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Tinder

November 21, 2019

Ela me disse que na foto meus olhos eram um pouco mais claros. E que eu parecia um pouco mais forte.Também parecia um pouco mais alto. E minha voz parecia um pouco mais rouca. Na foto.
Meu jeito parecia um pouco mais sensual. E que na risada eu não exibia tanto assim as gengivas. Minha covinha parecia mais com aquela do cara do cinema. E minhas entradas pareciam mais estilosas, quase uma opção, para além de uma carequice precoce.
Disse que nas minhas descrições eu não dizia de onde era, mas que pela foto eu parecia ser de um lugar mais próspero.
Disse também que meu modo de me vestir parecia um pouco mais esporte fino. E minha personalidade um pouco menos pós-moderna.
Disse que agora não conseguia ver meus bíceps e outros detalhes meus escondido pelas roupas, mas que ao menos naquela foto eu prometia não decepcioná-la.
Disse que na foto minha barba estava um pouco menos cerrada, o suficiente pra não irritar sua pele sensível se beijá-la eu fosse. E que ao menos na foto meu perfume parecia ser mais Armani e menos Kenzo.
Sincera, disse que algo no meu jeito de conversar com ela no aplicativo de encontros, prometeu-lhe que eu era mais engraçado. E jurava que meus silêncios fossem menos constrangedores.
No aplicativo não falamos de política e talvez por isso ela julgou que minha posição política fosse um pouco menos politizada. Mas não falemos de política. Falemos de religião, ela disse. Pela foto eu parecia ser assim, cheio de uma fé parecida com a dela, crendo num Deus bom barba branca. E quando para sair da fé, fomos para a bola, ela disse que jurava que meu time fosse o mesmo de seu pai, talvez pelas cores que eu usava na camisa da foto.
Talvez pelo sorriso vitorioso da foto, minha profissão lhe pareceu mais remunerável.
Aquela foto também lhe prometeu momentos de companheirismo, mesmo sem eu prometer nada em nossos curtos diálogos. Mas para ela estava implícito que o inverno ao meu lado nossas peles cheirariam lareira.
Pela foto também lhe ficou claro que eu gostava dos mesmos gêneros de filmes que ela, algo leve e engraçado, mas com uma lição de vida no final. Pela foto ela viu que estabeleceríamos uma rotina de ir ao cinema nos domingos de chuva.
Pra ser sincera, ela disse, na foto eu não tinha essa ruga entre a bochecha e o bigode. Nem essa papada quando olho para baixo. Olha para baixo, ela disse, e quando olhei, ela beliscou a gordurinha que me sobra nessa região. Respondi que na foto eu não estava olhando para baixo e ela respondeu um “pois” desiludida.
Segundo a minha foto, eu lhe convidaria para passar o Réveillon em Madrid na casa do meu tio, e quando eu disse que nem tio eu tinha, ela disse que estava enjoada dos réveillons do Alentejo. Teve certeza, pela foto, que eu iria lhe livrar disso já na próxima virada de ano.
Algo no meu modo de olhar para a máquina fotográfica ou telefone celular que fez minha foto, lhe dizia que eu seria um bom pai para os filhos que teríamos. Um pai presente. Um pai participativo. Um pai exemplar. Um pai de três filhos seus. Lucas, Luana e Leandro.
Era evidente pela foto de que eu dançava bem, embora fosse um pouco tímido no começo. Mas quando eu me soltava, eu lhe faria rodopiar tanto que a rotação da terra contrária a seus giros lhe daria vertigens até quando na cama já estivesse deitada ao meu lado.
Investiríamos na bolsa de valores, mas sem arriscarmos tanto nosso futuro. E por falar em futuro, ela pegou a minha foto e jogou em um aplicativo que envelhece as pessoas e disse que sim, eu seria um velho simpático e que envelhecer com o velho da foto não seria mal.
Suas amigas que viram a foto deram boas notas pra mim e cada uma deu sua opinião sobre se ela devia ou não dar vazão ao que sentia pelo cara da foto. Michele disse que eu parecia cafajeste. Verônica disse que eu era família. Maria Clara disse que eu parecia triste por trás do sorriso. Fátima disse que eu parecia um gentleman. E Alessandra disse que não deu like quando viu essa mesma foto no aplicativo.
O tipo de música que lhe fazia soltar a voz era certamente o que mais gostava o cara da foto.
A foto lhe disse que como ela eu também gostava de shopping, praia, churrasco, marshmellow, X-man, sentar na beira do Tejo como se o amanhã fosse anteontem, massagem nas coxas, séries dramáticas e bolsas caras.
E a cada mensagem que minha foto passava pra ela, me passava pela cabeça que talvez eu devesse deletar essa foto da minha vida. Talvez a foto dizia mais do que minha vida pudesse confirmar. Talvez o cara da foto pudesse ser uma referência daquilo que eu não queria pra mim.
Era preciso que eu conversasse com o cara da foto o quanto antes para entender o que de mim eu poderia oferecer a ele.
Para finalizar, ela disse, pela foto eu parecia ser do tipo que em um primeiro encontro paga a conta. Quando a conta chegou eu pedi pra passar no crédito.

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