da barraca e o cara, impiedoso, foi logo me perguntando se eu aceitava um crepe. O que eu poderia fazer? Meu Deus. Meu coração acelerou. E eu fiquei calado olhando-o assustado pensando em gritar socorro. Rezar uma Ave Maria. Me fingir de morto. Mas eu resistia heróicamente. Estava vencendo algo em mim. Superação. Com uma ousadia que nem sei de onde tirei, perguntei o preço. Claro que eu achava que ele falaria um valor cheio de zeros, distante do meu bolsos ou dos meus sonhos realizáveis. Mas sem titubear ele disse que custava sete reais. Meu Deus. Sete reais eu tenho, eu gritei. Berrei. Eu tenho sete reais! O cara se assustou. Mas não queria perder a venda e me perguntou o sabor. Queijo, gritei. E outro de chocolate, berrei. Ele pegou o dinheiro titubeante e se pôs a fazer os crepes sem saber da importância daquele momento na minha vida. Certamente achou estranhas minhas lágrimas escorrendo ao me entregar os crepes. 
Foi assim que semana passada realizei algo que parecia impossível, um sonho impraticável, um desejo irrealizável. 
Com um sorriso de êxtase, olhos arregalados, já homem feito, comi crepe pela primeira vez. 
Achei bom.

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