TRABALHADORES DE DOMINGO

Livros de contos inspirados em profissões em que o domingo é “dia útil”. São 33 contos. 
Abaixo três contos integrais.

 

A coxinha de camarão e a felicidade

 

 

Naquela mesa tinha quatro pessoas. Dois casais. Uma loira de olhos castanhos claros, calça branca apertada, blusa azul de manga cumprida sem sutiã e brincos de argola e seu namorado, provavelmente ( muito provavelmente), era o moreno de olhos verdes, baixinho, com um jeans e uma camiseta laranja com uma estrela no peito, que estava à sua frente.

Do lado desse casal (provável casal), estava o outro casal ( provável outro casal): uma morena, de olhos pretos, brincos de tartaruga, batom claro e blusa verde; a sua frente, um cara alto com um nariz grande ( imensamente grande, um baita napão), cabelo cumprido, uma jaqueta de couro e uma voz chata.

Estavam esperando a comida; já tinham devorado o couvert: pães especiais feitos no próprio restaurante, com uma receita única, com patê de camarão único, patê de abóbora único ou manteiga comum. Estavam na segunda rodada de cerveja e já tinham devorado quase toda a entrada. A entrada consistia em coxinhas de camarão ( coxinhas especiais de camarão, feitas somente no restaurante; em nenhum outro lugar do mundo seria possível encontrar esse tipo de coxinha de camarão!). Um pratinho com cinco coxinhas custava vinte cinco reais. Ou seja: cinco reais cada coxinha!!!

Na primeira rodada de entrada, quando viram que sobrou apenas uma, acharam melhor pedir outra porção, pelo fato de todos olharem aquela coxinha solitária e desejarem-na. Ficou um clima chato. Por um tempo o problema foi resolvido com o novo pratinho. Até que, de repente, sobrou uma novamente. Todos se olharam e existia uma interrogação no ar. Quem havia comido duas coxinhas nessa rodada? Se tivesse sido a garota loira, naturalmente a garota morena poderia pegar essa outra e a situação, na certa, ficaria igual para os dois casais, tendo em vista que os caras eram cavalheiros. Mas ninguém tinha coragem de perguntar “quem comeu a penúltima coxinha?” e se alguém tomasse coragem e perguntasse, provavelmente quem comeu a penúltima não se entregaria. Talvez, no momento da conversa, das risadas e tudo mais, nem a própria pessoa que comera a coxinha tivesse prestado atenção. Havia um clima estranho no ar.

Um deles, o alto e narigudo ( napudo) e com voz chata, puxou assunto, mas não adiantou, a atenção de todos estava na coxinha e o clima estava cada vez mais pesado. Os pratos seriam a salvação: quando esses chegassem, na certa o garçom tiraria o pratinho com a chata e deliciosa coxinha.

O garçom daquela praça, já estava de olho na coxinha. Essa situação quase sempre acontecia, ele achava genial esse número de coxinhas. Quando um casal pedia uma porção, também sobrava uma, quase sempre, e quando isso acontecia os garçons comemoravam e devoravam-na na curva a caminho da cozinha.

Esse garçom que sonhava em ser dono de padaria, estava com uma fome latente; chegou atrasado, não havia jantado e ainda teria três horas e meia de trabalho pela frente. Seus olhos brilhavam sempre que olhava pra coxinha, lá, solitária, nua, única, com camarões belos dentro e custando cinco reais. Com cinco reais esse garçom fazia uma bela refeição.

Por mais que o garçom quisesse, não adiantava, ele não conseguia olhar pra outra coisa a não ser a coxinha. Ele, que por várias vezes já havia comido coxinhas sóbrias e outras sobras, sabia o que lhe aguardava, ainda mais com essa fome que sentia, ele estava ansioso, empolgado e degustava, só de olhá-la, o sabor em sua boca. Ele ansiava tanto quanto os quatro ansiavam a chegada dos pratos pra se livrarem do clima chato.

