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Texto de Quinta: Diário de Bordo - Rússia

July 5, 2018

DIÁRIO DE BORDO DE UM PIRATA: Orel + Moscou – Junho 2018.

 

 

Pra começo de conversa...

 

Chegar na Rússia é olhar o mundo em perspectiva. A história está em todos os lugares. E mesmo antes do avião aterrar em Moscou, já me veio em flashback muito dos acontecimentos mais relevantes de que tenho notícia do país, como se eu tivesse vivido tais acontecimentos e estivesse apenas relembrando. Do Czarismo a primeira guerra. Da revolução a segunda guerra. Do slalinismo a Gorbachev. Do Putin a Copa. E é justamente em meio a esse último acontecimento em que aporto no país. Época de Copa do Mundo. Quando os olhos do mundo estão voltados para o país. Mais que isso: chego lá quando o país voltou a ter relevância internacional nas questões mais diversas e controversas possíveis. E a recuperação econômica se deu na mesma altura em que o ocidente voltou a pregar sanções com motivações escusas (a anexação da Crimeia foi a razão declarada, mas não me convenceu, já que boa parte das ações dos EUAs em relação a países do oriente médio também seriam dignas de sanções, mas nunca se cogitou isso).

A controversa relação do ocidente com a Rússia, liderado, naturalmente, pelos EUAs num simulacro raso do que foi a Guerra Fria, parece uma tentativa de não permitir novamente uma polaridade nas importantes decisões da política internacional, mesmo porque com a força da China atual, a liderança americana está de fato por um fio (ainda mais em tempos de Trump). A proximidade do líder russo com o líder sírio é mais um elemento central entre tantos da relação Rússia X EUA (na Síria os EUA apoiam os rebeldes). E pós-primavera árabe (que para a maioria dos países virou inverno), o oriente médio continua sendo o centro das questões mais tênues do mundo. E a Rússia que durante alguns anos se manteve a parte, volta com potência total as discussões e decisões.

Não aportei na Rússia em tempos de União Soviética como minha curiosidade histórica gostaria, mas aportei numa Rússia que demorou menos do que o esperada para se adaptar ao capitalismo e o vive de sua maneira sempre tão particular.

E estar lá com meu trabalho potencializou e muito a emoção: me dizer em pensamento no aeroporto de Frankfurt na conexão rumo à Moscou “estou indo me apresentar na Rússia” me levou as lágrimas. Aportar com meu trabalho na terra de muitos dos maiores artistas que o mundo já produziu, da literatura, do teatro, da música clássica, enfim, era muito significativo.

 

O JOGO TEATRAL

Primeiro: Orel

 

Minha primeira apresentação foi em Orel. Festival de Teatro. Evento cheio de pompa que aconteceu em três teatros da cidade, o maior que é uma espécie de teatro municipal e dois menores. Minha apresentação foi numa sala anexa ao teatro grande. E com legenda em russo.

Quando vi que o formato do teatro era arena, percebi que o desafio seria maior do que o esperado. Com a legenda ao fundo o público teria que virar a cabeça pra ler a legenda, ao contrário do que acontece no formato italiano que basta olhar um pouco acima. É uma diferença brutal. Respirei bem fundo para não desesperar.

Fazer a peça com legenda em russo representou um outro bom desafio que eu só havia provado quando fiz a peça na Alemanha com legenda em alemão: não entender a legenda em rápidas olhadas para saber se há sincronia, representa não ter a mínima ideia se devo acelerar ou desacelerar minha fala. Com as legendas em inglês sempre é possível entender o que fazer. Mas eu já havia pensado muito sobre isso e decidido ligar o famoso FODA-SE. Faria a peça numa velocidade mais lenta que o normal, mas buscando não perder as nuances rítmicas que acredito que seja o essencial do meu trabalho.

Como fui literalmente solo, trabalharia com a equipe técnica do teatro e ambos só falavam russo. Tive o auxílio de um tradutor que falava inglês e mais tarde de duas moças (ótimas) que falavam espanhol e que seriam responsáveis em projetar a legenda buscando também essa sincronia entre minha fala e o texto. Minha dúvida era se elas entenderiam com seus conhecimentos de espanhol, o português cheio de gírias do personagem Ovo.

Foi curioso estabelecer novas deixas de corpo tanto para a técnica de som como para o técnico de luz. Buscar a precisão dos movimentos e mesmo da sonoridade das palavras para os momentos de suas entradas era o mais importante. Para minha sorte o fuso horário ainda não batia com força então eu estava cheio de disposição para ensaiar com eles a tarde toda para a apresentação daquela noite.

Me adaptei rápido também a um figurino novo parecido com o original, já que minha mala extraviada não tinha previsão de chegada (e isso trouxe um elemento a mais no desafio da minha experiência russa) – a mala só chegou cinco dias depois, já em Moscou!

Então, vamos ao jogo!

Arena lotada e jogo com cara de final de campeonato. Comecei nervoso e um pouco desconcertado com os constantes movimentos do público para ler a legenda, mas logo fui entrando no furacão que é fazer essa obra. A sensação orgânica que tenho com ela hoje me traz a sensação de que é ela quem me conduz. Furacônica. Com o tempo percebi parte do público desencanando da legenda e focando as percepções na música dessa peça mastigada em português.

E as reações foram de uma intensidade emocionante. Durante toda a semana em que fiquei na cidade encontrei pessoas que viram a obra e as reverberações iam muito além do “gostei”. Isso pra mim é fundamental. Para além de “assistir” proponho com minhas peças que elas sejam uma vivência. E no caso, vivenciar o paradoxo da liberdade através do encarcerado.

