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Geografia das Ruas

December 8, 2019

Morro de medo de esquecer a geografia dos lugares por onde passei. Considero como tesouro as vivências que as caminhadas nos propiciam. E saber percorrer ruas de cidades diversas é um tipo de posse. Pra não perder esse saber, tal como poliglota que precisa exercitar as línguas de que domina pra que não se percam no buraco negro da memória, sempre antes de dormir eu escolho uma cidade pra relembrar caminhos, praças, parques, avenidas. Também faço questão de entrar em restaurantes e bares e degustar aquilo que me cativou o paladar e o olfato. Revivencio também outras nuances que me foram preciosas em experiências para os outros sentidos. Exercito a memória com o mesmo afinco com que exercito os músculos.
Claro que corro o risco de, por exemplo, entrar num restaurante que não existe mais, mas topo o risco e peço o mesmo prato que comi no dia em que lá estive, mesmo que dialogue com garçom que talvez nem exista mais nesse mundo. Também posso vislumbrar um prédio que virou praça ou um café que virou shopping, facilitando uma perdição se lá estivesse. Mas no imaginário, tudo é possível, e pra derrubar o shopping ou reerguer o prédio não é preciso mais que um segundo. Como não costumo decorar o nome das ruas e prefiro não usar o Google Mapas, os próprios lugares vão me dando pistas que me levam onde quero chegar. Tenho uma bússola ladeada pelo coração.
Pra não andar ao léu feito um vagabundo, finjo ter alguma pressa e defino um objetivo concreto. Decido, por exemplo, ir até a Praça Vermelha em Moscou partindo do bairro em que fiquei hospedado da última vez. Nesse caso opto ir de metrô. E se não consigo ler o alfabeto cirílico, ao menos consigo identificar as letras iniciais que me foram cruciais. Na maior parte das vezes quase não me perco e sempre chego exultante no lugar marcado comigo mesmo. As pessoas que encontro pelas ruas se assemelham as que cruzei nos lugares através dos anos. Claro que não é possível dizer que são as mesmas, embora algumas até gostassem de ficar assim, aprisionadas na mesma idade para todo o sempre. Os anos se passam e aquela moça tão bem agasalhada mantém o mesmo olhar brilhante das boas notícias que acabou de receber e que parecem não ter envelhecido, tal como sua pele continua a mesma.
Mas vez em quando, desesperado, percebo que algumas ruas se perdem de mim, por mais que eu insista em não perdê-las para sempre. Nesse caso, só voltando nesses lugares de fato pra recuperar minhas pegadas.
O modo como identifico os equívocos é sempre surpreendente.
Teve aquela vez que eu passeava, na imaginação, por Istambul e queria chegar até aquele trecho do Bósforo onde se pode apanhar um barco para a parte Oriental da cidade. Num certo momento, fiquei em dúvida se naquela rua sem carro eu deveria descer à esquerda ou subir à direita. Resolvi andar um pouco mais à frente optando inventar caminho novo. Mas descobri que essa estratégia só pode ser usava presencialmente. E percebi o equívoco quando dei de cara com o Coliseu de Roma. Naquela altura o sonho já se intrometia na imaginação e minha memória se fantasiava de delírio.
Claro que não descobri o equívoco de uma vez, foi aos passos, o Coliseu foi se apresentando a medida que eu andava. Diante dele constatei que estava no lugar errado do mundo, a não ser que os turcos tivessem plasmado outra realidade. Voltei pelo caminho que havia percorrido e na bifurcação virei à direita com a quase certeza de que lá eu sairia no Bósforo. Mas quando vi a ponta da Torre Eiffel surgir no horizonte, percebi que tinha que voltar. Dito e feito, no outro caminho dei de cara com o barco do Bósforo e de lá rumei para a Ásia da Turquia. Mas o estrago já estava feito. Do barco constatei a silhueta do Coliseu e da Eiffel, como que pra me lembrar que aquelas caminhos iriam se dissolver da minha memória se lá eu não voltasse pra percorrer aquelas trilhas dissolvidas do meu imaginário.
Teve aquela outra vez em que eu fluía no East Village em Nova York e em busca daquela casa de jazz que eu tanto gosto, dei de cara com a casa de shows que os Beatles tocavam antes de estourar para o mundo. Na esperança de que minha imaginação me oferecesse a oportunidade de encontrar o John Lennon mais novo que eu, perguntei para um cara que horas que a banda inglesa tocaria. Quando ele me respondeu em alemão, me dei conta que aquela casa de shows ficava em Hamburgo. Imediatamente olhei em volta e me perguntei em que rua eu havia entrado pra sair de Manhattam e parar na Reeperbahn. Pensei mesmo em buscar a saída daquele novo labirinto, mas quando vi Ringo entrar com sua camisa do time do Liverpool e suas baquetas na mão, percebi que já não se tratava da minha lembrança das ruas e sim de sonho. Normalmente me irrito quando durmo no meio dessas elucubrações, mas nesse caso não, pelo contrário. Foi bonito ver o primeiro show dos Beatles na Alemanha, embora tenha sido estranho eu pedir músicas que eles ainda não haviam feito. Talvez alguns dos nomes de músicas que eles vieram a compor, tenham sido inspiradas nas ideias daquele maluco que gritava na casa de shows em Hamburgo.
“Me solte em qualquer grande cidade do mundo que vou saber me encontrar”, costumo dizer. E quanto mais cidades conheço, mais elas se misturam, de modo que em breve essa minha máxima terá que ser “me solte em qualquer cidade do mundo que vou saber me perder”. Claro que o melhor jeito de conhecer um lugar é com os pés. Deixar seus pés te conduzirem pelos caminhos infindáveis.
Há momentos em que oportunamente eu misturo as cidades na memória, como que pegando o que há de melhor das minhas experiências (e as cidades, para além de suas belezas ou feiúras, são, sobretudo, nossas experiências).
Toma um café da manhã no bairro de San Telmo de Buenos Aires para em seguida dar uma nadada no Arpoador no Rio de Janeiro. Almoço num cosmopolita qualquer de Hong Kong para em seguida me aventurar num tuk-tuk em Nova Déli. Um doce no entardecer numa esquina do Le Marais em Paris pra em seguida correr para não perder o pôr do sol no alto da Praça Michelangelo em Florença. Antes mesmo que a noite domine esse lado do mundo, dou um pião à beira do Tejo em Lisboa da Praça do Comércio até Belém, mas antes mesmo do Mosteiro de Jerónimos, desvio a rota para uma noite caliente de Barcelona, buscando o que há de Gótico em mim. E antes que amanheça, percorro as pontes de Praga sem saber exatamente em que época da humanidade vivemos. Na imaginação que vira sonho (e vice e versa), não é preciso dormir, porque dormindo estamos, e por isso o café da manhã tomo em Vilnius na Lituânia, cidade que conheço como a linha da vida da palma da minha mão.
Quando chega a hora de acordar de fato, olho em volta para saber que cidade terei pra me pertencer.
E entre o que está, o que foi e o que virá, não perco a chance de passear nas veias urbanas que minha memória me permite, efetuando essa extravagância literalmente mundana.

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