Ele, o garçom, estava vivendo alguns dramas familiares, doenças, falta de grana, crise. Estava tudo difícil. Para os quatro sentados estava tudo bem. A coxinha naquele momento, era apenas uma pedra no sapato, na vida deles estava tudo bem, quando perguntavam pra eles como estavam, eles respondiam “tudo ótimo”. Não era apenas uma resposta rotineira, era verdade, eles estavam realmente bem e o garçom sabia muito bem disso. O garçom sabia muito bem que com os carros importados deles daria pra comprar milhares de coxinhas de cinco reais. Aquela, na certa, não faria falta pra eles, mas pra ele, seria um momento de felicidade único, por isso estava tão tenso, tão ansioso.

Ele se aproximou mais uma vez e viu a coxinha solitária ao lado de uma rodela de limão intocada. Seu coração bateu, seu estômago gritou e sua boca umideceu. Andou um pouco pelo salão imaginando os camarões descendo goela abaixo, seus olhos fechados para melhor sentir o gosto e... Sorriu ao ver os pratos chegando na mesa. Foi quase correndo ajudar a retirar os pratos que lá estavam, dentre eles o pratinho com a coxinha. Retirou com pressa sem olhar direito e colocou os pratos sujos no balcão para o ajudante geral levar pra pia. Andou sorrindo calmamente para o banheiro, com o pratinho da coxinha; era um pratinho diferente dos outros, era marrom e mais grosso. Ele queria comer sem pressa, sem medo, feliz, por isso não enfiou goela abaixo na curva. Assim que se trancou e acendeu a luz, se deparou com o pratinho sem a coxinha, apenas com a rodela de limão. Um ódio animal o invadiu. Chegou a babar a água que umidecia sua boca. Quem foi o filho da puta ou a filha da puta? Imaginou-se batendo em um por um, arrancando os cabelos das mulheres, sangrando a boca dos caras e destruindo seus carros.

Cheirou o pratinho e lá estava o cheiro da coxinha. Cheirou o limão que ficara tanto tempo abraçadinho com a coxinha, também com o cheiro forte da coxinha de camarão. Fechou os olhos, pegou o limão e colocou-o na boca. Mastigou lentamente, com um sorrizinho no canto da boca. Uma sensação boa o invadiu, era a felicidade: ele estava comendo a melhor coxinha de sua vida.

 

 

             Branca de Neve e as cabeças

 

 

Eu preferia ir com a cabeça do Piu-Piu ou do Frajola ou do Pernalonga ou do Power Ranger ou da Minie ou da Margarida ou do Pluto ou dos Teletubies ou do Pokémon ou qualquer cabeça que escondesse a minha. Mas nessa festa, eles queriam uma Branca de neve e me dizem, desde criancinha, que sou a cara da Branca de Neve.

Sempre que me perguntam o que sou ou o que faço, digo com uma dor no coração que sou atriz. A dor no coração é pelo fato de não conseguir viver da minha profissão. Faço animação de festa de criança, ganho muito pouco em cada festa, mas como faço muita festa, consigo me manter. Mas sou uma atriz. Meu coração está doendo e eu me sinto como uma puta contrariada. Me sinto infeliz. Estudei teatro quatro anos, fiz artes cênicas, estudei a história do teatro, estudei as potencialidades da minha voz, do meu corpo, enfim, estudei, estudei e estudei pra poder dizer hoje que sou atriz. Hoje faço animação de festa de criança. Amo interpretar personagens. Não personagens como a Branca de Neve em uma pecinha idiota e sem graça com atores medíocres para crianças tolas. Muito menos Piu-Piu, Frajola, Pluto, Power Rangers, não, isso pra mim é bobagem, é só pra não passar fome. Amo fazer teatro, interpretar personagens, enfim, essa é minha vida, mas as pessoas não gostam de teatro, não vão ao teatro, principalmente em peças de artistas iniciantes como é o meu caso, então fica difícil me manter só com teatro.

Estou num ônibus em pé, e quem me olha pensa que estou mal humorada. Acerta. Estou puta. Puta como uma puta puta. Na sacola leve da Levi’s que trago no ombro esquerdo está a roupa colorida da branca de neve. Quem me olha não pensa apenas que eu estou puta. Pensa que a Branca de Neve está puta. Estou com a maquiagem já na cara, com a tiara da Branca de Neve e tudo. Estou a cara da Branca de Neve. Tem uns dois paspalhos feiosos que não param de me olhar. Fodam-se. Não gosto quando ficam me secando dessa forma como me secam, eles me olham com uma cara de necessitados que me dá nojo. As mulheres não gostam de homens assim, necessitados, a não ser as que não se dão valor, as que se dão valor, como eu, gostamos de homens que estão bem, equilibrados.

