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Texto de Quinta - Mesa de Frades

May 11, 2018

Texto de Quinta

Diário Pirata: Lisboa 07/05/2018. MESA DE FRADES.


Há um lugar em Lisboa chamado Mesa de Frades que é dos lugares mais incríveis que já estive. É um espaço pequeno com mesas e cadeiras apertadas e cercado por azulejos azuis. É um misto de bar e restaurante. E há lá fado. Mas é mais que isso.
Quando aqueles dois grandes portões de madeira se fecham, podemos nos sentir mergulhados na eternidade. O silêncio tem que ser absoluto. Mais que absoluto. As luzes se apagam e as velas iluminam os olhos brilhantes que sabem que vão vivenciar em segundos, momentos eternos. Lá, naquela semi-escuridão silenciosa, vemos nos azulejos o peso da história. Sentimo-nos inseridos em outros tempos, como se tal lugar fosse também um portal. 
E é quando as violas transfundem o silêncio que percebemos que nunca estivemos tão vivos como agora. A presentificação se eterniza quando a voz a capela ecoa os dramas que só os fados conseguem expressar. As histórias cantadas de olhos fechados invadem os poros dos que percebem os batimentos cardíacos anunciando que aqui dentro de você há vida. Quem não sente o poder daquilo já não tem vida nos ossos.
Localizado na Alfama, o bairro do fado, aquele espaço parece aos meus olhos (e ouvidos) a Meca do lugar. Nos restaurantes do entorno, o fado participa do ritual jantar turístico. Na Mesa de Frades, o fado é o centro do mundo. O resto é silêncio. Claro que é possível beber, é possível comer, mas as mastigações e tintins tem que se calar quando os portões se fecham para sequências eternas do melhor fado da Terra. E ao fim dessa sequência, as luzes se acendem, as portas se abrem e fingimos normalidade depois de acontecimento tão arrebatador. 
Para além de muitos portugueses que desprezam o fado por considerarem “coisa do passado” (como se o que há de moderno falasse inglês com sotaque de Los Angeles) ou dos turistas de todo o mundo que com seus comportamentos de boiada apenas seguem o fluxo (e olham o mundo a seu redor através das telas dos celulares), aquilo que acontece todas as noites das 21h às 2h de segunda à sábado (domingos fecham para as missas e os futebóis), é acontecimento imprescindível para quem quer o sal da vida. 
E convertendo esse diário de bordo num banal guia de turismo, peço para aqueles que em Lisboa pisarem, para dar-se de presente momentos daqueles que haverão de ficar em seus genes para gerações vindouras. É não menos disso que se trata. 
E se sou estou sendo dramático nesse texto é por estar ainda sob o eco daquilo que senti a cada nota gritada afinadamente. Drama pouco é bobagem É preciso ir no âmago da questão (e do existir).

 

(Texto de Quinta - publicado todas às quintas-feiras)

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