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Texto de Quinta "Museu Rodin"

June 1, 2018

Um meio termo entre o seu alemão e o meu espanhol com assento peruano. Era disso que precisávamos. Você de Munique e eu de Lima. O inglês foi nosso meio termo, você com seu sotaque fechado e eu com o meu aberto. Negociamos assim um passeio na Place des Vosges pós pôr do sol. 
O cenário para essa nossa primeira conversa foi o mais emblemático possível. Estávamos de frente para a Porta do Inferno no Museu Rodin. Fiz algum comentário intencionalmente banal arriscando o francês e percebendo que não havia entendido, falei em inglês sobre a emoção que eu sentia ali. E antes de você abrir a boca para falar qualquer coisa, eu já sabia algumas coisas sobre você. Sabia da sua paixão por Camile Claudel, sabia que estava sozinha no museu, sabia da sua raiva de Rodin (obviamente por seguir aquela leitura rasa de que ela enlouquecera por culpa dele – como se fosse possível a alguém gerar loucura em alguém), e sabia da sua falta de pressa. Eu havia te seguido desde de que te vira aos prantos diante das obras de Claudel naquela sala do museu reservada para suas esculturas. De lá em diante, não saí da sua cola. Por todas as salas, bustos, esculturas, pinturas ou fotos, estava eu olhando o que você olhava, mas tentando ser o mais invisível possível, quase me transformando numa das formas do Rodin. Eu sabia que teria o momento certo para te abordar, e claro que julguei ser a Porta do Inferno, quase na saída do museu, local ideal pra isso. 
Olhando seu jeito de ficar parada, seu modo de se movimentar, seu jeito de olhar, concluí que o próprio Rodin ficaria entusiasmado em te plasmar pra eternidade se te conhecesse. E Claudel ficaria mais louca ainda diante do ciúmes que você certamente geraria nela (segundo seu conceito da responsabilidade dele sobre a loucura dela). 
Ao ver seu rosto molhado diante das obras de Claudel, percebi que minha visita naquele museu tinha mudado de foco. Era você quem eu visitava. Era em você que eu passeava. Era você que eu apreciava. Abri mão de ver o museu com meus olhos para ver com os seus. Eu contabilizava o tempo que levava em cada obra e tentava entender porque para aquela escultura dedicava dez segundos enquanto para aquela outra dez minutos. 
Era como andar com um headfone com sua voz me explicando cada obra. Interpretar o que o artista queria dizer não era mais importante do que entender o que você tentava entender. E ao perceber que seus parâmetros não eram a fama da obra, já que em obras emblemáticas te vi passar batido (como no O Pensador principal do jardim que você passou, olhou e não parou), fiquei ainda mais instigado em entender sua lógica (e é evidente que gostei muito do fato de que não era a lógica óbvia). 
Em nossa conversa diante do Inferno, chutei que estava de férias e acertei em partes, você estava a trabalho, porém, em dia de folga. Você também se interessou em saber um pouco sobre mim e esse foi o mote para sugerir um encontro para quando a noite chegasse. 
Quando te vi chegar na Places des Vosges, parecia que vinha em câmera lenta. Tentei não demostrar no olhar minha ansiedade em te morder a nuca, tentei parecer normal, e talvez tenha conseguido te fazer acreditar que nossa rápida conversa foi mesmo por um acaso (um acaso diante da Porta do Inferno?!). E para criar uma empatia canalha, sabendo da sua paixão por Claudel e desprezo por Rodin, comentei te fazendo gargalhar, que nos conhecemos na porta do lugar onde Rodin mora hoje. Mas a verdade é que quando resolveu me dar atenção, era você quem atravessava tal portal. Mas eu tinha que ter calma, claro. E para que tal calma não se perdesse, te chamei pra visitar a casa em que Victor Hugo havia morado naquela praça. E foi diante do quarto dele que minha pele arrepiou a sua pela primeira vez. Claro que te possuir (e ser possuído) na cama que fora de Victor Hugo seria o ápice do nosso encontro, mas como explicar para o segurança que Victor Hugo aprovaria tal ato inspirando-se para um fragmento literário qualquer? 
Ouvindo seu inglês que parecia tentar amenizar o sotaque bavario, você foi honesta ao dizer que nada sabia do Perú, apesar de ter curiosidade em saber mais sobre os Incas. Achei este um fio de meada interessante e aprofundei tudo de mais fantástico que você não sabia sobre este povo dizimado a tanto tempo. 
Já na rua enquanto nos perdíamos pelas curvas do Le Marais percebi que necessitava de uma cerveja da sua terra num daqueles bares cheios de pessoas que gargalhavam com o olhar. 
Você gargalhou com a boca aberta quando afirmei que estávamos fazendo mais pela relação bi-lateral Perú-Alemanha do que toda diplomacia fora capaz. Com meu poder de síntese peculiar, te falei sobre a Latino-América e seus paradoxos. E sobre o Perú, percorri anos de história entre um brinde e outro. E como suas perguntas eram perspicazes, fui percebendo que eu deveria ir além do wikipedia pra saciar sua fome. 
Quando se pôs a falar do seu país, percebi um certo tom de culpa típica dos que viveram do lado de lá do muro. Anos de terapia não te bastaram. 
Depois de trocarmos visões parecidas sobre a perdição da contemporaneidade, resolvemos andar mais um pouco para vermos o reflexo da lua dentro do Sena. Paramos no caminho para comprar o vinho sem medo da obviedade do ato, nem tão pouco das consequências. 
E foi lá, na beira do rio que estabelecemos o ponto máximo até aquele momento da diplomacia intercontinental misturando nossas línguas de maneira voraz convertemos o peruano, o alemão e nossa intersecção inglesa em uma coisa só.

(Texto de Quinta - "Museu Rodin")

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