Estou a caminho da festinha em um bufet de classe média média. Na porta só vai ter Corsa, Uno, Gol, Palio, Fiesta, não vai passar disso. O povo da classe média adora imitar o povo da classe alta. É patético. Por pensar em patético, eu bem que preferia estar com a cabeça do pateta na cabeça, mesmo não podendo respirar direito, prefiro que as pessoas não vejam minha cara, com as máscaras pelo menos, eu não preciso fingir uma expressão feliz, eu posso até chorar enquanto danço com as crianças contentes. Mas não, sou muito requisitada para interpretar a Branca de Neve. Às vezes tenho vontade de fazer sei lá o quê, talvez sumir, sei lá pra onde, talvez, sei lá, não sei, sei que as vezes fico confusa, muito confusa, tenho vontade de não ter nascido, mas nasci e estou aqui, quase chegando no bufet, com a certeza de que na quarta-feira terá uma graninha na minha conta. Graninha graninha mesmo. Não dá pra quase nada. Mas pelo menos é alguma coisa.

Desci do ônibus e ouvi um paspalho gritar lá de dentro “pega no meu anãozinho, Branca de Neve”. Não liguei. É só um infeliz que me desejou a viajem toda com uma ponta de esperança de me comer. Nunca isso iria acontecer com um paspalho desse, nunca! Quando me viu descer, o sonho acabou e ele externou o que pensava. Acho que foi isso que acabou de acontecer, acho mesmo.

Caminho lentamente olhando pras bexigas coloridas em volta de uma casa grande que é a casa onde funciona o bufet. Vejo uma grande poça de água, filha da chuva recente. Paro e vejo o céu cinza no chão. Vejo também, minha cara de desânimo. O que eu faço com essa cara desanimada? Tenho que mudar a expressão, essa tristeza tem que sair da minha cara. Mesmo sendo atriz, não consigo mudar a expressão. Melhor ir caminhando, está chegando minha hora, vou direto para o banheiro e enquanto estiver me trocando, choro, solto todas as lágrimas necessárias para mudar a expressão, se alguém perguntar o motivo, digo que minha tia morreu, ela morreu mesmo, mas como não tinha contato com ela, nada sofri. Vou fazer isso.

Entrando no bufet, vejo a Márcia Souza, boa atriz, ela está com uma cara de mágoa,

de raiva, de choro, de tudo de ruim, ela está mal, mas não tem problema, ela nem vai precisar chorar pra mudar de expressão: ela vai fazer a bruxa má. Não consegui segurar, desabei a chorar, mesmo antes de entrar no banheiro.

 

 

 

 

Maquete do tempo

 

 

A maquete do edifício fazia sempre os olhos do corretor brilharem. Ele sabia que o prédio não iria ficar daquele jeito, mas que bom seria se ficasse!

O corretor já era experiente, já havia passado por várias corretoras ( Andrade Moreno Corretora; La Paz corretora; corretora de imóveis Vieira e Silva; Corretora de imóveis Casa, apartamento e cia.; corretora Família Silva Telles; Pinheirinho corretora; Bom Dia corretora; corretora de imóveis Famílias Unidas; etc.) e já tinha visto vários tipos de maquetes. Nenhum prédio nunca ficou idêntico à maquete. Alguns ficaram parecidos, outros quase parecidos, mas a maioria quase quase parecidos. O problema é que alguns compradores, esperam que seja idêntico. Teve um cara que comprou o primeiro imóvel de sua vida na mão dele ( do herói desse conto- o corretor) e o prédio não estava pronto, então o corretor tentou explicar como seria o prédio segundo a planta e a maquete. O prédio não ficou feio, mas ficou muito diferente do ( prédio) da maquete. O comprador quando viu, quis matar o corretor. O corretor só conseguiu a sua vida por ter jogado a culpa nos peões de obra, todos fortes e com caras de mau. Então o comprador começou a procurar as qualidades do prédio e o corretor convenceu-o de que só a fachada era diferente, a planta estava bem próxima à realidade. O cara só ficou totalmente calmo, quando o corretor lhe deu de presente a maquete do prédio, que o cara, hoje, tem como principal enfeite da sala.

