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Brazucas

July 13, 2018

Fui embora da Rússia na véspera do jogo de estreia da Copa. Mas vivi um dia emblemático na antevéspera. Consegui sentir aquele clima festivo e embriagador comum a essa grande celebração dos povos que também é a Copa. Naquela noite, pós-fogos de artifício pelo Dia da Rússia na Praça Vermelha, as pessoas com as camisas de suas seleções se dividiram em grupos e cantavam a plenos pulmões por seus países. Eu, que não usava camisa de nenhuma seleção, percorria cada uma das rodas e pra sentir mais de perto o clima, fingia ser um deles, mesmo quando meus traços denunciavam minha fraude. Eu chegava a cantarolar melodias que nunca tinha ouvido pra convencê-los a não me expulsar e me aceitar como um dos seus. O entusiasmo dos peruanos que não participavam de Copas do Mundo há anos me comoveu. Com eles brindei gritando em portunhol, viva nossa pátria, viva Guerreiro. Também me fiz de costarriquenho e espelhei suas alegrias comoventes. Com os mexicanos ergui as mãos ao céu cantando o famoso “ai ai ai tá chegando a hora”, mas logo me deram as costas percebendo que meu sotaque era do Uruguai, algum deles deve ter me visto na roda que eu acabara de abandonar. Fiquei admirado com os festejos dos iranianos, julgava que pela Sharia vivida no país, qualquer festejo seria punido, mas entendi que pelo futebol até Maomé viria festejar em nome de Alá. Cantei que o Maradona foi melhor que o Pelé na roda dos argentinos e percebi que eles tinham (tínhamos) um repertório inteiro pra se divertirem as custas do imenso país vizinho e me senti em La Bombonera tal a força e agressividade dos ritmos. Pra descansar um pouco de tal visceralidade latino-americana, entrei na roda dos torcedores do Marrocos que pareciam já sentir o fuso-horário. Alguns russos começaram a se unir pra provar que também sabiam festejar, mas antes que aceitasse aquela vodca, prestei atenção na multidão fragmentada dos que vestiam verde e amarelo (e azul). Eram os brasileiros, que apesar de estar em grande número, eram os únicos que não formavam rodas festivas. Logo esses brasileiros, famosos por serem tão festivos. Pensei em gritar com sotaque russo “cadê o carnaval, brazucas?”. Mas percebi que era um barril de pólvora. Era como se fosse perigoso se juntarem para chorar o melancólico “sou brasileiro, com muito orgulho...”. Pior: era como se entre um cântico e outro, aquele que ameaçasse gritar “Lula Livre” ou “Fora Temer”, pudesse entrar em confronto com aquele que tinha na ponta da língua o sonho de um falso Mito (redundância?) que abarcasse todo seu fascismo ou pelos que acreditavam que a CBF legitimava seus gritos de progresso e ordem. Era como se a dialética facebookiniana ainda falasse mais forte que o patriotismo canalha e emburrecedor narrado por Galvão qualquer. Havia um modo de separar futebol e política? Seria possível todos sermos uno? E o paradoxo ambulante que eram todos eles, eu inclusive, que naquela altura parei de me re-nacionalizar (ou des-naturalizar), parecia não nos permitir a brincar de acreditar que o futebol poderia nos unir. E isso, pra mim, não parecia ser necessariamente ruim. Era um momento particular e só com o tempo poderíamos entender onde isso iria dar. Quando pensei isso, vi os croatas com suas camisas quadriculadas passando o mais longe possível dos sérvios e antes que eu começasse a fazer comparações descabidas, resolvi entornar a vodca, mas ao invés da polka com os russos, voltei para a festa dos peruanos para lembrá-los dos bons tempos que o jogador deles Guerreiro foi campeão mundial pelo Corinthians.

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