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Passaporte (Texto de Quinta)

April 19, 2018

Aquele cara queria certezas. Eu não tinha. Eu tinha vontades, achismos, caminhos, mas certezas eu não tinha nem para alugar, nem para vender, muito menos para dar.
Mas para entrar em seu país eu precisava passar por ele, essa era a condição, então eu tentava responder as suas perguntas da melhor forma possível. Mesmo que de maneira meio gaguejada. Quando ele me perguntou se eu falava inglês, na hora eu esqueci meu próprio idioma e nem para essa simples pergunta eu encontrei resposta objetiva. Como explicar a ele (e em qual língua?) que quando me sinto pressionado ou questionado ou testado, meu coração começa a acelerar alterando o modo de eu viver no mundo? Como explicar a ele que meus desejos assassinos ou suicidas não estavam nos meus planos para os próximos tempos (e entende-se como próximos tempos os três meses que meu visto - se ele carimbasse meu passaporte - me permitiria ficar lá)?
Com uma técnica apurada e aprendida em semanas de curso, ele conseguia fingir ler meus pensamento com o olhar. E eu tentava censurar pensamentos que pudessem me incriminar enquanto babava respostas tortas num inglês que parecia se esconder num fundo obscuro de mim. E quando as perguntas mais concretas que exigiam provas chegaram, do tipo, me mostre seu dinheiro, sua polegada, seu histórico escolar, seu holerite, suas unhas, o tamanho do seu pé, sua massa magra, seu cartão bancário, seu exame de sangue, é que eu pude arrancar da minha mochila fragmentos de mim mais verdadeiros sobre o que sou do que aquilo que eu propagandeava de mim. Ele olhou um por um sempre observando minha reação a cada documento conferido, como se uma dilatação das minhas pupilas pudessem provar que aqueles documentos eram de um fantasma. Dilatei-me com medo de ter entregado minha carteirinha de estudante falsificada junto com meu atestado também falso de pedigree, mas constatei que naquele momento o real e o falso eram facetas de uma moeda jogada para cima em busca de sorte ou azar.
Então ele me devolveu os documentos e não entendi se devolvida por eles não terem validade naquele país (como uma moeda estrangeira), ou se devolvia para que eu usasse o direito de ir e vir naquele território. Aí ele conferiu outras carimbadas no meu passaporte e parou em uma página sem carimbo, como se aquele invisível fosse o meu próximo destino. Pegou seu carimbo na mão e eu tentei lê-lo de ponta cabeça para encontrar um APROVADO ou um NEGADO. Mas ele angulou a mão de modo que eu não pudesse ver. Foi nesse momento que percebi que ele mascava um chiclete. Ele molhou o carimbo com tinta e me olhou pela última vez nos olhos. Foi com esse olhar mascado que ele demonstrou claramente saber que não deveria me deixar entrar. Parecia prever que essa minha cara apareceria na CNN e na BBC dos próximos dias como o responsável por algo terrível. Foi aí que ele sorriu. E tal sorriso disse tudo com uma clareza meteórica. Entendi que ele queria ser cúmplice dos meus atos terríveis. Ele não me deixaria entrar por confiar nas minhas mãos trêmulas ou nos meus papéis xerocados. Ele me deixaria entrar porque queria participar de algo grande. Por mais que ele fosse posteriormente punido pelo erro de me deixar entrar, sendo deslocado para o setor de almoxarifado da polícia alemã, ele queria fazer parte daquilo. Ele argumentaria que tinha desconfiado até da minha sombra, mas minha documentação autenticada na esquina de casa parecia a prova de que eu não era o que eu parecia ser. 
A intensidade da sua carimbada foi a mais forte já registrada naquele local de carimbadas infindáveis, tanto que seus companheiros de trabalho procuraram seu olhar pra ver se havia algo errado. Havia. Eu. Todo errado. Mas liberado. Liberado para cumprir aquilo que vim cumprir. Aquilo que até então eu não sabia por minhas constantes incertezas. A força daquela carimbada no meu passaporte acabara de desenhar o meu destino. O meu caminho. Como um batizado. Quando peguei o passaporte na mão eu já era outro cara. Um cara que saberia dizer o que queria da minha vida se qualquer um perguntasse. Quando ele me desejou um bom dia eu compreendi o código na hora. Era o dia de executar minha missão. Era exatamente para isso que ele havia liberado minha entrada no país. E eu senti obrigação de não decepcionar sua iniciativa. Eu acabara de encontrar um objetivo de vida, algo que sempre esperara. Ele me deu a certeza que me faltava.
Agora só me restava descobrir como realizar minha sina, meu objetivo e principalmente meu explosivo destino.

(Texto de Quinta - publicado todas às quintas-feiras)

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