Depois desse caso ele mandou uma carta para o cara que faz as maquetes da corretora e a frase principal era: “Capriche menos, porra!”, mas não tinha jeito, as maquetes cada vez apareciam melhores, o cara que fazia era um artista em desenvolvimento. E essa, com certeza, ele sabia que daria para seu filho quando vendesse todos os apartamentos. Seu filho adoraria! Ele pelo menos, adoraria ter ganho uma maquete dessas quando criança.

Ele olhou a porta se mexendo, seu coração bateu um pouquinho mais acelerado, como quem leva um sustinho, ele esperava algum cliente, mas era o vento. Ele mandou o vento sentar-se com cara de quem está de saco cheio ou com cara de quem recebe quem não gosta. Ele gostava do vento

A semana inteira só haviam entrado duas pessoas por aquela porta: um office-boy perdido e louco por um copo d’água e um cara vendendo rifa. Para o office-boy deu água e informou-lhe que os taxistas daquele ponto conheciam tudo por ali. Para o cara da rifa, quase nada falou: o cara falava muito, não parava nem para respirar, falavafalavafalavafalavafalavafalavafalava

e falava. O dinheiro seria pra salvar a vida de sua tia, a mulher que o criou, e que estava muito doente. Quem ganhasse levaria aqueles dois ursos maiores do que ele e que ele carregava como quem carrega a cruz. O corretor pegou um dos ursos e abraçou. O urso era leve e fofo. Comprou três nomes da rifa: Carolina, Maíra e Graziela. Nome das suas namoradas da adolescência. Mas se ele ganhasse, um dos ursos, iria direto para os braços da Renata, sua esposa, e pra Daniela, sua filha, o outro. Quando ele abriu a porta de vidro para o cara da rifa ir, sentiu que nunca mais iria ver nem o cara, nem os ursos.

Sabia esperar mais do que todos os corretores que conhecia. Todos ficavam mal humorados quando não apareciam clientes, ele só ficava um pouco ansioso e um pouco de saco cheio ( que é muito diferente de mal-humorado, segundo ele). O dono da terceira corretora em que trabalhou (ele já estava na décima terceira) costumava dizer que ele nasceu pra isso, costumava dizer nas reuniões que ele era o melhor corretor de todos. Ele se orgulhava disso, se orgulhava.

Estava quase na hora de ir embora. Antigamente, sempre que chegava essa hora, ele fazia um balanço do dia. Assim que acabava o balanço, pensava no amanhã. Ultimamente os dias estavam tão iguais, que sempre que pensava no amanhã, tinha a impressão de que estava fazendo o balanço de ontem. Mas como não queria ter dores de cabeça e insônia, resolveu não pensar no amanhã, apenas faria o que melhor sabia fazer: esperar, esperar e esperar, sem nada pensar!

Calmamente guardou suas coisas na pasta, tirou a gravata, colocou na gaveta, aproximou a maquete do vidro, para que algum interessado olhasse de noite. Saiu do cubículo de vidro e trancou. Deu três passos e observou a maquete. Aproximou-se, e se fingiu de cliente interessado procurando o corretor lá dentro e ficou agoniado. Cadê o corretor? Eu quero me informar sobre o prédio, sobre o apartamento e cadê o corretor? Isso poderia acontecer! Hoje em dia as coisas estavam diferentes. As pessoas não tem mais tempo durante o dia, talvez queiram procurar imóveis de noite, talvez por isso não esteja vendendo bem! Ele sempre ouvira dos seus líderes que teria que ser criativo e trabalhador para realizar grandes negócios... É isso!!!

Com um sorriso de malandro e com olhos de drogado no êxtase, foi até o orelhão e comunicou a esposa que daquela noite em diante, dormiria lá até vender todos os apês! Quando Renata começou a reclamar, ele a interrompeu dizendo que era um corretor criativo e sobretudo trabalhador! Disse que não demoraria muito tempo pra vender tudo... O tempo... O que era o tempo? Pensaria no tempo, quase o tempo todo naquele cubículo, sendo observado como um animal no zoológico pelos que passavam de ônibus. Em pouco tempo, aquela maquete estaria no quarto de seu filho.

 

 

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