No trem de Orel rumo à Moscou rememorei com sorriso escancarado a semana intensa recém vivida. Vi peças de artistas de diversos países como da própria Rússia, da Polônia, da Sérvia, da Croácia, além de conhecer um pouco do ritmo e das pessoas da cidade.

 

Segundo: Moscou

 

Um ano antes eu havia estado em Moscou em uma conexão de aeroporto rumo a Armênia onde participaria de um Festival de Teatro em Erevan e aproveitei a longa madrugada pra ir até a Praça Vermelha (numa aventura quase surreal). Não imaginava que tão rapidamente estaria novamente por lá, dessa vez sem pressa, podendo realmente desbravar e até desmistificar a cidade. Dito e feito.

O desafio em Moscou seria no belíssimo e imenso Teatro Moderno de Moscou. Que êxtase chegar nesse prédio histórico do teatro e dizer, eis minha casa na cidade. Mas tal como em Orel, eu não teria muito tempo para ensaiar com a equipe técnica que seria outra, já que minha apresentação já seria no dia seguinte. O tempo para degustar a cidade seria posterior a apresentação. Para minha sorte, o ator polonês Krzysztof Rogacewicz que também havia apresentado em Orel, apresentaria seu solo nesse mesmo dia, o que me daria uma dimensão do teatro e do público.

Quando meu dia chegou, logo de cara percebi que os trabalhos com a equipe técnica seriam muito mais complicados que em Orel. E para não me estressar entrei no ritmo pilhado do personagem da peça. A situação era de contagem regressiva, tal como na peça. Quando chegou o brasileiro que iria cuidar da projeção da minha legenda (um jovem maestro estudando regência por lá), a situação se tranquilizou. E veio o aviso que todos os ingressos estavam esgotados me gerando um misto de ansiedade e alegria.

E o jogo transcorreu da melhor maneira possível diante das adversidades que encontrei com tantos erros do técnico de som (e posso dizer que em meus vinte anos de carreira, justamente nessa que foi das apresentações mais importantes da minha vida, nunca um técnico errou tanto). Quanto a luz foi 100% e a legenda pelo que pude sentir, estivemos quase sempre sincronizados (quase!).

Ao final, aquela sensação de missão cumprida. Aquela sensação de que poderia contar para meus netos (se um dia tiver) que “me apresentei no Teatro Moderno de Moscou”.

O público era quase 100% russo. Quase porque haviam representantes da Embaixada do Brasil. Acho muito importante quando percebo que os representantes da Embaixada levam a sério o poder de diplomacia que existe na arte, no teatro. Uma Embaixada, penso eu, não deve servir apenas para dar uma ajuda para os viajantes quando perdem o passaporte (ou outras funções burocráticas). Deve também fomentar o acesso dos estrangeiros aos bens culturais brasileiros. Como tão bem fazem algumas representações culturais de alguns países (Instituto Cervantes da Espanha, Instituto Camões de Portugal, Instituto Goethe da Alemanha). Então, animado em perceber essa troca com a Embaixada do Brasil na Rússia, que inclusive ajudou a divulgar a apresentação. Haviam também alguns russos que estudam português que ficaram para comprar meus livros ao final. E durante a semana, tive acesso a algumas críticas interessantes que puder ler com a devida ajuda do Google. O que dizer mais? Obrigado: Благодарю вас!

 

Tópicos a abordar num texto sobre minhas percepções/sensações Rússia (ou fragmentos pseudo-poéticos para uma música que nunca vou escrever porque infelizmente não tenho o menor talento musical):

 

Todos os que pisam em Moscou e buscam resquícios do que foi a União Soviética se frustram. Eu já tinha experimentado tal sensação ao buscar em Berlim o que foi o lado de lá do muro onde ficava a Alemanha Oriental. O máximo que consegui foi comprar souvenires a respeito disso. O capitalismo não deixa brechas.

Em pouco tempo na Rússia já deu para entender como o país soube jogar esse jogo. Como as potências européias, o país conseguiu unir o tradicionalismo ao que há de mais contemporâneo. E apesar da longevidade do Putin, eu não vejo indícios de que o país não seja democrático. Conversei muito com as pessoas sobre ele e pude perceber que há os que gostam e os que não gostam. Mas não é colocado em dúvidas sua legitimidade no poder. É claro que percebe-se uma vocação no país para líderes longevos. Talvez seja cultural. Talvez seja questionável. Mas a partir de qual parâmetro? Do americano? Cada vez fica mais claro pra mim a importância de conhecermos os lugares de perto para podermos emitir opiniões mais apropriadas.

 

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Vivenciei um pouco das noites brancas poetizadas por Dostoiésvski. Anoitecia às 22h e amanhecia às 3h. Poucas horas de plena escuridão. Queria ter escrito in loco minhas sensações sobre isso, mas o cansaço me pedia roncos.

 

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Se eu for um dia escrever a parte dois sobre o livro ESSAS MOÇAS QUE ME CAUSAM VERTIGENS, as russas haverão de ter um capítulo especial.

 

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Bonecas russas são o melhor presente possível.

 

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Outro elemento para vivenciar um dia: o frio de menos 40 graus no inverno. Será que vou encarar?

 

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O fato de pouca gente falar inglês, me trouxe aprimoramento para meu trabalho mímico.

 

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Ideias se misturam na minha cabeça como conversas cheias de riso em russo no metrô cheio.

 

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Pra terminar um rascunho do meu primeiro dia lá: Viagem longa, mas produtiva. De São Paulo para Fortaleza para Frankfurt para Moscou. Consegui ler, ver filme, série, escrever. Dormir. Almoçar, jantar. Interagir. Com a continuidade das viagens, é preciso aprender fazer o caminho ser um fim (ou com um fim). A vida não começa ao chegar. A vida é. Está. Amém.

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