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MATÉRIA DE CONTO - Texto de Quinta

May 17, 2018

 

Esse encontro aconteceu no sonho da noite passada. Ela me olhava de um jeito... de um jeito indescritível. Era uma experiência incrível ter o seu olhar. Estávamos numa festa na beira da praia. E quando eu percebi o seu olhar eu já estava de saída. Não sei pra onde eu ia, mas eu tinha que ir. Com pressa. Mas ante de ir fui até ela e puxei assunto de maneira banal, do tipo “lindo o mar, né?”. Ela perguntou se eu gostaria de mergulha com ela. Eu disse que tinha que ir, mas que gostaria do contato dela. Ela me disse para adicioná-la na rede social para nos falarmos outra hora sobre outros possíveis mergulhos. Tentei adicioná-la, mas estávamos sem sinal de internet. Fiquei por uns segundos sem saber o que fazer, eu precisava ir, mas não queria perder aquele olhar pra sempre. Foi aí que vi que ela usava um crachá (não tinha percebido o crachá antes, deve ter sido uma solução encontrada pelo meu subconsciente que plasmou um crachá pra resolver a questão). Eu disse que iria fotografar o seu crachá para adicioná-la depois. Ela adorou a ideia. Quando peguei no crachá, vi que além do nome e da foto, tinha seu telefone (meu subconsciente não perde tempo). Fotografei e pensei em beijá-la para uma despedida digna. Mas escutei alguém gritando socorro e me distraí. Comecei a procurar de onde vinha o grito e acordei assustado. O grito de socorro continuava. Vinha da rua. Fui de coração acelerado até janela. Vi que era um bêbado sentado num banco. Ele gritava socorro, mas não parecia de fato precisar de ajuda. Reparei nos outros prédios outras pessoas com cara de susto também constatando isso e voltando para seus sonhos ou pesadelos. Voltei para cama irritado com o bêbado que me acordou bem na hora do beijo. Fechei os olhos desejando acordar diante dela para mergulharmos no mar. Eu diria que meu outro compromisso fora adiado. Mas as coisas não são simples assim. Dormi sem sonhos.

De manhã, depois do banho, peguei meu celular para responder mensagens da noite anterior e vi que uma amiga me pedia uma foto que havíamos feito em um bar. Quando entrei no álbum de fotos para procurar tal foto, vi que tinha uma foto diferente. Pensei ser uma dessas fotos que me enviam no whatsApp e que meu celular salvo automaticamente. Mas para minha imensa surpresa... era a foto do crachá da moça do sonho. Achei aquilo surreal, mas resolvi ligar para o número do crachá para tentar entender o que estava acontecendo. E para minha surpresa ela atendeu! E eu... fiquei sem saber o que falar e desliguei na cara. Fui ao banheiro, lavei o rosto e voltei a pegar o celular para investigar aquela foto. Joguei o nome do crachá na rede social e vi que era de fato alguém de verdade. Aquela mulher existia de fato. Pensei em adicionar e explicar através de um texto tudo que estava acontecendo, mas minha ansiedade me fez ligar e explicar em viva voz essa tão onírica história. Para meu espanto ela disse que estava esperando minha ligação. Disse que havia tido um sonho muito parecido com o meu. E que o cara que ela conhecera no sonho, prometera ligar pra ela. Seria eu esse cara? No sonho dela, não estávamos numa festa na beira da praia e sim numa fila infindável. Havíamos conversado muito nessa fila e quando íamos nos beijar, meu nome era chamado. Na pressa eu pegava seu número de telefone e prometia ligar no dia seguinte de manhã. Ela disse que gostou tanto de me conhecer naquele sonho que de fato esperava minha ligação, por mais estranha que parecesse essa situação. Respondi que sonho que se sonha junto é realidade.

Marcamos de nos encontrarmos meio dia e meia para almoçarmos. Marcamos no vão livre do MASP, na pedra.

Fazia tempo que eu não sentia tanta ansiedade para um encontro. Me senti um pouco adolescente. Liguei para um amigo para contar essa história e ele não acreditou. Achou que eu estava reunindo material para ficção, talvez um conto. Isso não era matéria de sonho e sim de conto. Fiquei irritado com a falta de credibilidade que a vida literária acaba nos trazendo. Resolvi que no meu encontro com ela, gravaríamos um vídeo contando como havíamos nos conhecido. Se em mim não acreditavam, talvez se ela contasse alguém acreditasse.

Pontualmente meia dia e meia eu já estava diante da pedra do MASP, local exato combinado para o encontro. Pensei em olhar a foto dela no crachá da foto celular, mas eu me lembrava muito bem de como ela era. Cada curva do seu corpo era para mim evidente, como se eu eu já a conhecesse há muito tempo. Quando chegava alguma mulher por perto eu não ficava na dúvida pensando, será que é ela?, tão comum num encontro as cegas. Nesse caso, eu não tinha dúvidas. Eu desejava seu olhar vorazmente.

Quando eu vi no relógio da Paulista marcando uma da tarde, constatei que ela não era muito pontual. Pensei também na possibilidade dela ter desistido de tão maluco encontro. Pensei em ligar para saber por onde andava, mas resolvi esperar mais um pouco. Vi que não tinha trânsito, então fui dar uma volta pelo vão livre para ver se ela não me esperava no lugar errado. Quando voltei para a pedra do MASP já haviam passado mais quinze minutos. Resolvi ligar. Fui na lista das ligações recentes do celular para pegar seu número e... não localizei. As últimas ligações haviam sido para meus amigos, mas o telefone dela deveria estar como a primeira ligação do dia. Não estava. Decidi pegar seu número no crachá que estava salvo no álbum do meu telefone. Mas a tal foto não estava mais lá! Revirei todos os álbuns, inclusive na lixeira e nada daquela foto. Como eu lembrava do nome dela, entrei nas redes sociais e joguei lá para ver se ainda a encontrava. Encontrei outras pessoas com o mesmo nome, mas ela não. Assustado com aquilo tudo, resolvi esperar mais meia hora sua aparição repentina. Eu me sentia confuso e desiludido.

Quando percebi que aquilo era na verdade matéria de um pesadelo real, desci até o bar Mirante Nove de Julho para tomar alguma coisa e tentar entender o que estava acontecendo. Ou para tentar esquecer de vez tamanho desencontro. Foi aí que meu amigo me ligou para saber como foi o encontro. Fiquei com vergonha de dizer que ela não havia aparecido e pior, desaparecido do meu celular e da minha vida. Resolvi dizer que ele tinha razão. Aquilo era só ideia para um conto. Ele deu risada dizendo que já sabia e desligou. E eu, sem ter mais o que fazer, tirei o computador da mochila e comecei a escrever esse conto, fingindo que tudo não passou de mera ficção, matéria para um conto, mas torcendo para que alguém acredite que a coisa aconteceu exatamente como eu descrevi, que isso não era para ser um conto, e sim um relato real de um daqueles encontros inexplicáveis que todos vivemos em nossas vidas.

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