Posts Em Destaque

#DIÁRIOdaQUARENTENA19 = 30/03/20

March 31, 2020

#DIÁRIOdaQUARENTENA19 = 30/03/20

 

Chutei um número pra começar esse diário de quarentena. Acho que já estou a dezenove dias nesse regime. Mas não são dezenove dias sem sair de casa. Saio todos os dias pra pedalar ou correr, sempre sozinho e sem estabelecer contato com ninguém (como determinam os especialistas). Mas vivo a mesma agonia que todos (mesmo que com alguns instantes pra movimentar o corpo).

Curiosamente eu sempre fiz home office. Mas é totalmente diferente fazer em quarentena. São esportes diferentes. A obrigatoriedade muda a perspectiva e a sensação.

Tenho lido todo dia um “diário de quarentena” escrito por Susana Bragatto de Barcelona publicado diariamente na Folha de S.Paulo. Gosto das descrições dela a um só tempo cruas e poéticas. Ela me inspirou em fazer o meu. Como um exercício de escrita. Talvez seja mais uma demanda pra preencher o tempo com o que me potencializa. Porque não gosto da perspectiva de “passatempo”. O tempo tem que ser vivenciado e não perdido. Mas na situação atual todos ficamos ansiosos pra que esses tempos virem apenas a história dos dias mais estranhos de nossa vida em sociedade. Então numa tentativa de presentificar, vou tentar escrever esse diário. Mesmo que sem pretenção. Porque fazer um diário é algo sempre pretensioso. Você parte do princípio de que o que você vive pode ser relevante pra alguém ler. A não ser que escreva pra você mesmo. Acho que esse é o meu caminho.

Lembrei alguns diários que já li. E claro que de cara me veio o mais famoso. Uma menina escondida ao escrever sobre sua rotina no confinamento (aquele sim um confinamento terrível) fez um documento pra história. Anne Frank. Outros que li foram relevantes pelos personagens que o fizeram. Li o do Brecht que contava de maneira simples sua rotina de vida. Não fosse Brecht seria bem desinteressante. Por outro lado, não gostei dos diários de Susan Sontag. Sei da importância dela, mas acho que ela fazia os diárias mais pra organizar as ideias do que vislumbrando publicação. Mas sei de muitos que transformaram seus diários em obras de arte. E outros, mesmo sendo grandiosos, fizeram dos seus diários obras menores de suas carreiras literárias. Saramago é um bom exemplo disso. E digo isso do lugar de quem está adorando seus CADERNOS DE LANZAROTE. Foram cinco livros abarcando (claro) cinco anos de sua vida. Pouco antes do Nobel. E ele diz no segundo volume, que ao lançar o primeiro seus amigos mais próximos lhe desaconselharam a continuar. Estava queimando sua imagem justamente por ser honesto e direto, sem a qualidade com que dedicava a sua literatura. Saramago teimoso, graças ao Deus que ele não acreditava, continuou. De fato os diários são rasos se comparados a sua imensa obra, mas são muito agradáveis de ler. Claro, não fosse Saramago seriam absurdamente desinteressantes. Mas era Saramago (!!!) e entender como ele lidava com sua rotina de vida é fascinante. Comprei os dois volumes que tenho justamente na Fundação José Saramago em Lisboa, onde pretendo comprar os outros três volumes quando nos for permitido viajar novamente. Quando? Sabe-se lá. Temos que aprender a ter paciência mais do que nunca nessa espécie de prisão domiciliar em que vivemos (sem tornozeleira eletrônica, graças ao Deus de Saramago).

Tenho alternado dias muito sereno com dias muito perturbado. E a alternância é precisa: eu acordo sabendo se é o dia bom ou o dia ruim. E não se trata de acordar bem humorado ou mal humorado. Hoje, por exemplo, é o dia ruim. Quando acordo no dia bom é mais fácil existir. É só deixar a vida levar e ela me leva com força. Organizando as coisas, faço desse vazio coletivo pura produtividade. Agora quando acordo no dia ruim, existir é um peso. Claro que tento superar essa expectativa, mas vez em quando me parece impossível. Tem sido mais forte que eu. E mais: nesses dias ruins eu sinto uma coisa que não sinto desde adolescente: tédio. Nada mais adolescente que tédio. E a questão não é não ter o que fazer. Tô cheio de livros pra ler, séries/filmes pra ver, coisas pra escrever, estudar, decorar, ensaiar, enfim, o problema é que não dá vontade de fazer absolutamente nada, uma quase depressão. Que eu combato comendo doce. Vale? Vale. Porque no dia bom eu malho, escrevo, leio, estudo, me comunico e grito da janela às 20h “Fora Miliciano”. Mas no dia mal eu também grito isso. Mas talvez sem tanta força. No dia mal fico sem força até pra odiar aquele que parece querer nos conduzir para o abismo. Mas não iremos. Antes o lançaremos.

Pra não pensar muito nesse (des)presidente que parece querer povoar todos os (piores) debates, tenho pensando em pessoas que me fortalecem. O pensamento do antropólogo italiano Domenico de Masi tem sido fundamental. Para além do “Ócio Criativo” que ele escreveu, ele fala muito sobre como lidar com a tecnologia. Em tempos de ultra-conectividade, é preciso não tornar-se escravo das ferramentas e sim fazê-las nossas escravas. Nós controlamos esse jogo. Pensei isso semana passada, na segunda semana da quarentena em que fiquei entre Insta, Face, Twitter, Whats, Youtube e TV de maneira incessante e demente. Estava me fazendo mal. Decidi então que não preciso me atualizar o tempo todo. Mesmo que fique um pouco “por fora”. Leio jornais de manhã e a noite vejoo Jornal Nacional (que sempre repudiei, mas que está fazendo um grande trabalho nessa conjuntura). Além, claro, dos podcasts que me são VITAIS.

Distribuindo as atividades/compromissos nesse tempo/espaço restritos, a vida vai se tornando mais suportável, com lampejos de êxtase e lampejos de tristeza. E ter conseguido terminar esse diário hoje me trouxe mais um lampejo de êxtase justamente porque hoje é o dia mal.

 

Please reload

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Posts Recentes

May 10, 2020

February 9, 2020

Please reload

Arquivo